Camarão e tilápia: produtores querem retomar alta produção no CE

Superadas as fases mais drásticas da mancha branca, no caso do crustáceo, e da seca, para o peixe, líderes do setor produtivo avaliam formas de reforçar os criadouros e planejam novas tecnologias para assegurar a produtividade

Legenda: Seca foi um dos principais motivos para que a criação de tilápia diminuísse no Estado
Foto: Foto: Honório Barbosa

Ainda sob o impacto da doença da mancha branca, que nos últimos dois anos reduziu a produção de camarão no Ceará praticamente pela metade, produtores apostam em melhoramentos genéticos para driblar o vírus e voltar ao patamar obtido em 2015, quando foram produzidos cerca de 55 mil toneladas do crustáceo. Segundo Cristiano Maia, presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Camarão (ABCC), o Ceará deve fechar 2018 com cerca de 40 mil toneladas, o que representa 53% da produção nacional (75 mil toneladas).

"Mesmo com a mancha branca, o Ceará permaneceu como o maior produtor do País, mas agora estamos investindo muito em genética para tornar o animal mais resistente à doença. Então, acredito que até 2020 a gente volte ao patamar de 2015, com o Brasil produzindo 100 mil toneladas e o Ceará 60 mil", afirma Maia. Com a disseminação da mancha branca, os produtores tiveram de reduzir a densidade dos tanques, diminuindo, assim, a produtividade por hectare.

A doença, que chegou ao Estado em 2016, não tem cura e é considerada como a mais letal para o cultivo de camarão no mundo, podendo dizimar um viveiro em um ou dois dias. O vírus ataca e destrói células de órgãos do sistemas digestivo e respiratório dos camarões, debilitando os animais, que ficam vulneráveis a outras infecções que levam à morte. "Esse ano de 2018, o setor trabalhou bastante em técnicas de cultivo intensivo, no melhor uso da água, no melhoramento genético", diz Sílvio Carlos Ribeiro, diretor de Agronegócio da Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará (Adece). "Alguns produtores buscaram fazer isso por conta própria e acabaram tendo insucesso, mas quando acerta se ganha muito dinheiro", observa.

Exportação

Superada a doença, o setor espera voltar a exportar o produto, como fazia até 2006. Desde então, 100% da produção do Estado vem sendo direcionada para o mercado nacional. "Acredito que 2019 ainda será tudo para o mercado interno, e em 2020, a depender do crescimento do consumo de camarão no País, a gente pode voltar a exportar", diz o presidente da ABCC.

Com a recuperação do setor, Sílvio Carlos destaca o crescente interesse de empresas de outras áreas do agronegócio pelo setor de criação de camarão em cativeiro (carcinicultura), investindo em estufas para produzir em maior densidade.

"Algumas empresas do setor de frutas, por conta da seca, estão buscando outras oportunidades porque muitas vezes a água não é boa para irrigação, devido à salinidade, mas é boa para o camarão", ele diz. "Depois do boom de 2014 e 2015, a produção de camarão caiu bastante com a doença da mancha branca. E agora a gente está em um novo momento, com novas técnicas."

Projeto

Para 2019, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) investirá cerca de R$ 2 milhões no Ceará em pesquisas científicas e tecnológicas voltadas para a aquicultura local. O projeto, intitulado Aquitech será realizado por meio da Adece, e tem como público-alvo prioritário empreendimentos ou produtores rurais de pequeno porte e de base empresarial atuantes nas cadeias produtivas de tilápia e camarão.

Os trabalhos de apoio ao projeto foram desenvolvidos pela diretoria de Agronegócio e a Câmara Setorial de Economia do Mar e as Câmaras Temáticas de Camarão e Tilápia. "É por meio delas que ouvimos os empresários e principais entidades da cadeia produtiva, tomamos conhecimento de suas necessidades e problemas. O projeto atende uma demanda que as câmaras haviam levantado. Será uma avaliação econômica, produtiva e ambiental e as câmaras farão o papel de articuladoras diretas da Embrapa com os produtores", explica o presidente da Adece, Eduardo Neves.

Segundo Sílvio Carlos, o projeto deverá focar no convívio com a mancha branca. "O Equador tem 10 doenças e, mesmo assim, eles conseguiram superar e, com algumas técnicas, aumentar a produção. É possível produzir com a mancha branca, mas os pequenos e médios produtores não têm recursos para implantar todas as medidas, e as ações propostas no projeto visam apresentar alternativas".

No caso da tilápia, o foco será a produção intensiva visando o enfrentamento aos efeitos da seca na piscicultura, apresentando alternativas de cultivo com menor uso de água. "Apesar da falta de água, já tem muita gente produzindo em cultivos intensivos. E essa produção tem uma perspectiva muito boa. Mas para isso a gente precisa disseminar essas tecnologias", diz Sílvio Carlos.

Divulgação

Além dos esforços para superar a doença da mancha branca, Cristiano Maia diz que os produtores de camarão deverão fazer campanhas para estimular o consumo de camarão no Brasil, o qual considera "muito baixo" se comparado com outros países de perfil econômico semelhante ao do Brasil. O consumo per capita no País gira em torno de 0,5 kg por ano, enquanto no México, por exemplo, chega a 2 quilos. "A gente vai fazer uma campanha no interior do Brasil para atender a oferta, ou então teremos que voltar a exportar, como fazíamos até 2006", diz.

No mercado externo, o Brasil compete com Equador e Índia, que apresentam menores custos de produção, inviabilizando a concorrência. Mas, segundo Maia, a Índia preocupa mais, uma vez que trabalham com uma mão de obra de cerca de US$ 1 por dia, sendo "impossível de competir". O camarão de 10 gramas, produzido em 70 dias, é vendido pelo teto de US$ 5,80 no exterior, e no Brasil é vendido pelos produtores a R$ 18, mas com os investimentos em tecnologia, o setor espera reduzir esse valor para R$ 15.

Quero receber conteúdos exclusivos sobre negócios

Assuntos Relacionados