Preços da faxina em Fortaleza variam entre R$ 90 e R$ 150; crise dificulta reajuste
Perda de renda da população em geral barra negociação entre contratantes e profissionais domésticos
Convocar um profissional para realizar os afazeres do lar custa ao fortalezense entre R$ 90 e R$ 150 - ou mais, a depender do tamanho da residência e das especificidades do serviço -, conforme pesquisa feita pelo Diário do Nordeste diretamente com trabalhadores do ramo, em sites e agências especializadas.
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Além do tamanho da casa em que a diarista realizará as atividades, outros fatores podem influenciar no preço, a exemplo da localização (se é mais central, em bairros como Aldeota, Meireles e etc.) e do tipo de serviço que será feito (engomar, cozinhar, limpar a casa e etc.).
A diarista Ana Karine Menezes, por exemplo, cobra a partir de R$ 100. O valor é para a faxina em uma kitnet. “Se for um quarto, é R$ 120, dois quartos, R$ 130”, explica. O valor considera uma carga horária de oito horas, sem horário de almoço, e inclui o deslocamento da profissional.
Ela pontua que não faz diferenciação de preços entre os bairros, mas explica que as regiões mais centrais e consideradas nobres são as que mais demandam. “Para todos os bairros é o mesmo valor, até porque a maioria que procura é para a Praia de Iracema, Meireles. É quem chama mais”, diz.
Um dos serviços oferecidos pela agência Maria Limpeza é o de diarista. “Trabalhamos com diárias fixas e carga horária de 4, 6 e 8 horas”.
Para Fortaleza, o valor é fixo: R$ 115 para 4 horas, R$ 130 para 6 horas e R$ 150 para 8 horas. “Para imóveis pequenos, normalmente o contrato é para 4 ou 6 horas, e para os maiores normalmente são 8 horas. Dependendo do tamanho, vai mais de um funcionário”, explica Mayara Queiroz, sócia e diretora da empresa.
Critérios
Presidente do Instituto Doméstica Legal, Organização Não Governamental voltada para o emprego doméstico, Mário Avelino observa não haver em qualquer lugar do País uma tabela que defina o preço de uma diária. “A diarista é uma profissional autônoma. Ela quem faz a negociação do preço junto ao contratante”, diz.
De acordo com ele, em geral, o preço varia conforme o bairro ou região da residência onde será realizada a faxina.
“Em Fortaleza, o preço cobrado em um bairro de classe A para um apartamento de três quartos é diferente do valor da faxina em um apartamento de três quartos de uma região classe C, por causa do poder aquisitivo”.
“O poder aquisitivo da região encarece ou não aquele serviço. Existe uma negociação entre a diarista e o contratante nesse sentido”, pontua Avelino.
Outro ponto que ele considera é a condução e a alimentação. A negociação entre quem contrata e a diarista também leva em conta esses fatores. Mário Avelino explica que, se a trabalhadora mora em um local distante, é possível que ela cobre mais para cobrir esse valor do deslocamento.
“A refeição normalmente é ofertada na casa em que a diarista está trabalhando, mas isso também pode ser negociado”, detalha Avelino.
Perda de renda dificulta negociações
O valor da faxina que é cobrado por Ana Karine não é reajustado desde o ano passado. Isso porque ela teme perder serviço. “Infelizmente não tem como ficar com um preço maior, se tem concorrente oferecendo a um preço mais baixo. Eu vejo na internet gente oferecendo faxina a R$ 80”, lamenta.
Ela, que mora de aluguel com os filhos, está em busca de uma oportunidade de emprego em outro turno para complementar a renda. “O valor não cobre. Tenho filho pequeno, pago água, luz, internet, que se tornou um meio de divulgação das minhas faxinas. Ajeitei o meu currículo para tentar conseguir um trabalho à noite”.
Diante da carestia de alimentos, transporte, luz e outros, a Maria Limpeza reajustou os preços dos serviços prestados em 5% no mês de maio. O percentual não cobre a inflação de Fortaleza, que acumula 6,34% de janeiro a junho e chega a 11,9% nos últimos 12 meses.
A professora de Finanças Myrian Lund, da Fundação Getulio Vargas (FGV), lembra que esses profissionais acabam se adaptando à realidade econômica das famílias.
“E a realidade é que muita gente não teve um aumento salarial, então quem tinha faxineira em três dias, trocou por duas vezes só. Essas diaristas acabam não tendo condições para barganhar, porque na hora que elas vão reajustar, o contratante reduz a quantidade de dias”.
Ela também destaca que a categoria é fortemente sacrificada em momentos de inflação alta. “Elas correm o risco de não aumentar salário e ainda ter redução no número de horas de trabalho, então vão em busca de novas alternativas”, lamenta Myrian Lund.
O conselheiro do Conselho Regional de Economia (Corecon-CE), Ricardo Coimbra, corrobora que os cidadãos com renda mais baixa são mais penalizados pela alta nos preços. “É uma camada com uma parte maior da sua renda direcionada ao consumo, principalmente de alimentos, então o impacto é mais significativo”.
Ele também reforça a perda de renda sofrida por esses profissionais durante a pandemia. “Na medida em que se tem um reajuste desse serviço, algumas famílias com o orçamento em nível crítico reduzem o número de faxinas por mês ou até deixam de contratar esse tipo de profissional, porque passa a não encaixar mais no orçamento”, diz Coimbra.
De acordo com o Instituto Doméstica Legal, com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tinha cerca de 6 milhões de trabalhadores domésticos antes da pandemia, incluindo profissionais com e sem carteira e diaristas. Em 2020, esse número caiu para 4,5 milhões. Hoje, são 5,8 milhões.