Exportações de mel do Ceará caem 80% no primeiro trimestre de 2026

Vendas do alimento para o exterior sofrem a maior redução entre os principais produtos do agronegócio cearense.

Escrito por Luciano Rodrigues luciano.rodrigues@svm.com.br
23 de Abril de 2026 - 10:00
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Legenda: Exportações de mel de abelha do Ceará despencam em 2026.
Foto: Isanelle Nascimento/Diário do Nordeste.

O Ceará exportou 80,2% menos mel no primeiro trimestre de 2026 do que no mesmo período de 2025. A receita recuou de US$ 2,46 milhões para US$ 488,1 mil. Foi a maior queda entre os produtos do agronegócio cearense no período

Menos de 140 toneladas de mel de abelha foram vendidas para o exterior no primeiro trimestre de 2026, 81,4% a menos do que no mesmo período do ano passado, quando 748 toneladas foram comercializadas.

Os dados são da Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Ceará (SDE) com base em informações da plataforma Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).

Para Joventino Neto, presidente da Federação dos Apicultores do Estado (Fecap), a queda não reflete redução na produtividade do mel no Ceará, mas o aumento da compra do produto cearense para ser exportado como se fosse de outros estados.

Tarifaço não foi um problema, afirma Fecap

Os números ainda não representaram um impacto direto do tarifaço, que só viria a afetar o mel a partir de agosto do ano passado, segundo Joventino Neto.

O presidente da Fecap afirma que o maior problema na queda das exportações está no fato de que outros estados passaram a se beneficiar do produto cearense para exportar como se fossem deles.

"A gente pode dizer que o Ceará mal exporta mel. Um total de 98% do nosso mel vai para uma empresa do Piauí e é mandado por lá. O Ceará mesmo é considerado um dos maiores produtores", considera.

Em 2024, último dado disponível do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Ceará produziu mais de 6 mil toneladas de mel. O Piauí alcançou mais de 8,6 mil toneladas produzidas naquele ano.

Diante disso, os apicultores passaram a se organizar em busca de maior rentabilidade na cadeia produtiva, aproveitando o fato de que o mel tem prazo de validade indeterminado.

"Hoje o Ceará tem mais de 300 toneladas de mel guardado. Baixaram o preço do mel, os apicultores começaram a valorizar o produto e não venderam. Como o mel não se vence, os produtores estão preferindo guardá-lo para esperar o preço melhorar", diz Joventino. 

Acordo Mercosul-UE é visto como importante pelos apicultores

Em 1º de maio, entra em vigor o acordo de livre comércio entre o Mercado Comum do Sul (Mercosul) e a União Europeia (UE). Para Joventino Neto, o tratado  amplia as possibilidades de mercado para a cadeia do mel.

Ele também minimiza os efeitos do tarifaço, em vigor desde agosto de 2025, que sobretaxou produtos exportados para os Estados Unidos, incluindo o mel.

"Não existe só os EUA como comprador. A Europa é grande compradora de mel. O tarifaço atrapalhou um pouco, porque somos acostumados a trabalhar com o que é mais fácil. Não podemos ficar na mão de um comprador, temos que ter um mercado amplo para que espalharmos", defende.

Nos três primeiros meses de 2026, a América do Norte continuou sendo a principal compradora do mel cearense, segundo o Comex Stat.

Os Estados Unidos foram o principal destino, recebendo mais de US$ 450 mil, o equivalente a 92% de todo o mel exportado pelo Ceará no período. O Canadá aparece na sequência, com cerca de US$ 20 mil. 

Exportações de mel caem mais de 40% no País

No primeiro trimestre de 2025, as exportações de mel do Ceará representavam 8,8% do total nacional. Entre os estados, o território cearense ocupava a sexta posição, atrás de Minas Gerais, Paraná, Piauí, Santa Catarina e São Paulo.

No mesmo período de 2026, o Estado caiu para a nona posição, ultrapassado por Maranhão, Bahia e Rio Grande do Sul. A participação nas exportações nacionais do produto recuou de cerca de 10% para 3%.

Mel de abelha tem diferentes tipos, a depender das plantas utilizadas pelas abelhas para a polinização
Legenda: Mel de abelha tem diferentes tipos, a depender das plantas utilizadas pelas abelhas para a polinização
Foto: Mateus Bento/Inpa

Entre os exportadores, o Ceará foi o estado que teve, em termos percentuais, a maior redução nas exportações. Nacionalmente, a exportação de mel também sofreu um tombo, com 43,75% de queda no comparativo com 2025.

A queda nas exportações do mel não significa, segundo Joventino, não significa redução na produção de mel no Estado.

Atualmente, o preço médio do quilograma exportado chega a R$ 16, enquanto a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) fixa o valor em mais de R$ 61 por quilo.

"Ano passado, foram comprados mais de R$ 5 milhões de mel do Ceará. A Fecap já ofertou 300 toneladas guardadas de mel para a Conab. Conseguimos colocar o mel na merenda escolar da Capital, nas escolas estaduais. Do ano passado para cá, ganhamos muito espaço, e devemos ganhar muito mais este ano", vislumbra. 

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