Recuperação judicial da Trebeschi gera incertezas no Ceará; entenda os possíveis impactos

Grupo é um dos maiores produtores nacionais de tomate e emprega mais de 400 pessoas na Serra da Ibiapaba.

Escrito por Luciano Rodrigues luciano.rodrigues@svm.com.br
16 de Abril de 2026 - 06:00 (Atualizado às 09:00)
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Legenda: Grupo Trebeschi entra em recuperação judicial com dívidas de R$ 637,1 milhões.
Foto: Google Maps/Reprodução.

O pedido de recuperação judicial (RJ) do Grupo Trebeschi, um dos principais produtores de tomate do Brasil, gera incertezas sobre os próximos passos da empresa, inclusive no Ceará, onde a companhia mantém uma unidade em Ubajara, na Serra da Ibiapaba, com cerca de 400 empregos na cadeia produtiva do fruto.

Apesar de a recuperação judicial poder ser revertida e não haver informações oficiais sobre possibilidades de fechamento da unidade no Ceará, especialistas apontam impactos negativos caso o cenário se agrave.

Para se ter ideia, a unidade é responsável por mais de 10% dos empregos formais em Ubajara, de acordo com dados do Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Novo Caged). Além disso, uma eventual redução ou paralisação da produção poderia pressionar os preços do produto no Estado.

Entenda os possíveis impactos para a produção de tomate no Estado

O quilograma do tomate, que em março de 2026 registrou alta de quase 22% na comparação com o mesmo período do ano passado, pode ter os preços ainda mais elevados. É o que explica João Mário de França, pesquisador do FGV Ibre e professor da Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal do Ceará (UFC).

O especialista observa que, caso a recuperação judicial, enquanto instrumento para salvar a Trebeschi da crise, seja insuficiente e a empresa tenha de reduzir ou encerrar as atividades, o impacto no preço do tomate será inevitável.

Além disso, a necessidade de reorganização de toda a cadeia produtiva de tomates, com pequenos produtores tendo de assumir um papel mais importante para suprir a demanda levaria algum tempo. Provavelmente a saída da empresa em um primeiro momento provocaria subida de preços, já que é um grande player".
João Mário de França
Pesquisador do FGV Ibre e professor da UFC

Édson Trebeschi é sócio-fundador e CEO da Trebeschi.
Legenda: Édson Trebeschi é sócio-fundador e CEO da Trebeschi.
Foto: Grupo Trebeschi/Reprodução.

O sócio-fundador e CEO da companhia, Édson Trebeschi, garantiu que não há risco de desabastecimento, seja de tomates ou de demais produtos da empresa, aos clientes.

"A RJ é necessária neste momento para proteger a operação, preservar os empregos, honrar compromissos e dar ao grupo a oportunidade de reorganizar sua estrutura financeira e seguir produzindo", disse ao Valor Econômico.

Entenda os possíveis impactos para a economia local 

O economista Alex Araújo acredita que empresas como a Trebeschi Tomates Ceará atuam como um eixo de coordenação no Estado, em especial na Serra da Ibiapaba, principal produtora do fruto no território cearense.

"A instabilidade desses empregos pode resultar em uma queda acentuada na renda local, na alta da informalidade e, em última instância, na migração de mão de obra qualificada para outras regiões. Essa retração não se limita à empresa, mas atinge diretamente comércio, serviços e transporte regional", argumenta.

"A crise de um player dominante tende a gerar uma contaminação na percepção de risco das instituições financeiras, resultando em maior seletividade bancária e aumento dos custos financeiros para os pequenos e médios produtores locais", completa o especialista

Tomates italianos são uma das variantes plantadas pela Trebeschi.
Legenda: Tomates italianos são uma das variantes plantadas pela Trebeschi.
Foto: Natinho Rodrigues/Agência Diário.

O prefeito de Ubajara, Adécio Muniz (PSB), afirmou ao Diário do Nordeste que não sabia do pedido de recuperação judicial. Ele reforça que a empresa tem isenção de tributos municipais.

"É um ponto negativo para Ubajara se a Trebeschi fechar. São ofertas de emprego que a gente pode perder, e ainda não tem como avaliar o impacto disso na economia ubajarense", declara.

A reportagem procurou a Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado do Ceará (SDE) sobre o conhecimento do pedido de RJ, possíveis impactos na unidade em Ubajara e incentivos fiscais vigentes para a empresa. Quando houver retorno, este texto será atualizado. 

A reportagem também entrou em contato com a Trebeschi por telefone e email, mas sem sucesso. O espaço segue aberto.

Atuação da Trebeschi em Ubajara e no País 

A empresa é uma das principais produtoras de tomate do País e também atua no segmento de hortaliças e grãos.

Instalada no município da Serra da Ibiapaba oficialmente em setembro de 2021, a Trebeschi começou a plantar tomates na região, incluindo altas cifras pela produção

Além do Ceará, o grupo está presente em outros sete estados de todas as cinco regiões do País.

São mais de 30 áreas de plantio, com Ubajara sendo uma das mais recentes. Vale ressaltar que Guaraciaba do Norte, município na Serra da Ibiapaba, é o maior produtor cearense de tomate

O que explica o pedido de recuperação judicial da empresa?

Credores e fontes especializadas no setor agropecuário comentaram a situação do grupo. A Vinci Compass, empresa listada na Bolsa de Valores de São Paulo (B3), lançou comunicado ao mercado ressaltando que o conglomerado estava "adimplente" com as obrigações de crédito rural no valor de R$ 16,1 milhões.

João Mário de França acredita que a taxa Selic elevada e o alto custo dos fertilizantes são impactos que levaram ao pedido de RJ do grupo.

"Mesmo no agronegócio, existem fragilidades estruturais de financiamento pela própria dinâmica do negócio, que exige muito capital de giro para cobrir os custos até que o faturamento venha. O objetivo desse pedido é reestruturar dívidas com os credores e garantir fôlego operacional e organizacional sem interromper a produção, preservando empregos", considera.

A relevância da empresa na agroindústria cearense faz com que Alex Araújo projete que, caso a Trebeschi Tomates Ceará decida por reduzir a produção ou encerrar as atividades em Ubajara, haverá uma "desorganização produtiva".

"Ocorre uma perda imediata de previsibilidade de demanda e de escala, elementos essenciais para manter a competitividade regional frente a outros polos produtores do País", alerta.

Inadimplência cresce no agro, diz Faec 

O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará (Faec), Amílcar Silveira, enfatiza que a inadimplência no agronegócio brasileiro, em especial no Centro-Sul, tem crescido exponencialmente nos últimos anos.

"Aumentou de 2,3% a inadimplência no agronegócio para 14%. Existe uma tendência muito grande de recuperação judicial no Brasil.  A Trebeschi é uma grande empresa, e as dívidas estão afetando a unidade da empresa no Ceará", explica.

Embora ele diga que as empresas cearenses sejam resilientes do ponto de vista da sustentabilidade financeira, Amílcar, que é ainda um dos diretores da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), pontua que o agronegócio nacional "está em recuperação judicial", e que a Trebeschi é apenas uma das afetadas.

"Tomara que não demita o pessoal. Trebeschi vai continuar trabalhando e vai se reestruturar. Acho que é um caso isolado, precisamos cooperar para que ela realmente saia da RJ", defende o presidente da Faec. 

Passivo de mais de R$ 1,2 bilhão

Conforme informações do Valor Econômico, a empresa entrou com pedido de RJ junto na 1ª Vara Cível da Comarca de Araguari em 8 de abril.

A RJ diz respeito a dívidas de R$ 637,1 milhões, mas somadas com débitos extraconcursais e fiscais, o grupo tem passivo total de R$ 1,27 bilhão. 

Dentro da RJ, as maiores dívidas do grupo são com bancos e instituições financeiras, como Sicoob Aracoop, Itaú Unibanco e Banco do Brasil.

Fora da recuperação judicial, a Trebeschi acumula débitos com Santander, Banco ABC Brasil e Banco Safra, além do próprio Itaú Unibanco.

Processo corre em segredo de justiça

Um dos motivos que levaram à Trebeschi a pedir recuperação judicial são problemas financeiros alegados pela empresa. Segundo o grupo, eles vêm se desenrolando há cinco anos, causados principalmente pela queda na produção. 

Problemas climáticos, pragas, alta nos preços dos fertilizantes, elevação dos juros e valorização do dólar estão entre as razões pelo pedido de RJ.

Grupo Trebeschi pede recuperação judicial; passivo total da empresa ultrapassa R$ 1,2 bilhão.
Legenda: Grupo Trebeschi pede recuperação judicial; passivo total da empresa ultrapassa R$ 1,2 bilhão.
Foto: Grupo Trebeschi/Reprodução.

Na solicitação, a Trebeschi pediu ainda segredo de Justiça e suspensão, por 180 dias, da cobrança de dívidas e o arresto (apreensão de bens como garantia da dívida contra a dilapidação de patrimônio por parte do devedor) de bens.

Ao todo, oito empresas compõem o grupo, incluindo a Trebeschi Tomates Ceará. Os produtores Édson Antonio Trebeschi e Erico Trebeschi também fazem parte do conglomerado.

O que é recuperação judicial

É importante destacar que não se trata de falência ou encerramento das atividades.

A recuperação judicial é um instrumento jurídico que pode salvar empresas em crise financeira momentânea.

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