Existe mercado florestal no semiárido? Conheça a realidade do setor no Ceará
Apesar de abrigar um importante polo moveleiro do País, localizado no município de Marco, o Ceará ainda não produz a própria madeira. Quase toda a matéria-prima utilizada no Estado é importada das regiões Norte, Sul e Sudeste, conforme apontam especialistas do setor.
Só as 50 empresas instaladas em Marco demandam mais de 1,5 mil metros cúbicos (m³) de madeira por mês, oriunda da Amazônia e de florestas plantadas no Sudeste, segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
Mas não é apenas o setor moveleiro que enfrenta a falta da matéria-prima no Estado.
A construção civil e outras atividades também recorrem a fornecedores de fora: 80% da madeira utilizada vem de Santa Catarina e 20% do Paraná, de acordo com Absalão Miranda, presidente do Sindicato das Indústrias de Serrarias, Carpintarias, Tanoarias, Madeiras Compensadas e Laminadas no Estado do Ceará (Sindserrarias).
Outra demanda para a madeira no Estado é a produção de biomassa. Segundo o engenheiro florestal Charles Costa, mensalmente, cerca de 35 mil toneladas da matéria-prima triturada chegam a ser consumidas por empresas de setores como as indústrias cimenteira, têxtil e alimentícia no Ceará.
"A madeira também é usada para siderurgia, embalagens, mercado de pallet. São milhares de pallets sendo produzidos aqui mensalmente com madeira que vem de outros estados", salienta.
Em combate a essa lacuna, algumas iniciativas no Ceará têm mostrado que existe espaço para o setor florestal com fins industriais no semiárido. Apesar de ainda estar engatinhando no Estado, a silvicultura, como é chamado o manejo de florestas de forma sustentável para fins econômicos, sociais e ambientais, é vista com entusiasmo por especialistas do setor.
Entre os benefícios citados estão a economia para as empresas consumidoras de madeira, geração de empregos, renda para produtores e combate ao efeito estufa.
"É uma economia promissora e tem mercados. Hoje, você tem o polo moveleiro de Marco que movimenta milhões e não tem quem entregue essa demanda", ressalta o professor do Instituto Federal do Ceará (IFCE) de Tianguá, Clemilton da Silva Ferreira.
Com o objetivo de ampliar o debate sobre esse tema, o Diário do Nordeste apresenta um conteúdo especial dividido em duas reportagens, que abordam o cenário da silvicultura no Ceará, seu potencial, os benefícios e as perspectivas para o Estado.
Falta de informações sobre a silvicultura cearense evidencia setor em construção
Hoje, o mercado florestal cearense dá tímidos sinais de avanço. De acordo com o mapa de "Concentração de Floresta Plantada", da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), a região do Ceará é classificada, majoritariamente, como de baixíssima produção comercial em comparação com os grandes polos do Sul, Sudeste e Mato Grosso do Sul.
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Devido ao caráter inicial da atividade localmente, faltam detalhes sobre o setor. O principal relato das fontes ouvidas por esta reportagem compreende a existência de empresas consumidoras de madeira que decidiram investir na plantação de eucalipto no Ceará, seja para o uso em móveis, construção civil ou biomassa.
“Você tem diversos clones comerciais que já são testados há mais de 20 anos no mercado e estão sendo plantados e tendo bons resultados aqui no Ceará”, revela o professor Clemilton.
De acordo com ele, alguns dos primeiros estudos sobre o comportamento de espécies florestais no Estado, como eucalipto e pinos, ocorreram entre as décadas de 80 e 90.
No entanto, não existem números oficiais sobre esse cenário.
Também foi relatada a aposta de alguns produtores rurais cearenses no plantio do mogno africano, de forma mais pontual.
O Diário do Nordeste procurou a Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará (Adece), a Secretaria do Desenvolvimento Econômico do Estado (SDE), a Secretaria do Desenvolvimento Agrário (SDA) e a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Ceará (Ematerce) em busca de dados sobre a atividade florestal no Ceará, mas não obteve mais esclarecimentos. O espaço permanece aberto para eventuais respostas.
Dessa forma, o que se tem são informações isoladas de profissionais da área. Nesta reportagem, você vai conhecer algumas iniciativas que estão fazendo a silvicultura cearense dar os primeiros passos.
Estudo comprova a viabilidade florestal no semiárido
Motivada pela demanda do polo moveleiro de Marco, a Embrapa iniciou um projeto de pesquisa em silvicultura no Ceará há 16 anos, voltado para a seleção de espécies e a definição de sistemas de produção para plantios florestais no Estado.
De acordo com a entidade, atualmente a rede conta com aproximadamente 30 hectares de áreas experimentais espalhadas em diferentes condições ambientais, nos municípios de Tabuleiro do Norte (Chapada do Apodi), Aracati, Marco, Pacajus, Trairi, Granja, Mauriti e Quixeramobim.
Hoje, o programa avalia 85 clones de eucalipto, buscando materiais altamente resilientes ao estresse térmico e hídrico, além de outras espécies nativas e exóticas.
Segundo a Embrapa, a madeira de eucalipto desenvolvida pelo projeto já é aplicada na indústria cearense como fonte de energia na alimentação de caldeiras, já que o corte da matéria-prima para esse uso pode ser feito a partir de cinco anos de plantio.
Já para o uso na indústria de móveis é necessário aguardar entre 12 e 18 anos após o cultivo da espécie, estimam fontes especializadas.
Na visão da Embrapa, os resultados do projeto "reposicionam o Ceará como uma potencial fronteira para a silvicultura comercial, superando a percepção histórica de inviabilidade do semiárido para plantios florestais em escala".
A partir desses resultados, uma empresa moveleira cearense estabeleceu em Marco o primeiro projeto florestal de larga escala do Estado, com mais de 2.000 hectares já plantados e meta de alcançar 15.000 hectares.
De acordo com o Sindicato das Indústrias do Mobiliário no Estado do Ceará (Sindmóveis), 98% da produção dessa iniciativa é de eucalipto e 2% é de mogno africano, sendo a previsão de início de corte para 2028.
Até 2023, o programa da Embrapa contou com o financiamento do Banco do Nordeste (BNB), da Adece e da SDE, totalizando R$ 897.664 em aportes. O projeto também recebeu o apoio de parceiros como a Universidade Federal do Ceará (UFC), o Sindmóveis, o Sindserrarias e empresas consumidoras de madeira.
A equipe de reportagem procurou a SDE para obter mais informações sobre esse financiamento, e a pasta indicou a Adece como responsável pela demanda. A Adece, por sua vez, informou que o convênio com a Embrapa foi encerrado em 2023, mas não foram fornecidos detalhes sobre o motivo do fim da parceria.
Em nota, a agência declarou que a ação, considerada pioneira, teve papel estratégico para o fortalecimento do setor moveleiro cearense, contribuindo para o crescimento econômico regional e para a estruturação de sistemas de restauração florestal.
“A Adece segue impulsionando o setor por meio do apoio a iniciativas e eventos voltados à geração de negócios em torno do fortalecimento do polo moveleiro cearense”, acrescentou.
Pelo menos 13 empresas já investem em florestas de eucalipto no Ceará
Outras 13 empresas já investem no plantio de árvores para fins industriais no Ceará, com foco no eucalipto. A informação é do engenheiro florestal Charles Costa.
Há oito anos atuando no Estado como especialista em plantio em regiões secas e consultor em energia renovável e descarbonização industrial, o profissional trabalha orientando empresas no plantio de eucalipto em larga escala para fins industriais.
Uma dessas é uma empresa alemã especializada em química têxtil. Segundo Charles, o empreendimento tem 300.000 árvores de eucalipto plantadas em Cascavel com a finalidade de produzir biomassa. A expectativa de colheita é para o ano que vem.
Regiões como Granja, Jijoca de Jericoacoara, Forquilha, Amontada, Quixeré, Beberibe e Santa Quitéria também recebem iniciativas do tipo, destaca Charles.
Para 2027, ele projeta 5.510 hectares de florestas de eucalipto para fins industriais no Estado.
Num hectare de eucalipto, explica, é possível colher 204 m³ em cinco anos. Esse primeiro corte é voltado para a produção de biomassa, o uso na construção civil e em estruturas de pallets, camas box e sofás. Juntando os custos de abertura de área e operacional, o processo de plantio de eucalipto sai por R$ 10 mil por hectare.
No processo, são utilizados clones da espécie vegetal com cargas genéticas selecionadas de acordo com os fatores climáticos da região escolhida. De acordo com o engenheiro florestal, o banco genético de 120 espécies de eucaliptos por ele testadas possibilita a adoção da silvicultura em várias regiões do Estado, até nas mais desérticas.
Segundo ele, a espécie se destaca pela versatilidade, rápido crescimento e adaptabilidade genética.
A esperança do mogno africano para o pequeno produtor
O plantio de árvores para fins industriais não atrai atenção apenas de empresas. Alguns agricultores cearenses têm apostado, por exemplo, no mogno africano, árvore com valor agregado superior ao do eucalipto.
Seu Francisco Pereira, 65, de Ibiapina, é um desses produtores. Ele planta aproximadamente mil pés de mogno, pouco mais de 1 hectare, desde 2015.
Segundo conta, as mudas foram disponibilizadas pela Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Ceará (Ematerce), por meio do programa estadual Hora de Plantar, e se adaptaram bem às condições climáticas da Serra da Ibiapaba.
"Na época em que foi plantado, eles (Ematerce) calcularam o m3 por € 1.500 (cerca de R$ 8,8 mil). A base deles era aproximadamente € 1,5 milhão (cerca de R$ 8,8 milhões) por hectare, o que dificilmente se chega"
O agricultor explica que, por serem plantadas diferentes mudas, e não clones, o desenvolvimento das árvores não é padronizado, e parte da produção não atinge os critérios de qualidade necessários para ser comercializada.
Nesse sentido, a expectativa de seu Francisco é negociar pelo menos um terço do que foi plantado, o que significaria um apurado de, aproximadamente, € 500 mil (cerca de R$ 2,9 milhões).
Apesar dos planos de negociação, o agricultor revela que ainda não existe um passo a passo estruturado para chegar aos possíveis compradores.
"Outros agricultores aqui também plantaram mogno. Se a gente pegar um pouco de cada, já dá para fazer uma comercialização. É um experimento. Aí a gente tem que ver como é vai fazer ainda. A gente está querendo descobrir exatamente como faz isso, a comercialização, porque por enquanto a gente só tá no cuidado de manter as plantas", informa.
Questionada sobre o plantio do mogno africano no Ceará, a Ematerce confirmou a existência de produtores da árvore no Estado e o acompanhamento do caso do seu Francisco. A pasta também afirmou que a produção do agricultor está quase pronta para ser comercializada, mas não deu detalhes de como esse processo será feito.
Também não foram fornecidos mais esclarecimentos sobre a existência de um projeto da Ematerce voltado para a silvicultura no Ceará, nem detalhes sobre o mercado regional.
Mesmo com maior valor agregado, plantio do mogno no Ceará enfrenta desafios
Por outro lado, o plantio do mogno africano é visto com cautela pelo professor do Instituto Federal do Ceará (IFCE) de Tianguá, Clemilton da Silva Ferreira. Segundo ele, a espécie precisa de estudos locais consolidados sobre adubação, poda e controle de pragas no contexto cearense.
"O mogno plantado aqui no Estado é todo de semente. Então, existe variabilidade genética. Você pode ter plantas tortuosas e que são suscetíveis a pragas e doenças, o que não é interessante economicamente"
Além disso, ele aponta que as condições climáticas do Estado não permitem que a árvore chegue ao ponto de corte para a indústria moveleira em 10 anos. "Ele vai chegar lá para 18 a 20 anos, ou seja, não é economicamente viável", pondera.
O presidente do Sindmóveis, Junior Osterno, também levanta questionamentos sobre a cultura do mogno.
De acordo com ele, apesar de existir certa demanda pela madeira, atualmente o consumidor do mercado de móveis não é mais movido pelo tipo de matéria-prima, e sim pelo design dos produtos.
"É por isso que o eucalipto pode ser uma grande saída para o nosso setor moveleiro. Como não se valoriza mais o móvel pela espécie da madeira, ele (mogno) tende a baixar um pouco", avalia.
"Talvez se venda o m3 do mogno por R$ 4 mil, R$ 5 mil. E, como o eucalipto produz mais rápido, então quem planta eucalipto vai ganhar mais, porque o eucalipto fica maduro com 12 anos. O mogno deve ir para 16 anos", completa.
Árvore símbolo do Estado, carnaúba é aposta do Ceará no mercado florestal
A madeira não é o único produto do mercado florestal no Ceará. A Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará (Faec), por exemplo, planeja desenvolver, a partir do segundo semestre, um projeto de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) com base no reflorestamento da carnaúba, no município de Granja.
As informações são do presidente da entidade, Amilcar Silveira. Da árvore se extrai a cera, atualmente o quarto produto mais exportado pelo Estado, segundo a Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec).
De acordo com um estudo do Centro Internacional de Negócios do Ceará (CIN/CE), afiliado à Fiec, em 2025, o valor de exportação da cera de carnaúba superou R$ 523,5 milhões. O número é 35,9% maior que o resultado do ano anterior.
O trabalho utiliza dados da secretaria de Comércio Exterior (Secex), órgão vinculado ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
A pesquisa também mostra que, no ano passado, o produto foi exportado para 42 países, sendo os principais compradores a China, a Alemanha, os Estados Unidos, o Japão e a Espanha. Ao todo, foram mais de 12 toneladas de cera de carnaúba comercializadas.
O Ceará também é o estado do Brasil que mais arrecadou com a exportação do item em 2025. Em seguida, vêm Piauí, Rio Grande do Norte, São Paulo, Rio Grande do Sul e Paraná.
Paralelo à alta demanda da cera, o projeto da Faec envolve a extração da palha de carnaúba, amplamente utilizada no artesanato cearense. Amilcar lembra, ainda, que o bagaço da planta é utilizado como adubo, destacando que da árvore "tudo se aproveita".
Além da carnaúba, o terreno receberá gado e plantio de capim, de modo que todo o potencial produtivo da propriedade seja aproveitado.
"É uma forma de a gente plantar a carnaúba e fazer daquilo uma produção sustentável. A carnaúba é muito sazonal, dá só em uma época do ano, e o resto do ano a terra fica parada. Agora, no lugar de ficar parada, ela vai produzir pastagem e o gado vai produzir carne. A ideia é fazer esse teste para depois ajudar produtores a desenvolver", destaca Amilcar.