Ameaças e vingança: o que está por trás da morte de uma proprietária de box no Beco da Poeira

Três pessoas foram indiciadas pelo crime, sendo duas delas apontadas como mandantes.

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Redação seguranca@svm.com.br
policial civil de costas e de farda com blusa escrita dhpp, viatura pcce.
Legenda: Para a Polícia, o crime está relacionado com "a imposição de medo e terror" por parte dos investigados.
Foto: Divulgação/PCCE.

A comerciante Vera Sousa Silva, proprietária de boxes no Beco da Poeira, em Fortaleza, e o marido dela foram vítimas de um crime encomendado. A reportagem do Diário do Nordeste teve acesso a documentos com detalhes acerca do homicídio e tentativa de homicídio (sendo o esposo de Vera sobrevivente) ocorrido no bairro Passaré, quando a mulher acompanhada do marido tinham saído do trabalho.

Vera vivia sob ameaças constantes que, segundo testemunhas, eram motivadas pela inveja de concorrentes, porque ela "estava vendendo demais". Paulo Henrique dos Santos Silva, vigilante, foi preso em flagrante apontado como executor do homicídio encomendado por outros dois proprietários de boxes.

Aguimar Silva de Jesus, o 'Goiano' e Antônia Janaína Furtado Barros foram considerados pela Polícia Civil do Ceará (PCCE) como mandantes do crime. O trio foi indiciado no relatório final da investigação, assinado no último dia 4 de fevereiro.

Os investigadores chegaram aos nomes dos mandantes do crime após ouvirem a vítima sobrevivente, de identidade preservada, e testemunhas que trabalham no mesmo empreendimento. 

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Em interrogatório, Antônia Janaína optou por ficar em silêncio. A reportagem do Diário do Nordeste entrou em contato com a defesa de 'Goiano' que disse não ter interesse em se pronunciar neste momento.

COMPRA DE BOXES

O sobrevivente contou à Polícia que junto a Vera passou anos juntando dinheiro para adquirir boxes no Beco da Poeira. A dupla suspeita, proprietária de boxes no local, estaria passando por dificuldades financeiras e ofereceu vender dois boxes à vista e outros dois parcelados.

O negócio foi feito e as vítimas começaram a 'prosperar', o que teria incomodado os rivais.

Em 2024, após uma série de ameaças, a Polícia Militar do Ceará (PMCE) foi acionada ao Beco da Poeira e os envolvidos levados à delegacia para um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO).

Na época, Vera relatou que vinha pagando os outros dois boxes parcelados, mas que 'Goiano' e Antônia queriam reaver os espaços, tendo supostamente articulado uma ameaça de despejo com participação de falso advogado. 

No fim daquele ano, a vítima foi convencida a mudar seu box para outra localidade e isso causou ainda mais ira em 'Goiano': "aquela peste ainda conseguiu um canto melhor, bem localizado e que dava pra vender mais", teria dito ele, conforme uma testemunha.

'Goiano' teria continuado a ir ao box de Vera e do esposo afirmando que queria de volta os 'boxes pagos em parcelamento'. Em paralelo, vendedoras aliadas aos suspeitos receberiam ordens para "tentar interromper as vendas das vítimas".

'CANCELAR O CPF'

Enquanto ameaças e xingamentos aconteciam, tramitava na Justiça cível o processo acerca dos dois boxes comprados parcelados. Quando os suspeitos receberam uma devolutiva de que a compra permanecia, tendo as vítimas anexado nos autos comprovantes mensais de pagamentos, eles teriam ficado com ainda mais raiva e prometido uma "vingança".

Aguimar Silva teria sido visto diversas vezes no Beco da Poeira em posse de uma faca amarrada junto a cintura. 

Testemunhas contaram à Polícia que cerca de 15 dias antes do ataque, Janaína teria dado a missão para Paulo Henrique afirmando que era hora de cancelar o CPF da Vera.

imagem preto e branco suspeito em uma moto.
Legenda: O executor da ação foi preso em flagrante.
Foto: Reprodução.

"A testemunha 'Y' afirmou que, é de conhecimento direto de todos que trabalham no esqueleto, que fica localizado no centro de Fortaleza que há três anos, Janaína e Goiano, ameaçavam a Vera por conta dos boxes do esqueleto e das vendas de Vera que eram mais promissoras que as vendas de Janaína"

"A testemunha 'Z' afirmou que tem conhecimento direto de várias desavenças de Goiano e Janaína contra a vítima Vera, informando que sabe que a Vera mudou de Box para ficar mais distante deles e ainda assim o Goiano ia ao Box de dona Vera ameaçá-la. Relata que Goiano e Janaína sempre fizeram confusão e não apenas com dona Vera mas com todos que prosperaram no box vizinhos aos deles do Esqueleto e que a polícia vivia sendo chamada não só pela vítima, mas também por outros donos de box, afirmando que sabe que existe um vídeo de Goiano ameaçando dona Vera".

O DIA DO CRIME

No dia 26 de janeiro de 2026, por volta das 19h, as vítimas voltavam do trabalho trafegando em uma motocicleta. O casal cruzou um viaduto e avisou um homem em atitude suspeita: "como quem parecia estar nos seguindo, em uma moto".

Eles estranharam, mas decidiram seguir e lá na frente parar no meio do caminho para comprar açúcar em um mercantil.

O sobrevivente conta que Vera ficou o aguardando do lado de fora do mercantil, mexendo no celular. Ele retornou e seguiram caminho para casa. 

Dois quarteirões depois o sobrevivente ouviu os disparos e não sentiu que havia acertado ele, mas percebeu que estava sangrando. 

Em seguida se virou e já viu a sua esposa no chão baleada. O homem contou aos investigadores que chegou implorar para que o executor não a matasse, mas já acreditava naquele momento que a esposa estava morta.

Paulo Henrique fugiu e foi localizado horas depois com auxílio das câmeras de videomonitoramento, que identificaram a placa do veículo usado no homicídio.

Para a Polícia, o crime está relacionado com "a imposição de medo e terror" por parte dos investigados "para impor poder matando, para todos que ali trabalham não terem dúvidas do quanto são destemidos e 'poderosos'".

Os investigadores pontuam que o homicídio aconteceu por motivo torpe, com a necessidade dos suspeitos em se sobrepor à vida humana, "restando claramente demonstrados os indícios suficientes de materialidade, autoria intelectual e participação com relação ao crime premeditado friamente pelos mandantes".

O caso agora aguarda análise e parecer do Ministério Público do Ceará (MPCE) para decidir se o trio será denunciado ou não pelo homicídio e pela tentativa de homicídio.

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