Reféns e assaltantes são mortos em ação da Polícia no Interior

A madrugada na cidade de Milagres foi de pânico e terminou com a morte de oito criminosos e seis reféns. Indagações sobre de onde teriam partido os disparos que mataram inocentes ainda não foram respondidas pela Polícia 

Escrito por Emanoela Campelo de Melo, emanoela.campelo@diariodonordeste.com.br

Segurança

O que seria uma ação de destaque da Polícia cearense se transformou no episódio já conhecido como ‘Tragédia em Milagres’. Dentre inocentes e assaltantes, morreram, na madrugada de ontem, nesse Município do Interior do Estado do Ceará, pelo menos, 14 pessoas. 
As versões da ação fatal que causou espanto e repercutiu internacionalmente, ocorrida com a participação direta de militares cearenses, são imprecisas. Para populares, as mortes dos reféns ocorreram devido ao despreparo da Polícia. A Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) não deu detalhes da ação, que segue com muitas perguntas.

A tragédia teve início por volta das 2h30, quando uma quadrilha armada e com reféns, prestes a atacar duas agências bancárias de Milagres, cidade da Região do Cariri, foi surpreendida. Moradores do local contam que uma sequência de tiros, com duração de 20 minutos, anunciou que algo grave estava acontecendo.

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De acordo com a SSPDS, era previsto que um bando atacasse bancos naquela região. Com as informações, equipes do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate), do Comando Tático Rural (Cotar), da Força Tática (FT), do Batalhão de Divisas – da PMCE – e da Delegacia de Brejo Santo da Polícia Militar se deslocaram ao local na tentativa de prevenir o crime.

No entanto, a reportagem apurou que operação foi organizada pela Coordenadoria de Inteligência (Coin), da Secretaria da Segurança, que acionou equipes do Gate e do Cotar, inclusive com a presença de um ‘sniper’ – atirador de elite da PM –, que teria sido responsável por muitos dos disparos realizados contra as pessoas que terminaram mortas. 

Nenhuma das agências foi violada, mas o “preço” para evitar os ataques a elas foi alto. Para que os roubos não se consumassem, 14 morreram. 

Ainda sem informações oficiais que comprovem de onde partiram os disparos contra cada um dos mortos, se sabe que dentre as vítimas há crianças e adolescentes. Dos 14 mortos confirmados pela Pasta, oito seriam integrantes da quadrilha e os demais pessoas que estavam ali pelo “acaso”. Informações obtidas na região dão conta de que seis vítimas da ação fatal eram reféns, de duas famílias distintas.

Natal

Conforme Tadeu Gama, parente de algumas das vítimas, os familiares iriam passar o Natal em Serra Talhada, cidade no Interior de Pernambuco. O empresário paulista João Batista Campos Magalhães, 49, dono de uma loja de informática, foi buscar a cunhada, o marido dela e o filho do casal, no aeroporto de Juazeiro do Norte.

Batista saiu de casa com o filho Vinícius de Souza Magalhães, 14 anos, e apanhou Claudineide Campos de Souza Santos, 41; Cícero Tenório dos Santos, 60; e Gustavo Tenório dos Santos, 13. No caminho para Serra Talhada, a família teve que parar o carro na BR-116 diante de um bloqueio na estrada feito pelos assaltantes.

O caminhão que bloqueava a via era da transportadora FedEx. Ali, o grupo virou refém dos assaltantes e foi levado para a emboscada preparada pela Polícia cearense, que resultou em suas mortes. “Uma tragédia. A cidade inteira está em choque”, disse Tadeu Gama.

Outra vítima refém (a única cearense) foi identificada como Francisca Edneide da Cruz Santos, de 49 anos. Horas depois do ocorrido, o titular da SSPDS, André Costa, se pronunciou sobre a ação dos policiais. Segundo ele, “o momento é de sermos responsáveis a aguardar a apuração que será feita”, disse destacando confiar no trabalho da Policia Militar

Segundo André Costa, um dos suspeitos confessou que teria atirado em outras pessoas. “A gente não sabe ainda o que aconteceu. Houve uma troca de tiros. A informação preliminar que recebemos é que um dos criminosos presos acabou dizendo que matou pessoas que estavam no local e não eram da quadrilha. Mas toda informação é insuficiente. O trabalho da perícia é importante e a investigação”, ponderou André Costa.

As buscas resultaram em três suspeitos presos, são eles: Gian Sidney Wynne Santos, de 25 anos e natural de Laranjeiras (SE); o cearense Cícero Rozelir da Silva Caldas 34, com passagens pela Polícia do Ceará por receptação, desobediência, corrupção ativa, crimes de trânsito, posse irregular de arma de fogo e porte ilegal de arma de fogo de uso restrito; e Robson José dos Santos, 36, natural de Aracaju, Sergipe. Conforme a SSPDS, eles foram autuados por integrar organização criminosa e roubo.

Foram apreendidas pistolas, espingardas, munições e explosivos. Três veículos envolvidos na ocorrência foram encontrados: um Chevrolet Celta e duas caminhonetes.

Policiais da Delegacia de Roubos e Furtos (DRF), especializada nesse tipo de ocorrência, não foram informados previamente sobre a operação. Somente depois da ação, uma equipe da Especializada foi acionada. Segundo apurado pela reportagem, eram cerca de 20 integrantes na quadrilha, e eles estavam alojados no Ceará desde a última quarta-feira (5). 

Sobre a Secretaria da Segurança já saber que ataques aconteceriam naquela região, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) disse que não foi comunicada previamente que havia operação na localidade.