O Ceará possui oito blocos no leilão de petróleo marcado para outubro deste ano. Juntos, eles têm valor mínimo de R$ 38 milhões a serem pagos à União pelas empresas vencedoras.
O leilão foi confirmado nessa sexta-feira (22) pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
As áreas integram os 495 blocos de todo o País nos novos ciclos de ofertas permanentes de concessão e partilha da ANP.
Os blocos cearenses são para a exploração offshore (em águas profundas), com contrato de sete anos para a fase exploratória.
Eles se estendem por 10 municípios do litoral cearense, desde Acaraú até Cascavel, passando por Fortaleza (ver quadro abaixo).
Após leilão deserto em 2025, Ceará tem chance este ano?
Em 2025, blocos em águas cearenses foram a leilão mas não receberam nenhuma proposta.
Para o engenheiro de petróleo, diretor de comunicação da Associação dos Engenheiros da Petrobras (Aepet) e da Synergy2Power, Ricardo Pinheiro, a ausência da Petrobras pode ter sido o fator decisivo.
"Sendo a Petrobras mais conhecedora das áreas offshore do Brasil, quando ela não mostra interesse, as outras empresas se afastam. Essas explorações em águas profundas são extremamente caras. Só se arrisca quem tem algum conhecimento", avalia.
Para este ano, contudo, ele avalia que o cenário deve ser diferente.
"Os blocos estarem confirmados para o leilão já é uma ótima sinalização do mercado. Quando o desinteresse é amplo, a ANP nem os leva a leilão", destaca.
Segundo o especialista, antes do leilão existe uma fase de consulta entre potenciais interessados para verificar se os blocos têm chance real de serem arrematados.
"Nesse caso, essa fase já passou. Algumas empresas devem ter demonstrado interesse, e os blocos estão indo a leilão", detalhou.
Quem pode se interessar pelos blocos do Ceará?
Os blocos integram a Margem Equatorial Brasileira, faixa que vai do Amapá ao Rio Grande do Norte.
Para Pinheiro, por se tratar da Margem Equatorial, a melhor opção seria a Petrobras, que já possui conhecimento da área por perfurações realizadas há mais de 12 anos e estudos mais atualizados, mas outras companhias também podem se interessar.
"O que é mais comum quando se disponibilizam áreas novas é que as outras petroleiras esperem pela Petrobras para decidirem, seguindo as escolhas dela. Elas sabem que a Petrobras tem a melhor tecnologia e a maior capacidade de acerto", observa.
O que o Ceará ganha com esse leilão?
Conforme o especialista, o novo ciclo da ANP abre uma oportunidade para o Ceará retornar ao interesse do mercado de petróleo.
Estudos mais aprofundados das áreas, explica, podem levar a novas descobertas e ao desenvolvimento de uma nova fronteira econômica e estratégica no setor de energia.
"O Brasil precisa muito que tenhamos sucesso nessas descobertas. Suas reservas, se confirmadas, podem ser maiores que as do Pré-Sal", avalia.
"E o Ceará, caso seus blocos venham a se desenvolver para projetos de prospecção e produção, ganhará royalties, mercado de serviços offshore e muitos empregos de alto valor; a indústria de petróleo costuma pagar muito bem", destaca.
Exploração offshore parada há décadas
A exploração offshore no Ceará está parada há décadas. As poucas áreas que já produziram se resumiam aos campos em águas rasas de Paracuru, hoje fechados, aponta Pinheiro.
Entre 2010 e 2014, a própria Petrobras ainda perfurou dois poços em águas profundas para estudos, mas esses blocos foram devolvidos à ANP.
Recentemente, a Petrobras anunciou o descomissionamento desses campos e plataformas.
O descomissionamento dos campos de Paracuru, no entanto, não tem qualquer impacto sobre o leilão de outubro.
Momento geopolítico
Pinheiro destaca que o leilão de outubro chega num momento estratégico da crise energética global. Para ele, o setor de petróleo ainda será muito importante por muitos anos, apesar dos efeitos ambientais.
O Brasil, segundo o especialista, só não enfrenta desabastecimento e preços elevados como os observados nos Estados Unidos, na Europa e na Ásia graças às decisões tomadas décadas atrás de desenvolver o setor desde os anos 1960 e 1970 e de apostar no Pré-Sal, a partir de 2007.
"Se tivéssemos perdido essas oportunidades, hoje estaríamos pagando um preço altíssimo nas bombas e na soberania energética. Hoje exportamos petróleo bruto e ganhamos divisas por termos apostado no escuro há anos", afirma.
Para o especialista, nenhum país estará soberanamente seguro em relação às suas necessidades energéticas enquanto depender de outras nações.
O leilão da ANP está marcado para 7 de outubro. Até lá, as empresas inscritas podem apresentar declarações de interesse pelos blocos cearenses. Só então será possível saber se o Ceará terá, desta vez, compradores.