As exportações do agronegócio do Ceará para a União Europeia (UE) devem dobrar de tamanho nos próximos anos com o acordo de livre comércio entre o Mercado Comum do Sul (Mercosul) e bloco europeu.
A projeção foi feita por Amílcar Silveira, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará (Faec). O acordo entre os dois blocos deve entrar em vigor na próxima sexta-feira, 1º de maio.
Nosso objetivo no agronegócio é que consigamos chegar a US$ 1 bilhão em exportações. Estamos em cerca de US$ 500 milhões (considerando todos os países). A UE tem que ser nosso grande parceiro. Se conseguir aumentar as exportações como estamos prevendo, isso pode representar algo em torno de 30% das nossas comercializações, tudo para a UE".
Na prática, isso representa um salto do Ceará dos atuais US$ 150 milhões exportados do agronegócio ao bloco econômico europeu para aproximadamente US$ 300 milhões, mantendo o ritmo de crescimento e expansão atuais.
Qual o montante atualmente exportado para a UE?
Dados da Comex Stat, plataforma do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), e da Secretaria do Desenvolvimento Econômico do Estado do Ceará (SDE), apontam que a União Europeia é, atualmente, o principal bloco econômico parceiro comercial do Ceará.
Quando apenas o agronegócio é considerado, foram exportados do Ceará no ano passado US$ 496,3 milhões.
Neste contexto, a União Europeia é o maior parceiro comercial do Estado no agro.
No ano passado, o agronegócio cearense exportou para o bloco econômico US$ 150 milhões. Esse total representa 30,3% do que foi comercializado com o exterior da agropecuária do Estado.
Os EUA, principal destino das exportações estaduais no geral - 46% no total -, recebem menos de 20% dos produtos cearenses da agropecuária.
As exportações do Ceará em 2025 totalizaram US$ 2,28 bilhões. A UE, por sua vez, foi destino de US$ 447 milhões em mercadorias cearenses, fatia correspondente 19,5% da pauta exportadora do Estado.
Os principais destinos na Europa incluem nações que compõem a UE, como Países Baixos e Espanha, além do Reino Unido que não faz parte do bloco.
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As principais pautas exportadoras do Ceará atualmente concentram-se nas frutas e sucos, cera de carnaúba, pescados e castanha de caju. Demais produtos completam a lista, como couros e peles, água de coco e mel de abelha.
Como o bloco tem 27 países, Amílcar Silveira considera que o acordo será benéfico principalmente para frutas e demais principais produtos da pauta exportadora cearense.
"É um mercado enorme na comunidade europeia. Já acessamos alguns mercados, mas abrem outros. As frutas podem ganhar muito com isso. Já reivindicamos ao ministério pedindo para liberar ao Ceará o selo de livre da mosca da fruta. Grosso modo, aumentaria muito as nossas exportações", observa.
Os pescados, inicialmente, devem sentir um impacto menor em virtude do bloqueio à exportação dos produtos para UE em vigor desde 2018, mas com tratativas para ser derrubado.
Fruta cearense ficará mais barata na Europa, diz maior produtor de melão do mundo
Carlo Porro, fundador e CEO da Agrícola Famosa, conhecido como o maior produtor de melão do mundo - a fruta mais exportada do Estado - vê com potencial a nova abertura de mercado.
"É bom no sentido que, barateando a fruta lá fora, teoricamente vai aumentar o consumo porque acaba atingindo mais gente. Para o produtor daqui, é bom porque aumenta o consumo, mas também porque os compradores sabendo desse acordo vão obviamente querer negociar o preço de acordo com a baixa do imposto", expõe.
Ele explica que o imposto do melão será gradativamente zerado após o acordo entrar em vigor, diferente de outras frutas, como a uva, que será isenta de tributação para ser exportada assim que o acordo entrar em vigor.
"Os dois estados exportadores de frutas são Ceará e Rio Grande do Norte. Nosso caso é um pouco diferente porque a gente tem navios próprios, a gente embarca muita fruta pelo Rio Grande do Norte porque é o nosso navio que vai para Natal. Mas o Ceará vai se beneficiar com certeza", vislumbra.
Vinhos e lácteos cearenses entram em atenção
Se por um lado a produção de frutas deve ser beneficiada, por outro, o presidente da Faec alerta para possíveis impactos para produtos manufaturados como vinhos e derivados do leite.
"A comunidade europeia tem subsídios aos produtores de leite. O europeu, para manter as pessoas no campo, paga para isso. Os produtos deles, que fazem muito bem, como os queijos, podem impactar na nossa produção de queijos finos. Consumimos muitos queijos finos, como os artesanais", destaca.
O Ceará é um dos principais produtores de leite do País, embora não apareça como um exportador do produto para a UE. Para Amílcar Silveira, ele deve passar a constar na lista de exportações do Estado para o bloco.
"Acho que vinhos e produtos lácteos no Brasil poderão ser prejudicados com o acordo. Já proteínas e FLV serão beneficiados. Devemos exportar carne nos próximos anos", prospecta.