Após escândalo de tortura, Israel prende ex-procuradora por vazamento de vídeo
Caso reacende debate sobre o tratamento de palestinos detidos pelas forças militares israelenses.
A ex-procuradora-geral das Forças Armadas de Israel, Yifat Tomer-Yerushalmi, foi presa neste domingo (2), dois dias após renunciar ao cargo assumindo a responsabilidade pelo vazamento de um vídeo que mostra soldados israelenses supostamente torturando um prisioneiro palestino.
As imagens, registradas por câmeras de segurança no início da guerra em Gaza e divulgadas pela primeira vez em agosto de 2024, voltaram a circular e reacenderam um dos debates mais delicados dentro de Israel — o dos limites éticos e legais da atuação militar.
Segundo o jornal Haaretz, Tomer-Yerushalmi teria encaminhado o vídeo a um repórter local, descrevendo-o como uma “boa história”.
O vazamento levou a uma investigação conduzida pela polícia militar, que agora também apura se membros da promotoria das Forças de Defesa de Israel (FDI) estiveram envolvidos na divulgação do material.
O vídeo, gravado em uma instalação militar, mostra soldados formando um círculo em torno do detento — supostamente um membro do Hamas — enquanto o agridem fora do campo de visão da câmera.
O prisioneiro sofreu fraturas nas costelas, teve um pulmão perfurado e uma fissura anal, segundo a denúncia. Ele foi posteriormente hospitalizado.
Cinco reservistas do Exército israelense foram formalmente acusados de participar da agressão.
Em sua carta de renúncia, divulgada na última sexta-feira (30), Tomer-Yerushalmi afirmou que decidiu deixar o cargo “para preservar a integridade da instituição militar”, e declarou que Israel “é um exército moral, que respeita a lei, e que deve investigar atos ilegais mesmo em tempos de guerra”.
Veja também
Reação interna e protestos
A demissão e posterior prisão da ex-procuradora provocaram uma forte reação dentro do país. Membros da ultradireita israelense classificaram a investigação como uma “traição aos soldados em combate” e organizaram protestos violentos em julho, quando o caso veio à tona.
Na ocasião, manifestantes — entre eles dois deputados e o ministro do Patrimônio Judaico, Amichai Eliyahu — invadiram bases militares exigindo a libertação de soldados detidos. A base de Sde Teiman, no sul do país, chegou a ser tomada por militantes que pularam cercas e forçaram portões, antes de serem dispersados.
Eliyahu, que no ano passado ganhou repercussão internacional ao sugerir que Gaza deveria ser “atingida por uma bomba nuclear”, voltou a defender publicamente os militares acusados.
Repercussão
O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu classificou o vazamento como “um dos ataques de relações públicas mais graves que Israel sofreu desde sua fundação”, e determinou a abertura de uma investigação independente.
O ministro da Defesa, Israel Katz, celebrou a saída de Tomer-Yerushalmi. “Aqueles que difamam os soldados das Forças de Defesa de Israel não têm lugar no Exército”, afirmou.
A controvérsia ocorre em meio à crescente pressão internacional sobre o governo israelense. Em outubro de 2024, uma comissão da ONU denunciou “abusos generalizados e sistemáticos” contra prisioneiros palestinos em campos e centros de detenção, apontando possíveis crimes de guerra e de tortura.
O governo de Israel reagiu com veemência, chamando as acusações de “ultrajantes” e reiterando seu compromisso com “os padrões legais internacionais no tratamento de detidos”.