Dilma coloca homem de confiança na Petrobras
Aldemir Bendine, ex-BB, foi escolhido pela presidente para gerir a Petrobras depois da saída de Graça Foster
São Paulo. A presidente Dilma Rousseff escolheu Aldemir Bendine, ex-presidente do Banco do Brasil (BB) e homem de sua confiança, para assumir a presidência da Petrobras, desapontando investidores que torciam por um nome do mercado para recuperar a imagem arranhada da petroleira.
Funcionário de carreira do BB, Bendine terá entre seus desafios limpar o balanço da Petrobras, que tem ativos sobrevalorizados em dezenas de bilhões de reais, por sobrepreço em contratos e falhas em projetos de engenharia, entre outras razões.
A petroleira está no centro de um escândalo bilionário de corrupção, revelado na Operação Lava Jato da Polícia Federal e considerado o maior da história do Brasil, envolvendo ex-funcionários, executivos de empreiteiras e políticos. Por ser considerado bastante alinhado às políticas do atual governo, a indicação de Bendine frustra expectativas de investidores e analistas de que o novo líder da petroleira viesse do mercado.
A escolha de Bendine indica as dificuldades que Dilma teve para costurar a sucessão na Petrobras de forma súbita, em 48 horas, com a renúncia repentina da presidente Maria das Graças Foster e de outros cinco diretores da companhia, em um movimento que surpreendeu o Palácio do Planalto.
Fomento ao crédito
Bendine assumiu o maior banco da América Latina em abril de 2009. Sob sua chefia, a instituição federal liderou uma ofensiva do governo petista no crédito para atenuar os efeitos da crise financeira global na economia brasileira. Além dele, o Conselho de Administração da Petrobras escolheu em reunião nesta sexta o ex-vice-presidente financeiro do BB Ivan Monteiro para ocupar a diretoria de Finanças e outros quatro diretores interinos para áreas operacionais.
A escolha dos novos diretores não foi por unanimidade. Os conselheiros que representam os acionistas minoritários e os trabalhadores no Conselho de Administração da Petrobras, Mauro Cunha e Silvio Sinedino, respectivamente, afirmaram que votaram contra a eleição da nova diretoria.
Em nota à imprensa, Cunha disse que "o acionista controlador mais uma vez impõe sua vontade sobre os interesses da Petrobras, ignorando os apelos de investidores de longo prazo". Em outras ocasiões recentes, houve opinião divergente entre os membros no Conselho indicados pelo governo e independentes sobre os rumos da estatal.
Fraudes
No fim de janeiro, quando divulgou o atrasado balanço não auditado do terceiro trimestre de 2014, houve um racha no Conselho sobre o registro de baixa contábil por fraudes envolvendo 52 empreendimentos em construção ou em operação citados na Lava Jato. Esses ativos estão com valor contábil mais de 60 bilhões de reais acima de seu valor justo.
"O Bendine é uma pessoa muito identificada com a primeira gestão do governo Dilma. O BB foi absolutamente comandado pelo governo na primeira gestão e a Petrobras precisaria de alguém mais independente, que peitasse o governo em determinadas situações e não fizesse loteamento de cargos", disse o sócio da Órama Investimentos Álvaro Bandeira.
Para Bandeira, nomes que vinham circulando na mídia para a Petrobras, como o de Murilo Ferreira, presidente da Vale, e o de José Carlos Grubisich, ex-presidente da Braskem, seriam opções melhores. "Pesa por não ser alguém do setor, mas pesa mais por ser identificado com a primeira gestão de Dilma", afirmou.
Outros diretores
Segundo fonte relevante da Petrobras, assumem como diretores interinos Solange da Silva Guedes (Exploração e Produção), Jorge Celestino Ramos (Abastecimento), Hugo Repsold Junior (Gás e Energia) e Roberto Moro (Engenharia, Tecnologia e Materiais). Os quatro diretores ocupavam anteriormente cargo de gerência executiva nas respectivas áreas e têm individualmente 30 anos ou mais de experiência na estatal.
A renúncia de seis altos executivos da Petrobras na quarta-feira surpreendeu autoridades em Brasília, que previam uma mudança na diretoria da estatal apenas no fim do mês.
Demissões
Na última terça-feira, Dilma Rousseff aceitou o pedido de demissão de Graça Foster, como ela gosta de ser chamada, mas tinha acertado a permanência da executiva no cargo por mais algumas semanas. Porém, outros cinco diretores da Petrobras não aceitaram ficar por mais tempo, precipitando a saída também de Graça Foster.
Já bastante desgastados, os agora ex-diretores da Petrobras não quiseram mais ser diretamente associados ao escândalo de corrupção.
Mercado esperava gestor mais técnico
Em um momento de crise da estatal e de desgaste da imagem do governo federal, o anúncio de que o novo presidente da Petrobras seria alguém com forte ligação com o Planalto desagradou o mercado, impactando sobretudo nas ações da estatal. "A expectativa era que a escolha recaísse sobre alguém com um perfil mais técnico, sem viés político", aponta o consultor na área de petróleo e gás Bruno Iughetti.
Conforme Iughetti, esperava-se que o novo gestor "não necessariamente fosse da área de petróleo, mas pelo menos fosse de uma área mais próxima da natureza da Petrobras, como a parte de logística".
De acordo com o economista Ricardo Eleutério, a escolha por Bendine está ligada a uma escolha estratégica do governo, principalmente num período de instabilidade, no qual as investigações sobre as fraudes na Petrobras podem revelar novos fatos que desgastem ainda mais a imagem da companhia. "É possível que outros nomes mais distante do Planalto, mais ligados ao mercado, não pudessem atender às necessidades políticas do governo", destaca.
Bom desempenho
O economista ressalta que também deve ter sido levado em conta o desempenho positivo de Bendine à frente do Banco do Brasil. "Embora haja alguns 'arranhões' na trajetória dele", destaca, referindo-se a polêmicas como a de um empréstimo, concedido pela instituição financeira à apresentadora de TV Val Marchiori, que contrariava as normas do banco.
Motivação
Para Bruno Iughetti, embora o novo presidente da estatal não possua o perfil técnico desejado, seria importante que a nova diretoria que participará da gestão seja formada preferencialmente por profissionais que já atuam na Petrobras. Além de ser relevante para as atividades da companhia, ressalta, a escolha por esse corpo técnico poderia "resgatar a motivação" dos próprios funcionários da empresa, em meio às mudanças recentes.
Com Bendine, ações da estatal tombam quase 7%
São Paulo. A queda de quase 7% nas ações da Petrobras após a escolha de Aldemir Bendine para substituir Graça Foster no comando da estatal fez com que a Bolsa brasileira encerrasse o dia de ontem em terreno negativo. O Ibovespa fechou com queda de 0,90%, a 48.792 pontos. Apesar do tombo, a Bolsa acumula alta de 4% na semana. No ano, a Bolsa cai 2,43%.
O volume financeiro negociado no pregão foi de R$ 7,33 bilhões, acima da média diária do ano, que é de R$ 6,46 bilhões até 5 de fevereiro. A queda da Bolsa foi influenciada pela forte desvalorização sofrida pelos papéis da Petrobras após a informação de que Aldemir Bendine, presidente do Banco do Brasil (BB), substituiria Graça Foster no comando da petrolífera.
Papéis
Os papéis preferenciais da estatal, os mais negociados, fecharam o dia em queda de 6,94%, para R$ 9,12. Na semana, as ações acumulam alta de 11,5%, enquanto no ano caem 8,98%. Em 12 meses, a queda é de 35,8%. As ações ordinárias, com direito a voto, fecharam com queda de 6,52%, para R$ 9,03. Na semana, as ações subiram 12,3%. No ano, caem 5,84%, enquanto em 12 meses a desvalorização é de 32,1%.
Outro nome
O nome de Bendine desagradou o mercado e parte do corpo técnico da companhia, que esperava nome do setor privado tanto para comandar a estatal como para a diretoria financeira - cargo a ser ocupado pelo vice -presidente de finanças do Banco do Brasil, Ivan Monteiro.
"O mercado esperava um nome diferente, de fora do governo, indicado pelo Joaquim Levy (ministro da Fazenda) e que trouxesse credibilidade à empresa. A escolha dos nomes, de certa forma, frustrou bastante os investidores", afirma André Moraes, analista da corretora Rico.
Também na avaliação de Bruno Piagentini e Daniel Liberato, analistas da Coinvalores, para agradar aos investidores o executivo escolhido deveria ser um nome do mercado, e não "indicação política".
A maior alta do Ibovespa ontem ficou com os papéis da CSN, que subiram 4,09%, a R$ 4,58.
TCE identifica dispêndios relacionados à Premium II
Na auditoria que vem sendo realizada pelo Tribunal de Contas do Ceará (TCE-CE), os técnicos identificaram dispêndios, gastos exageradas com projetos, gerenciamento e obras de infraestrutura na área do Complexo Industrial e Portuário do Pecém (reforço da ponte 2 e quebra mar), que podem estar relacionados ao fim do Projeto da Refinaria Premium II, em especial no que se refere aos gastos realizados com recursos do tesouro estadual.
Foram identificados também excesso de despesas, nas linhas de transmissão de energia,na implantação da Reserva Indígena Taba dos Anacés, no Centro de Treinamento do Trabalhador, Trecho II do Desvio da CE-085 (entre a Ponte do Rio Cauipe e a área destinada a Refinaria), na doação de terreno, desapropriações, custos de viagens e custos de licenciamento.
Durante essa semana, a equipe técnica do TCE-CE realizou reuniões na Procuradoria Geral do Estado (PGE) e Secretaria da Infraestrutura com o objetivo de conhecer os compromissos assumidos pelo Estado com a Petrobras, sob o aspecto legal, para a implantação da refinaria.
Reestruturação será essencial
O novo presidente da Petrobras, Aldemir Bendine, tem pela frente uma tarefa árdua, e não vai conseguir fazer mudanças na situação difícil por que passa a empresa, apenas com a sua chegada, afirma o ex-diretor da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e consultor John Forman. Para ele, o momento é de avaliar a estrutura da Petrobras e reforçar os objetivos da estatal.
"É árdua a tarefa. Não é ele sozinho que chega lá e tudo muda. Ele tem que trabalhar nas estruturas internas da empresa para que elas sejam alinhadas a um objetivo comum", afirma.
Forman ressaltou que o governo buscou para o cargo alguém ligado a ele, quando o ideal seria ter indicado alguém identificado com uma empresa como a Petrobras, que pertence a um setor específico da economia. Ainda assim, ponderou que a companhia precisa de um bom gestor.
"Tecnicamente, a Petrobras é ótima, não é esse o problema. Não estamos falando de técnica, estamos falando de gestão. Pode ter um excelente técnico que é um péssimo gestor e pode ter um excelente gestor que não é um técnico excepcional. As duas coisas não se substituem", ressalta o consultor.
Forman destacou que o fato de quatro diretores serem indicados interinamente para os cargos mostra que há possibilidade de não serem confirmados nas funções. "A autoridade deles fica questionada desde o primeiro momento. Se eu sou bom e confiável, eu sou nomeado, e não como interino", acrescentou.
"Mudança positiva"
Já o diretor do Instituto Luiz Alberto Coimbra de Pós-graduação e Pesquisa em Engenharia - Coppe, Luiz Pinguelli Rosa diz considerar que a eleição de Aldemir Bendine para a presidência da Petrobras vai fazer com que a empresa sai da atual situação de dificuldade. "Eu sou otimista. Sai-se do impasse em que ficou a antiga direção da Graça e coloca-se um novo diretor da confiança da Presidência da República. Isso é bom. É positivo", afirma.
FIique por dentro
Perfil do novo presidente da companhia
Nascido em Paraguaçu Paulista (SP) em 1963, o executivo é funcionário de carreira do banco. Conhecido como Dida, ele começou sua carreira em uma agência do Banco do Brasil em sua cidade natal em 1978, como estagiário. Foi efetivado como funcionário do banco em 1982, por meio de concurso público.
Formado em Administração de Empresas, foi gerente em Piracicaba (SP), assessor na Superintendência II de São Paulo, gerente-executivo da Diretoria de Varejo do BB (Soluções do mercado de cartões para o segmento corporativo), e secretário-executivo do Conselho Diretor do BB, chegando a vice-presidente do setor de Varejo do banco em dezembro de 2006.
É pai de duas filhas, Amanda e Andressa. Recebeu, no ano passado, o título de cidadão benemérito de Paraguaçu Paulista. É torcedor do Palmeiras e, quando jovem, gostava de ouvir a banda de rock Queen. Ainda criança, gostava do arroz de forno que sua mãe fazia e odiava, segundo relatos de parentes, couve-flor e dobradinha.
Polêmica
Bendine chegou a colocar seu cargo na presidência do BB à disposição em novembro do ano passado após envolver-se em uma polêmica com a apresentadora de TV Val Marchiori. Segundo o jornal "Folha de S. Paulo", o BB teria concedido a ela um empréstimo de R$ 2,7 milhões, o que contraria as normas do banco.