IV Anel Viário: o suplício de quem trabalha e produz
O que ali está exposto é a prova provada do que acontece com quase todas as obras públicas no Brasil.
Por dever de ofício, este colunista teve de percorrer, segunda-feira, 13, em pleno feriado, um trecho do IV Anel Viário de Fortaleza, uma das grandes obras inacabadas que castigam os que trabalham e produzem no Ceará. O trecho percorrido foi de menos de 5 km, entre a BR-116 e a fábrica da Samaria Camarões. O que ali está exposto ao olhar incrédulo da população é a prova provada do que acontece com quase todos os empreendimentos públicos no Brasil.
No IV Anel Viário (para os que não sabem, o primeiro anel é a Avenida 13 de Maio, o segundo é a Avenida Borges de Melo, o terceiro é a Avenida Perimetral) a primeira decepção que surge é a má qualidade do pavimento, que uma hora é rígido (de concreto), já apresentando rachaduras, outra hora é de asfalto usinado; a segunda é o mato que, crescido além da conta, chega a invadir a rodovia; a terceira é a carência de sinalização; a quarta são as áreas de retorno, também sem sinalização vertical ou horizontal.
Para completar tudo (estamos falando, apenas, do trecho acima citado), o viaduto sobre a BR-116, que, precisando de ser alargado, sente a falta de alças de acesso igualmente largas. O resultado de toda essa esculhambação – por favor, desculpem o termo – são a loucura, o estresse, a impaciência e a revolta que atacam as milhares de pessoas que, todos os dias, têm de enfrentar o desafio de trafegar por ali.
Empresários que, de segunda a sexta-feira, são obrigados a usar o IV Anel Viário para, por exemplo, chegar às suas fábricas no Distrito Industrial de Maracanaú, contaram à coluna como fazem para espantar o nervosismo: durante os 90 minutos que gastam para ir de casa para o trabalho e vice-versa xingam, em voz alta, todas as autoridades que, direta ou indiretamente, têm a ver com a inacabada obra de duplicação dessa estrada, a qual, conforme o projeto original, deve ter piso de concreto em toda a sua extensão.
As mesmas fontes contaram, porém, que, mais adiante, no trecho em que o IV Anel Viaro se encontra com a rodovia que leva à cidade de Maranguape, a confusão, que ainda é grande, vai acabar quando as obras de acesso ao viaduto ali construído ficarem concluídas no fim deste ano.
O serviço agora é executado por homens e máquinas da Construtora Samaria, empresa cearense com larga experiência na construção rodoviária. Ela foi chamada às pressas pelo governo estadual para assumir a execução das obras, abandonadas pela empresa vencedora da licitação cuja incapacidade técnica e financeira, pré-anunciada, só causou prejuízo aos interesses do povo cearense.
Ainda falta muito trabalho para que surja aos olhos dos usuários o IV Anel Viário pronto, duplicado, com pavimento rígido, com viadutos e alças de acesso, seguro, bem-sinalizado, com arborizado canteiro central, com faixa de domínio desmatada e limpa, enfim, uma estrada que possa cumprir sua finalidade – a de unir os portos de Mucuripe, em Fortaleza, e Pecém, em São Gonçalo do Amarante.
O IV Anel Viário, deve ser repetidamente salientado, integra um amplo projeto de mobilidade do qual faz parte, destacadamente, o Arco Metropolitano, uma autoestrada de dupla pista, canteiro central e viadutos que ligará a BR-116, em algum ponto de Pacajus, ao Porto do Pecém, numa extensão de 100 quilômetros. Ele reduzirá o tráfego pesado do IV Anel Viário e – aqui está o ponto principal – integrará os modais ferroviário (da Transnordestina) e rodoviário no Terminal de Cargas de Maranguape, beneficiando diretamente o Distrito Industrial de Maracanaú.
É necessário pensar e projetar a Região Metropolitana de Fortaleza (a capital do Ceará é a quarta cidade do país em população) a longo prazo, pelo menos até 2050. Isto exige largos investimentos públicos e privados, engenharia competente, tecnologia de ponta e, claro, liderança política capaz de assumir o empreendimento, para o qual serão necessários R$ 1,5 bilhão (incluídas as desapropriações), dinheiro que viria das emendas parlamentares, algo em que os senadores e deputados federais do Ceará são experts.
O projeto executivo do Arco Metropolitano, com todos os seus detalhes técnicos, está pronto para ser licitado. Falta, “apenas”, a decisão política da autoridade competente para torná-lo realidade.
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