Com aulas pelo celular, professores realizam ensino à distância no Instituto dos Cegos

Contato pelo aparelho facilita a realização de atividades pelos pais. As turmas em período de alfabetização contam também com o recebimento de material pedagógico em casa

Alunos do Instituto dos Cegos estão tendo aulas mesmo em casa
Legenda: Alunos do Instituto dos Cegos estão tendo aulas mesmo em casa

Neste bimestre as avaliações no Instituto dos Cegos, localizado no bairro Parquelândia, em Fortaleza, acontecem em casa, através do celular e de videochamadas. É que desde o início da pandemia de Covid-19 no Ceará, em março, a escola mobilizou a equipe para atender virtualmente os estudantes. O Instituto atende crianças e adolescentes com necessidades visuais em vulnerabilidade social e que moram na Capital.

Os aparelhos portáteis são o principal trunfo para os professores. Mesmo que boa parte dos estudantes tenham alguma limitação na visão, recursos como áudio e chamadas de vídeo conseguem estreitar o contato com os alunos. “Nós pedimos para os pais filmarem as tarefinhas e mandarem para gente. Alguns alunos com baixa visão recebem o conteúdo em áudio através do WhastApp. Quando é possível, os professores fazem as videochamadas para acompanhar as crianças”, explica Ruth Sousa, coordenadora pedagógica do Instituto. 

As turmas em período de alfabetização contam também com o recebimento de material pedagógico em casa. “Canetinha porosa, lápis especiais adaptados para crianças com baixa visão, papel grosso para poder suportar algumas atividades específicas. Montamos esse kit e conversamos com a família para fazer a retirada. Às vezes, elas vem pegar no Instituto, às vezes entregamos em casa”

Ela confessa que apesar da mudança repentina, a instituição conseguiu modificar as aulas para o remoto de maneira satisfatória. “No começo, foi difícil porque tudo mudou muito rápido. Precisamos adaptar nosso calendário pedagógico, colocamos férias em abril. Mas aí, com o apoio dos pais e da família, tudo está ocorrendo muito bem. Não deixamos de oferecer nada, nem as aulas, nem o apoio psicológico e de saúde que já estávamos oferecendo”, comemora. 

 

Novas rotinas

As famílias estão aprendendo a adaptar o ensino ao dia a dia da casa. “Tivemos que modificar tudo. Eu não tenho a mesma preparação que elas tem lá na escola mas estou tentando, com ajuda das professoras. Tô trocando o dia pela noite mas com auxílio da minha família tá tudo dando certo”, revela Daniela Bezerra, 41, mãe de três alunos que frequentam o Instituto dos Cegos. 

“A minha filha de 16 anos, tem baixa visão. Aí os exercícios dela precisam ser mais acompanhados. Como só temos um celular, a tela é pequena, mas eu dito o que a professora coloca e dá certo. Quando eu não posso, minha outra filha mais velha faz com ela. É divertido porque eu também relembro muita coisa que eu aprendi quando era minha época”, brinca. 

Os outros dois filhos de Daniela também frequentam o Instituto, apesar de não terem comprometimentos na visão. “Eles dois estão nas séries mais novinhas e as atividades são diferentes da minha mais velha. São mais participativas, todo mundo anda junto e faz junto. A minha filha mais nova acorda pensando na aulinha. Quando é a atividade da turminha dela, todo mundo faz junto e se diverte”, acrescenta a mãe. 

Corrente

As aulas são fruto de uma articulação entre os professores e a família de cada estudante. O time formado por 15 docentes, conta, também, com fonoaudiólogos e psicólogos para acompanhar os alunos em casa. Como cada aluno tem sua particularidade, a equipe pedagógica precisa traçar planos adaptáveis para as situações e respostas dos acompanhados. 

“Toda turma é uma realidade e os professores estão lidando com essas mudanças. Por exemplo, se tem em uma sala dois alunos com boa visão, dois alunos com baixa visão e dois alunos cegos, a atividade precisa ser pensada para que cada um consiga fazer do seu jeito”, explica Ruth. 

Até agora, as aulas conseguiram chegar na maior parte do corpo estudantil. Quem não consegue receber os materiais virtualmente, ou tem limitações na estrutura, recebe o carinho das “tias” de outra forma. “Ligamos para eles, falamos com a família. Todos precisam ser abraçados. Tem casos que a gente não consegue dar conta. Mas a gente vai tentando se refazer para que ninguém saia no prejuízo”, reforça a coordenadora. 

Com isso, Ruth avalia que o retorno está sendo positivo, apesar das barreiras de contato. “Mais de 80% dos nossos alunos estão respondendo bem. Temos, sim, algumas dificuldades mas nada diferente do que as outras escolas estão passando durante essa pandemia”, completa.

A frequência de contato aproximou mais ainda as famílias da sala de aula. Os assuntos divididos não são somente sobre o conteúdo escolar. “Os professores ligam às vezes na hora do almoço, para conversar. Criamos uma rede de apoio, uma corrente. É importante para passar por tudo isso. A gente compartilha bastante. Tem uma família que tá doente, a gente liga. Damos nosso apoio com uma mensagem. Fazemos uma vaquinha, alguma coisa”, avalia Daniela. 

Retorno presencial

O sucesso da adaptação para as atividades virtuais é comemorado pela coordenação. “Você percebe que também uniu famílias. Antes, era mais difícil dos pais verem o avanço das crianças. Agora, tá todo mundo em casa se ajudando, estamos recebendo depoimentos muito bacanas”, relata Ruth. 

A rotina online deve seguir por mais tempo. Mesmo com a redução dos casos na capital, o Instituto receia o retorno presencial das aulas, previsto para acontecer no dia 20 de julho no Ceará. “Estamos conversando com as secretarias para manter o ensino em casa até que seja seguro para nossos alunos voltarem presencialmente. Temos estudantes com imunidade baixa e que são grupo de risco. Eles moram longe e teriam que se expor para vir para o Instituto”, explica a professora. 

Daniela compartilha o mesmo receio. Ela, com comorbidades que agravaram uma possível infecção, teme ter que voltar a andar pela Capital. “Eu sinto que ainda tá muito cedo. Pode chegar a qualquer momento. Eu vou precisar ir deixar eles lá. Tenho medo de voltar tudo e eles ficarem expostos”, conta.

Ruth coloca ainda o funcionamento pedagógico na escola como um ponto para ser observado. “O cego enxerga com as mãos. O toque é fundamental para aprender. Temos receio de que com o fluxo de alunos, o contágio aconteça rápido por causa disso”, aponta a coordenadora. 

Por enquanto, a equipe do Instituto prepara outras ferramentas para levar mais atividades até às crianças. “Em julho, além dos atendimentos virtuais, vamos voltar com o grupo que trabalha orientação e mobilidade. Estamos prevendo que em alguns casos será preciso ir na casa dos alunos, mas tudo com segurança. Precisamos alcançar todas as realidades”, defende. 

Para Daniela, o investimento da escola em manter as atividades é o que a torna especial. “Já pensou se a gente não tivesse tendo essas aulas? Seria um estresse maior. A gente não tá saindo para a escola mas a escola está vindo até a gente. Isso é bem mais forte e faz a diferença”, compartilha. 

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