Polícia Militar do Ceará define uso exclusivo de armas Glock para tropa
As armas de fogo de outras marcas devem ser doadas pela Corporação para outros órgãos.
A Polícia Militar do Ceará (PMCE) publicou uma portaria no Diário Oficial do Estado (DOE) para padronizar a marca das armas de fogo utilizadas pela tropa. A fabricante escolhida, com dispensa de licitação, foi a empresa austríaca Glock.
A Nota Técnica nº 01/2025 (visto que o estudo começou em agosto de 2025), publicada no DOE de 8 de janeiro de 2026, apresentou o resultado do trabalho de uma comissão, criada "com intuito de produzir um estudo técnico de padronização das armas de porte, para uso dos policiais militares que integram os quadros da Polícia Militar do Ceará".
Segundo o documento, o estudo tinha a finalidade de "atender aos requisitos operacionais e técnicos de forma a promover a simplicidade da utilização do armamento escolhido, uniformidade do seu emprego, a segurança do operador, eficiência logística, redução de custos, padronização dos treinamentos, confiabilidade, desempenho, reconhecimento técnico, durabilidade e leveza".
O parecer técnico ainda buscou atender as "novas tecnologias desenvolvidas a nível internacional, de forma a fortalecer a ação da tropa em vários cenários, principalmente em situações de confronto armado".
A escolha pela empresa Glock foi feita com dispensa de licitação. Na Nota Técnica, a Polícia Militar justificou que "a Administração Pública poderá, em nome da padronização adotada, prescindir da realização do certame, por se tratar de hipótese de inexigibilidade de licitação".
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Substituição das armas de outras marcas
Conforme o estudo, a arma da empresa Glock é utilizada, no Brasil, pela Polícia Federal (PF), pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) e pelas polícias do Rio de Janeiro, São Paulo, Mato Grosso, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Piauí.
No exterior, é utilizada por policiais dos Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Áustria, Alemanha, Suíça, Noruega, Finlândia, Suécia, Dinamarca, Austrália e Nova Zelândia.
A comissão prevê a substituição completa dos armamentos da Polícia Militar do Ceará pela marca Glock (que já é uma das fabricantes utilizadas pela Corporação).
Questionada sobre o valor que deve ser gasto com a compra de novas armas da Glock, a PMCE respondeu à reportagem que "a aquisição do novo armamento ocorrerá de forma gradual, conforme o planejamento orçamentário do Governo do Estado, podendo envolver recursos estaduais, federais ou oriundos de convênios", sem citar valores.
As armas de outros fabricantes, utilizadas pela Corporação, devem ser doadas nos próximos meses e anos. "Quanto à destinação das armas de outras marcas, o estudo técnico prevê que a PMCE poderá realizar a doação dos materiais bélicos substituídos a outras instituições que, por disposição legal, possuam dotação bélica e autorização para o porte de armamento", informou.
Vantagens da padronização
A Polícia Militar do Ceará afirmou ainda, em nota, que, com a padronização do armamento, a Corporação "obtém ganhos significativos em logística, treinamento e gestão de recursos públicos, como a redução de custos com manutenção e reposição de peças, maior eficiência na capacitação da tropa, uniformização dos procedimentos operacionais e aumento da segurança no manuseio do equipamento".
Segundo a PMCE, "a elaboração do estudo técnico contou com a participação de profissionais especializados no assunto, entre oficiais e praças, e com experiências institucionais anteriores".
Como forma de reforçar os critérios técnicos que fundamentaram a decisão, o estudo também considerou perícia realizada pelo Instituto Nacional de Criminalística do Departamento de Polícia Federal, que detalha o sistema de ação segura das pistolas Glock (Safe Action System), com destaque para os mecanismos de segurança do armamento. Ainda, a análise da vantajosidade econômica foi condição indispensável para a viabilidade da compra."
Um oficial da Polícia Militar do Ceará, que preferiu não ser identificado, afirmou à reportagem que a Glock "tem a pistola mais segura do mundo".
"Se você jogar a arma em uma lama, na areia, cair, pode colocar o carregador e atirar, que ela dispara. Ela é toda feita de carbono", apontou o policial militar, sobre a qualidade e praticidade da arma.
Outro oficial da PMCE considerou que a troca necessária de armas de outras fabricantes por armamentos da Glock "será oneroso para o Estado, mas o pior é manter um arsenal muito distinto".
"Imagina ter um batalhão com 200 policiais, sendo que uma parte usa carabina, outra parte usa Sig Sauer e outra, Glock. Na prática, cada um é especialista do armamento que opera", indica o policial militar.
Com a chegada de armamentos diferentes a cada compra do Estado, a Polícia Militar "tem o desafio de treinar todo mundo, anualmente". "O uso adequado e seguro de armamentos requer constância. Como cada um tem a sua arma cautelada, isso fica comprometido", explica.
"Fora isso, havendo uma ocorrência em que a equipe precise trocar tiros e algum carregador seja deixado para trás, se for cada um usando um modelo distinto, nem sequer apoio de munição um policial pode ter do parceiro", acrescenta o oficial.