'Estou aguardando a Polícia': universitária enviou mensagem antes de ser morta pelo namorado no CE

O suspeito foi preso em flagrante.

Escrito por
Emanoela Campelo de Melo emanoela.campelo@svm.com.br
policiais feminicidio em fortaleza local da ocorrencia muro amarelo.
Legenda: O crime aconteceu no bairro Centro, em Fortaleza.
Foto: Reprodução.

Antes de ser 'covardemente assassinada', termo que consta em documentos da investigação, a universitária Luciana Cordeiro do Nascimento, de 27 anos, chegou a dizer à família que "aguardava a chegada da Polícia". Luciana e o namorado, Bruno Ribeiro da Silva, 30, discutiam, quando ela foi atacada a tesouradas e pauladas.

Luciana queria ir ao aniversário do cunhado, em uma pizzaria, o que gerou mais um episódio de ciúmes de Bruno, agora preso por feminicídio. A reportagem do Diário do Nordeste teve acesso a documentos nos quais constam conversas de Luana relatando as ameaças que vinha sofrendo.

Por volta das 17h57 dessa terça-feira (3), a vítima teria mandado uma mensagem para o cunhado dizendo: "estou a caminho". Já às 18h10 enviou nova mensagem: "desculpa, não vou mais. Estou aguardando a Polícia".

O cunhado da universitária teria ligado imediatamente para Luciana perguntando se Bruno tinha batido nela e ela negou, dizendo apenas que: "é só que eu não vou ficar com uma pessoa que quer me proibir de ir pros cantos".

Na sequência, o parente ainda teria questionado se ela queria que a família fosse na casa dela naquele momento, tendo Luciana respondido: "não, to aguardando a Polícia" (sic).

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A reportagem questionou as polícias Civil e Militar se houve acionamento de ocorrência por parte da vítima, mas não recebeu resposta. A defesa do suspeito não foi localizada pelo Diário do Nordeste. 

lado esquerdo luciana e lado direito bruno, suspeito.
Legenda: O casal se relacionava há menos de um ano.
Foto: Reprodução.

Uma hora depois os familiares tentaram novo contato com a jovem, mas, supostamente, neste momento o celular dela já havia sido tomado por Bruno, que fugiu rumo ao Interior do Estado logo após o homicídio.

Bruno já respondia anteriormente por agressão à ex-mulher dele.

Conforme a Polícia Civil, ele também já respondia por posse ilegal de arma de fogo de uso restrito, tráfico de drogas, associação criminosa, crime contra o idoso e três ocorrências por roubo, sendo uma por roubo de carga.

'MATOU POR CIÚMES'

O suspeito foi questionado pelo cunhado perguntando o que ele tinha feito com a sua cunhada e ele respondeu via WhatsApp que: "ela começou a bater em mim antes de ir pro seu negócio, eu peguei e sair quando ela ligou eu já tinha saído... não toquei nem nela" (sic). 

Foi a mãe da jovem a primeira da família a saber que ela tinha sido assassinada. 

A universitária foi morta dentro da própria casa, com golpes que atingiram suas costas, tórax e mão direita.

Bruno fugiu em uma motocicleta até Morada Nova, onde pretendia embarcar em um caminhão com destino ao Pará. Ele foi preso em flagrante e teria confessado em um primeiro momento que "matou por ciúmes do ex-marido de Luciana".

Já na delegacia, o suspeito apresentou uma nova versão dizendo que "desferiu apenas um golpe de tesoura na vítima, após uma discussão por motivo 'besta', bem como disse que os outros golpes sofridos pela vítima deveria ter sido a própria quem desferiu contra si mesma tentando se matar".

Ele confessou que deixou a namorada trancada dentro de casa e que levou o aparelho celular da vítima "para não deixar pista e ela não ligar pra ninguém".

suspeito de costas em uma motocicleta trafegando na avenida.
Legenda: Bruno fugiu em uma motocicleta.
Foto: Reprodução.

O primeiro a suspeitar de uma ocorrência criminosa foi o motorista de APP acionado pela universitária para que a levasse ao aniversário do cunhado. Ao chegar no endereço de ponto de partida, o homem viu uma 'poça de sangue' embaixo do portão da residência.

Após ser preso em flagrante, o homem foi colocado à disposição da Justiça, que decidiu pela prisão preventiva. 

"A intervenção do Estado é imprescindível para evitar a reiteração criminosa. A imediata colocação em liberdade, logo após a prisão em flagrante, representaria medida nociva à repressão penal e, ao contrário de desestimular, poderia incentivar o comportamento delitivo. A preservação da ordem pública, portanto, não se limita à prevenção de conflitos e tumultos, mas também envolve a proteção da credibilidade das instituições e a confiança social nos mecanismos de combate à criminalidade"
Trecho da decisão em audiência de custódia.

'PROIBIDA DE VER A PRÓPRIA MÃE'

Familiares da vítima foram ouvidos pelos investigadores e contaram que "a vida de Luciana desandou depois deste namoro". Ela e Bruno tinham se conhecido há menos de um ano, em uma aula de forró na Avenida Beira-Mar.

De acordo com os amigos, o casal se relacionava há quase oito meses e o suspeito tinha proibido que a namorada andasse na casa da mãe dela, assim como ver os amigos. 

Luciana cursava Administração e também atuava como colaboradora na Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa). A Pasta divulgou nota de pesar sobre a morte e relembrou a trajetória dela enquanto profissional. 

"Luciana ingressou na Rede Sesa como estagiária, por meio do projeto Primeiro Passo, atuou no Hospital Geral de Fortaleza (HGF) e, em 2024, passou a integrar o Nível Central da Secretaria, na Coordenadoria de Contratualização de Serviços Terceirizados (Coset). A Sesa reconhece a contribuição profissional de Luciana e se solidariza com seus familiares, amigos e colegas de trabalho neste momento de dor e luto. A Secretaria da Saúde do Ceará manifesta repúdio a toda e qualquer forma de violência contra a mulher e reafirma seu compromisso com a defesa da vida, do respeito e da dignidade humana".

 

 

 

 

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