"A perda do cabelo foi uma das melhores coisas que poderiam ter me acontecido", diz médica cearense

Ana Caroline tem alopecia areata universal, doença autoimune que provoca queda total de cabelo e todos os pelos do corpo. Médica mastologista, ela fala sobre processo de aceitação e como levar a própria condição com orgulho ajuda no processo de pacientes oncológicas

Ana Caroline, tem 35 anos. Nasceu em Fortaleza e, atualmente, mora em Vila Velha, no Espírito Santo. É médica mastologista, casada desde 2016, mãe do Tomás (o seu anjo da guarda que está no céu) e da Catarina, com 3 meses de vida.  

Vivendo a condição com a total perda dos cabelos, denominada de alopecia universal, compreendeu que ali estava a oportunidade de crescimento e desenvolvimento pessoal.   

Há quem possa dizer que a força da mulher está nos cabelos está completamente equivocado! Carol mostra que uma mulher careca ter mais força que qualquer outra, porque tem uma característica singular: coragem e atitude para ser e se mostrar o que é.  

Quando percebeu que a alopecia fazia parte da sua vida? 

Descobri em julho de 2005. Na verdade, o cabeleireiro notou uma falha no meu couro cabeludo, uma área redonda sem cabelo. Eu não notei, porque tinha muito cabelo na época, mas quando começou a agravar, caia muito mesmo! 

Quais as características dessa doença? 

Alopecia areata. É uma doença auto-imune e o meu organismo não reconhece as células do cabelo. Por exemplo: o meu sistema imunológico combate as células capilares, porque interpreta como células agressoras (como inimigas do organismo). A doença por ser de forma focal (poucos focos apenas no couro cabeludo), difusa (várias áreas do corpo) ou universal, que é o meu caso, em que o cabelo do corpo inteiro cai 

Quais foram os tratamentos que você buscou? 

Fiz diversos tratamentos com pomadas, soluções, injeções no couro cabeludo, mas nenhuma delas deu resultado. Quando tomei corticoides o cabelo voltou a nascer, mas resolvi parar, por conta dos efeitos colaterais. Em poucos dias, já estava sem nenhum fio! 

" À medida que me tornei mais segura, não me importo mais. Porque sim, os olhares continuam existindo. A diferença é que eu não me abalo mais"

Só perdeu os cabelos da cabeça ou os pelos do corpo, também? 

Cabelo e os pelos do corpo inteiro! 

Você sente algum tipo de dor? 

Não sinto, absolutamente, nada. Para mim, alopecia não é doença. É uma condição, porque não sou impedida de fazer nada na minha vida e nem tomo qualquer medicação para isso. Apenas não tenho cabelo. Minha vida é completamente normal, assim como os meus exames. 

Como você reagiu quando descobriu? 

No início, foi difícil. Tive medo perder o meu namorado da época me deixar, tinha receio de estar com alguma doença mais grave. Chorei alguns dias e, então, questionei: ou eu enfrento isso da melhor maneira, ou então vou me entregar à tristeza. Resolvi então enfrentar. Acreditei que tudo o que estava me acontecendo teria uma razão. Não entendia naquele momento, mas que algum dia me ficaria claro. Pensar assim tornou tudo mais fácil. 

Usou algum tipo de recurso para esconder a condição apresentada? 

Comecei a usar peruca em 23 de março de 2009, mas nunca cheguei a raspar o pouco de cabelo restante. Acho que fiquei totalmente careca em maio de 2009.  

Qual a maior insegurança? 

De ter alguma doença mais séria 

"Chorei alguns dias e, então, questionei: ou eu enfrento isso da melhor maneira, ou então vou me entregar à tristeza."

Qual foi a reação da sua família e dos conhecidos? 

Claro que o impacto foi forte, mas todos eles me apoiaram e me incentivaram sempre. Minha mãe dizia que, se pudesse, raspava o cabelo dela para me dar. Diziam, também, que a minha beleza ia muito além do cabelo. 

Quando resolveu assumir ser careca? 

Não lembro exatamente do dia que comecei a sair sem peruca, mas foi aos poucos, para ir criando segurança. As pessoas olham bastante na rua, em geral, pensam que estou com câncer. No começo eu estava vulnerável, então os olhares de pena me afetavam. Mas, à medida que me tornei mais segura, não me importo mais. Porque sim, os olhares continuam existindo. A diferença é que eu não me abalo mais. Estou segura da minha condição. 

Quando conheceu seu marido você já estava careca? 

Sim, mas estava de peruca. Contei para ele e ele disse que seria ótimo poder ter uma mulher com vários visuais! Aí, flechou meu coração!  

A alopecia influenciou na escolha da sua especialidade na medicina?  

No período do estágio prático (internato) de mastologia conheci pacientes com câncer que preferiam não fazer quimioterapia pra não perder os cabelos. Aquilo me soou absurdo. Percebi que minha vivência sem cabelos poderia ajudá-las a enfrentar essa fase difícil de perda dos cabelos. Como perdi o cabelo, consigo entender melhor a angústia que as pacientes passam durante a quimioterapia,  afinal, cabelo é identidade pra muitas mulheres. É um acolhimento e uma empatia à causa ainda maior. 

Qual o lado bom em não ter nenhum pelo no corpo? 

Ah, ganho tempo de salão de beleza! Não preciso mais fazer depilação, nem pintar e ainda posso combinar a roupa com o cabelo das minhas perucas se eu quiser! 

"No período do estágio prático (internato) de mastologia conheci pacientes com câncer que preferiam não fazer quimioterapia pra não perder os cabelos. Aquilo me soou absurdo"

Você ainda usa perucas?  

Tenho umas 10 perucas importadas. Atualmente, uso perucas por orientação de pediatra da minha bebê para que ela, nessa fase do crescimento, não me estranhasse por ver várias pessoas com cabelo e a mãe sem cabelo.   

Qual foi a sua grande lição após compreender todo esse processo de aceitação da alopecia? 

Hoje penso que a perda do cabelo foi uma das melhores coisas que poderiam ter me acontecido. Foi um processo, né? Não estou aqui falando tranquilamente, se não tivesse buscado apoio de um profissional competente para compreender e aceitar tudo isso. Passei por muita insegurança, questionamentos e medo. Através do amadurecimento, autoconhecimento, me tornei segura. Exerço a medicina numa especialidade que me encanta. Percebi, também, que a alopecia fez bem a mim como pessoa e, certamente, faço bem as minhas pacientes por reconhecerem na mastologista a compreensão quando o assunto é perda de cabelos para um processo muito maior: o da transformação! 


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