Novo livro de Manuela Marques Tchoe é ficção inteligente sobre as virtudes e problemas do Brasil

Publicado pela editora PenDragon, "Encontro de Marés" intercala paisagens nacionais e internacionais a partir de narrativas em que predomina diversidade de temáticas

img1
Manuela Marques Tchoe e seu "Encontro de Marés": mistura arrojada de cenários e narrativas Foto: Fenícia Miranda

Faz muito tempo que Manuela Marques Tchoe não reside mais no Brasil. Mas é difícil se desvencilhar de um país cuja cultura, tentacular, abrange riqueza de atributos capazes de sempre inspirar um novo olhar sobre o território e, principalmente, sobre as pessoas nele habitantes.

"Encontro de Marés" nasce do desejo de resgatar essas peculiaridades do solo tupiniquim. O livro, nova empreitada da escritora baiana, publicado pela editora PenDragon, é encarado por ela como uma forma de "voltar para casa", no sentido de mergulhar em distintos aspectos do que trazemos no sangue e nas vivências.

Não à toa, gastronomia, MPB, o sincretismo religioso soteropolitano, entre outros detalhes, ganham fôlego singular no trabalho.

"Faço isso, mas sem esquecer que temos muitos problemas sociais que têm sido banalizados. Foram cinco anos de pesquisa, escrita e revisão para a obra ficar pronta, mas antes mesmo eu já tinha planos de escrever um livro que trouxesse todas essas marcas de luz e escuridão do Brasil. Então é um projeto relativamente antigo - e amadurecido também – para trazer essa história para o público".

A história mencionada pela autora é sobre Rosa, que cresce na casa da avó, com carinho e aconchego, sem imaginar o porquê de seus pais serem ausentes na rotina. Um feliz cotidiano que é interrompido pelo retorno do progenitor, que a rapta e muda a vida da criança para sempre. 

É uma história também sobre Mariana, primeira voz a aparecer na narrativa. Ela aporta no Rio de Janeiro vindo da Alemanha - foi adotada por um casal natural do País ainda na infância - buscando respostas sobre seu conturbado passado, quando foi abandonada pela mãe num orfanato.

À medida que as páginas avançam, as trajetórias entrelaçadas das duas culminam em acontecimentos que instigam os leitores a adentrar em terrenos de fascínio e aflição fruto das experiências de ambas.

Desafios

Uma das marcas mais contundentes sobre "Encontro de Marés" é a narrativa dividida entre diferentes personagens e tempos. Manuela conta que não foi fácil optar por esse recurso, mas o fez pela vontade de experimentar maneiras de contar um enredo e também explorar diversidade de regionalismos. 

"O livro tem uma trama que transcorre ao longo de três décadas, e por isso me dei o desafio de construir narrativas diversas que pudessem transmitir a riqueza regional e aspectos psicológicos de personagens tão distintos", conta.

"Costurar a obra foi talvez a parte mais complicada, principalmente para criar uma história dinâmica que aos poucos entrelaça tantos destinos. Foi trabalhoso, certamente, mas foi um aprendizado enorme".

Outra característica que a autora destaca é o fato de poder destilar nas páginas aspectos vivenciados por ela na juventude em Salvador, principal cenário do romance. Não à toa, ganham relevo o sambareggae; lugares marcantes, como o Mercado Modelo; e toda a beleza do chão de todos os santos.

Os contrastes tão gritantes da cidade também são evidenciados. "Como conciliar a riqueza e alegria do do Carnaval, por exemplo, e a pobreza extrema de todos os dias? Eu procurei passar essas questões contraditórias da 'terra da felicidade' na obra".

Inclusive, esse componente de sempre observar a realidade sob dois ângulos deve alimentar na audiência um olhar mais crítico sobre a realidade.

"Hoje, morando no exterior, eu tenho um outro olhar sobre a minha vivência em Salvador como uma espécie de valorização mais intensa de minhas raízes. Ao mesmo tempo, viver num país desenvolvido como a Alemanha me permitiu ver outra realidade, e toda vez que vou ao Brasil me choco com coisas que não me chocavam antes, como crianças cheirando cola na rua. Antes, como muita gente, eu normalizava essa realidade. Mas para uma pessoa que vem de outro país, ver essa realidade é extremamente chocante".

img3
Há mais de uma década morando na Alemanha, a escritora possui ótica apurada sobre o Brasil Foto: Camille Stallings

Na obra, enxergamos esta particularidade específica pela perspectiva de Ulla, uma alemã que chega em Salvador justamente na época do Carnaval – como muitos outros “gringos” – e se deparam com essa difícil realidade. 

Mas essa colisão de perspectivas não acontece, no livro, apenas contemplando esse aspecto. Manuela mergulha na violência urbana e doméstica, por exemplo, como for de expôr uma ferida que sangra e a qual tem sido cada vez mais difícil estancar.

"No caso da obra, quis explorar a prostituição infantil, uma questão muito difícil de tratar por ser muito dolorosa, mas que deveria ser mais discutida e debatida na sociedade".

Como boa e fidedigna história ambientada em Salvador, "Encontro de Marés" ainda contempla o sincretismo religioso do local, potencializando o caráter místico da cidade.

"Confesso que a leitura constante de Jorge Amado influenciou a decisão de mostrar um pouco do candomblé, jogo de búzios e orixás. E eu aprendi imensamente sobre um universo belo e interessante que eu mal conhecia quando ainda morava em Salvador", afirma Manuela.

Diferenças

"Encontro" é o segundo livro da escritora. Ele chega após "Ventos Nômades", obra de contos em que ela também elenca o viajar como mola propulsora para contar boas aventuras. Para ela, a diferença entre as duas publicações é que, enquanto a mais recente foca no chegar ao Brasil, a outra é em desbravar o mundo para além do País.

Quanto aos projetos futuros, Manuela afirma estar trabalhando, junto à escritora carioca Ana Fonseca, na revisão de "Comida de Gringo", livro de crônicas que relata experiências de viagens e comidas pelo mundo. "Ele deve ser lançado no primeiro semestre do ano que vem", adianta.

Também está em fase de finalização de outro romance, desta vez focando em experiências vivenciadas no Egito. As temáticas abordadas serão fé e amor entre pessoas de culturas e religiões distintas. 

"Portanto, terei ainda mais motivos para estar presente no Brasil em 2020 para divulgar essas novas obras". Torcemos para que sim!

img1

Encontro de Marés
Manuela Marques Tchoe
Editora PenDragon
2019, 294 páginas
R$ 34,90