Riscos e falta de leitos: as dificuldades para a transferência de pacientes com Covid-19 no Ceará

Cearenses infectados e familiares compartilham drama para conseguir uma vaga de terapia intensiva diante de sobrecarga no sistema causada pela segunda onda da pandemia no Estado

Transferência de pacientes Covid-19 em ambulâncias do SAMU no Ceará
Legenda: Médico interventor do SAMU Ceará aponta a necessidade de quadro clínico estável do paciente para poder realizar a transferência entre unidades de saúde
Foto: Camila Lima

Com o aumento da demanda por leitos para pacientes com Covid-19 no Ceará, muitos familiares têm enfrentado a luta para conseguir transferência e garantir o atendimento adequado. O tempo de espera, porém, tem sido mais longo que o ideal, fator determinante para agravamento do quadro clínico de cearenses.

Aurenir Alves, 62, já aguarda há quatro dias por uma vaga de UTI que a permita respirar. Segundo a sobrinha, a advogada Rafaela Alves, a tia está internada em um hospital municipal de Fortaleza desde a última quinta-feira (11), após apresentar febre e “muita falta de ar”.

A idosa contraiu Covid após acompanhar a mãe, Áurea Alves, 92, em uma internação hospitalar para tratar de problemas cardíacos. Lá, dona Áurea foi infectada pelo coronavírus, morrendo três dias depois por complicações da virose. No mesmo dia, 5 de março, a mais nova manifestou os primeiros sinais.

“Ajuizei um pedido de leito de UTI, o juiz concedeu há três dias, mas a Central de Leitos diz que não tem nenhuma vaga em Fortaleza. O sentimento é de desespero. As pessoas estão morrendo, minha tia está agonizando. Já perdemos minha avó, precisaremos perder outra familiar?”, questiona Rafaela.

A reportagem questionou as Secretarias de Saúde de Fortaleza (SMS) e Estadual (Sesa) sobre a quantidade de transferências de pacientes com Covid-19 realizadas entre equipamentos dentro de Fortaleza e entre municípios, em 2020 e 2021; e também, o detalhamento das unidades com maiores números de transferências de pacientes com coronavírus, se houve e qual o número de pessoas que morreram em trânsito (durante o deslocamento entre hospitais), e quais municípios mais enviam pacientes à Capital. Mas, até o momento desta publicação, não houve retorno.

Luta pela transferência

Para Mariana Navarro, 37, a espera pela realocação do pai, Luciano Pessoa, 73, se alongou por 10 dias, quando o idoso, internado na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do município de Camocim, conseguiu um leito de UTI no Hospital Regional Norte (HRN), em Sobral, no último sábado (13). 

A vaga num leito de tratamento intensivo vinha sendo pleiteada desde o dia 3 de março, quando Luciano foi intubado por complicações da Covid-19. Por meio da Defensoria Pública do Ceará, Mariana entrou com ação judicial e conseguiu uma liminar determinando a transferência do pai em até 24 horas. O procedimento, porém, só seria realizado cinco dias depois. Mas já era tarde.

Legenda: A empresária Mariana Navarro, 37, precisou lutar para conseguir um leito de UTI para o pai, Luciano Pessoa, 73, recorrendo à Defensoria Pública do Ceará
Foto: Arquivo pessoal

No processo de transferência da sala em que estava internado para a ambulância que o levaria para o HRN, o aposentado sofreu uma parada cardíaca, e não resistiu. “Ele entrou na ambulância vivo para fazer a transferência, mas o carro não chegou nem a sair da UPA”, detalha a filha, que vive em Pernambuco. 

“Foi muito angustiante. Foram 10 dias muito difíceis, a gente sofria, encaminhava pedido para outro hospital, esperando que abrisse vaga, mas não abria. Fiz um vídeo de desabafo, tinha a liminar, ligava sempre para a central... Não desejo a ninguém o que passei”, compartilha.

Para Mariana, a realidade da segunda onda de incidência do coronavírus no Ceará tem gerado uma busca por leitos que o sistema de saúde não consegue suprir.

“É um número absurdo de pessoas esperando a vaga de UTI. Essa nova cepa é muito mais contagiosa, a segunda onda com certeza é muito difícil. A médica me disse que nunca viu nenhum paciente ficar mais de 10 dias sem vagas, mesmo no pico da primeira onda. Dessa vez está pior”, conclui.

Abertura de leitos

Como forma de tentar surprir a demanda e garantir o atendimento para pacientes com Covid-19, o Estado abriu 253 leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e enfermaria no Ceará na última semana, conforme anúncio do governador Camilo Santana (PT) no sábado (13). 

Até a data, o Ceará contabilizava pelo menos 1.341 leitos ativos de UTI para pacientes com a doença. O número representa quase 20% a mais do que a quantidade registrada em junho de 2020, quando o Estado contabilizou o maior número de unidades da primeira onda, quando havia 1.120 leitos ativos em 2 de junho, segundo dados da plataforma IntegraSUS, vinculada com a Sesa. 

"Mesmo com todo o esforço para abertura de novos leitos, pessoas hoje estão esperando em fila para serem atendidas com leito de UTI ou enfermaria. O isolamento tem o papel de frear o vírus”, afirmou Camilo.

Em âmbito municipal, o prefeito de Fortaleza, José Sarto (PDT), pretende inaugurar mais 82 leitos exclusivos para pacientes com Covid-19 ao longo desta semana, assim informou no último domingo (14). Com isso, a Capital irá concentrar 726 unidades específicas para atendimento de pessoas positivadas com o novo coronavírus. 

Recuperação após transferência

O funcionário público José Alves, 58, passou por uma série de transferências ao fim da primeira onda de Covid no Estado, em setembro de 2020, após apresentar sintomas como falta de ar e febre.

Por falta de leito adequado em Pedra Branca, onde morava, a cerca de 261 km de Fortaleza, foi deslocado à Capital. No percurso, porém, enfrentou uma das maiores dificuldades dos dias de doença: a falta de oxigênio na ambulância.

“Quando eu cheguei em Horizonte, mais ou menos, faltou oxigênio. Ouvi os profissionais ficando nervosos, dizendo que eu não ia resistir. Mas eu consegui segurar no pulmão, chegar ao hospital. Daí pra frente, não lembro mais de nada”, declara.

José ficou internado durante quatro dias no Hospital Leonardo da Vinci (HLV), específico para tratamento da Covid-19, e depois foi novamente transferido, dessa vez para o Hospital São José (HSJ), onde permaneceu por 47 dias.

Legenda: José passou pela primeira transferência ainda em setembro, percorrendo cerca de 261 km entre o município de Pedra Branca até Fortaleza
Foto: Pedro Viana

“Nesse tempo que eu fiquei lá não dava nada de mim, fiquei sem saber onde estava. O pessoal que tava me acompanhando e os profissionais de saúde contaram o que aconteceu comigo, mas eu não me lembro de nada. E é até melhor, seriam lembranças muito pesadas”, compartilha. 

Após o longo período de hospitalização, o funcionário público precisou de reabilitação para recobrar a fala e os movimentos dos membros inferiores e superiores, que ainda guardam sequelas. 

Para mim foi uma lição de vida, dar mais valor à vida, porque a gente passar esse período - essa quantidade de dias - em praticamente desacreditado pela medicina, mas a fé em Deus foi maior. Foi maior e hoje eu estou aqui contando a história”, finaliza.

Riscos das transferências

Para realizar o processo de transferência de um leito comum para o de UTI com segurança, é necessário ter atenção ao quadro clínico do paciente, alerta o médico interventor do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) Ceará, Francisco Mendonça Júnior.

Caso contrário, podem surgir problemas como insuficiência respiratória, parada cardíaca, hipotensão arterial e dificuldades de sedação durante o translado. 

Dentre os critérios analisados para realizar a transferência há o fator da estabilidade clínica, “incluindo parâmetros respiratórios e hemodinâmicos, que muitos desses pacientes não dispõe devido à gravidade do quadro”, detalha.

Por isso, em alguns casos, mesmo quando há vaga de um leito, o paciente precisa seguir internado na UPA.  

“Mesmo o transporte sendo curto, se esse paciente não cumprir esses critérios, ele pode, no próprio transporte, já morrer. Por isso, a gente tem todo esse cuidado e boa parte desses pacientes com Covid, principalmente os que vão para leitos de UTI, eles se encontram já em situação crítica e sem condição de transporte”, explica Mendonça.  

Conforme explica, a ambulância dispõe de toda a estrutura necessária para realizar a transferência tanto entre unidades de saúde de Fortaleza, como entre os municípios cearenses, sendo considerada uma UTI móvel.

“O problema está realmente na condição do paciente, que vários deles não cumprem o critério de estabilidade para realizar”, finaliza.  

Cenário em 2020

Entre março e dezembro de 2020, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) do Ceará atendeu 12.576 chamadas para transferência ou internação de pacientes, e mais 42.570 para regulação médica. 

Do total, 4.141 chamadas foram de pacientes com Covid-19, sendo a doença pandêmica a responsável pelo maior fluxo de pedidos de socorro ao serviço; seguida por acidentes com motocicletas (3.774), causas desconhecidas (2.785) e mal estar (1.729). 

O maior número de chamados para regulação ou transferência de pacientes no Ceará se refere a idosos com 70 anos ou mais: foram 11.131 no período. Os dados são do Integra SUS, plataforma da Secretaria da Saúde (Sesa), atualizados até dezembro de 2020.

10 hospitais que mais recebem transferências pelo Samu Ceará

  • Instituto Dr. José Frota (IJF);
  • Hospital Regional do Cariri (HRC);
  • Hospital de Messejana (HM);
  • UPA de Juazeiro do Norte;
  • Hospital Leonardo Da Vinci;
  • Hospital Geral de Fortaleza (HGF);
  • Hospital Regional do Sertão Central (HRSC);
  • Hospital São Francisco (Crato);
  • Hospital Regional de Iguatu;
  • UPA de Maracanaú.
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