Retomada de trens de passageiros deve baratear viagens em até quatro vezes no Ceará

Atualmente, há três projetos de ferrovias de passageiros no Ceará.

Escrito por
Paloma Vargas paloma.vargas@svm.com.br
Máquina e vagões do trem de carga da Transnordestina Logística.
Legenda: Estudos avaliam possibilidade de trens da ferrovia Transnordestina serem mistos, carregando cargas e pessoas.
Foto: Kid Junior.

Estudos técnicos realizados pelo Governo Federal devem decidir a viabilidade de construir trens de passageiros no Ceará e em outros estados do País. Nesse contexto, o custo dos trens de passageiros é até quatro vezes menor do que o modal rodoviário

Heitor Studart, coordenador do Núcleo de Infraestrutura da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), explica que, após o transporte aquaviário, o ferroviário é o mais econômico do mundo, sendo o rodoviário quatro vezes mais caro e o aéreo até vinte vezes mais custoso. 

"O modal ferroviário, no mínimo, é de três a quatro vezes [mais barato que o ônibus]", destaca Studart, sugerindo que uma passagem de trem poderia custar um quarto do valor atual de uma viagem rodoviária.

Além do baixo custo para o passageiro, a eficiência logística é outro diferencial. O especialista afirma que os novos trens possuem velocidade de cerca de 60 a 80 quilômetros por hora.

Isso deixaria, segundo ele, a viagem interestadual e regional competitivas com outros modais, em relação ao tempo.

Além disso, na ferrovia, a chance de transtornos, como os congestionamentos das estradas, seria mínimo.

"Um comboio de trem de 70 vagões, são 280, 300 caminhões de cargas. Nada impede que um trem, como o da Transnordestina, tenha vagão de passageiros junto com os vagões de carga. Nesse caso, um vagão pode abrigar passageiros de até três ônibus, na média, com conforto. Por aí você tira a magnitude desse transporte", argumenta ele.

Para Studart, a infraestrutura básica para a retomada do modal ferroviário para passageiros já é uma realidade.

O mais difícil já se encontra implantado, que são os eixos antigos ferroviários. O que precisa ser feito agora são estudos de viabilidade econômica e de concessão de 20, 30 anos, para o setor privado assumir essas operações e torna-lás viável".
Heitor Studart
coordenador do Núcleo de Infraestrutura da Fiec

Ferrovias já foram espinha dorsal do Ceará

As ferrovias já foram a espinha dorsal do desenvolvimento cearense, com composições que ligavam a capital a destinos como Baturité, Quixadá e o Cariri, além de outros estados do Nordeste, como Piauí e Pernambuco. 

A nostalgia de trens icônicos como o "Sonho Azul" e o "Asa Branca" agora divide espaço com esses projetos de viabilidade econômica que buscam resgatar a integração regional perdida há décadas.

Heitor Studart relembra com vivacidade esse período de ouro.

Foto histórica do trem Expresso Asa Branca na década de 1970.
Legenda: Foto histórica do trem Expresso Asa Branca na década de 1970.
Foto: Reprodução.

"Eu mesmo tive na infância várias viagens de trem para Quixadá. Utilizávamos transportes ferroviários de passageiro e era lotado", lembra.

No entanto, o luxo e a conectividade de trens como o Expresso Asa Branca, que ligava Recife a Fortaleza na década de 1970, duraram pouco devido à falta de investimentos.

André Cardoso, historiador pernambucano e membro do Comitê Brasileiro para a Conservação do Patrimônio Industrial, pontua que "o Asa Branca durou apenas 5 anos". "Ele já surgiu em meio ao processo de sucateamento da malha ferroviária estatal brasileira no Nordeste".

Segundo ele, o abandono desse modal trouxe prejuízos que foram além da economia. "A desativação dos trens de passageiros gerou impactos significativos para diversas cidades e populações".

Mapa mostra trajeto de antiga rodovia de passageiros, de Fortaleza para Recife, passando por cidades do inteiror dos dois estados e da Paraíba;
Legenda: Linha de passageiros possuia cerca de 20 estações no trajeto que passava por cidades do inteiror do Ceará, Pernambuco e Paraíba.
Foto: Mapa elaborado por Karla Linck/ Reprodução.

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Projetos estratégicos no Ceará

Atualmente, três grandes eixos de transporte ferroviário de passageiros estão sob análise técnica e política.

  • Fortaleza a Sobral: A Infra S.A. conduz o Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental (EVTEA) para este trecho de 240 km, com investimento de R$ 2,3 milhões para avaliar a operação em uma malha que hoje é usada apenas para cargas.
  • Teresina a Fortaleza: O projeto visa aproveitar a malha da FTL que passa por Teresina e Sobral até chegar à capital cearense, integrando o Norte do Nordeste.
  • Fortaleza a Juazeiro do Norte: Discute-se o compartilhamento da linha da Ferrovia Transnordestina (atualmente em obras e com previsão de conclusão em 2027) para transporte humano, atendendo a um pedido do Governo Federal para que a ferrovia seja híbrida.

A viabilidade desses planos ganha força com a devolução de 3.001 quilômetros de ferrovias não operacionais pela FTL à União, sendo 600 quilômetros apenas no Ceará, ligando Fortaleza ao Crato.

Possibilidade de desenvolvimento social e econômico

A retomada das ferrovias de passageiros no Ceará é vista por especialistas como uma forma de reduzir poluentes e acidentes nas estradas.

O historiador André Cardoso ressalta que há demanda para a reativação de trens regionais e de perfil urbano, com a adequação das linhas existentes às novas demandas e às tecnologias atuais. 

"Além de contribuir para enfrentar os graves problemas de mobilidade entre regiões, a retomada do transporte de passageiros sobre trilhos também possibilitaria a preservação do patrimônio ferroviário, o incentivo à atividade turística, a redução da emissão de poluentes e dos elevados índices de acidentes nas rodovias". 

Porém, ele explica que precisa ser colocado na balança, ao contrário do que ocorreu nas últimas décadas, é a viabilidade social desse sistema.

"A desativação dos trens de passageiros gerou impactos significativos para diversas cidades e populações. Sob essa perspectiva, a reconexão ferroviária pode abrir novas possibilidades para o desenvolvimento social e econômico das regiões".  

Questionado pelo Diário do Nordeste sobre o futuro dessas linhas e a integração com o turismo regional, o Ministério dos Transportes informou oficialmente que "avalia e estuda, com base no contrato com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), as possibilidades de destinação da malha existente na região Nordeste para a rota ferroviária turística". 

"Assim que houver definições sobre o projeto, será feita a divulgação de praxe".

 

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