Vigilância sobre variantes do vírus é o maior desafio atual da Covid-19, diz epidemiologista

Gerente de Vigilância Epidemiológica da Secretaria Municipal da Saúde (SMS), Antônio Lima explica o cenário epidemiológico da Covid-19 na Capital

Antônio Lima, epidemiologista da Prefeitura de Fortaleza, afirma que a segunda onda da Covid-19 já está pressionando a rede de assistência hospitalar da Capital.
Legenda: Antônio Lima, epidemiologista da Prefeitura de Fortaleza, afirma que a segunda onda da Covid-19 já está pressionando a rede de assistência hospitalar da Capital.
Foto: Divulgação

Mudanças sintomáticas, evidências de reinfecção, aumento de internações hospitalares e deslocamento de faixa etária mais afetada. Segundo o epidemiologista e gerente de Vigilância Epidemiológica de Fortaleza, Antônio Lima, esses são os quatro sinais de alerta para a circulação de novas variantes do Sars-CoV-2 — o novo coronavírus. Com a confirmação da presença da variante de Manaus e média móvel da última quinzena de quase 500 casos e cinco óbitos por dia, a Capital, cada dia mais, se consolida nesse cenário, e demanda mais do que aumento da rede de assistência e vacinação.

“A vigilância [genômica] é o maior desafio, hoje, do combate à Covid-19”, afirma o epidemiologista. Segundo ele, o déficit de sequenciamento genômico impossibilita o Estado de acompanhar, em tempo hábil, as mutações do vírus e a forma como elas transformam o cenário pandêmico. “É provável que tenha circulação comunitária da nova variante [na Capital], mas não posso afirmar [sem receber os resultados das amostras]”, pondera.

Segunda onda

Em Fortaleza, a segunda onda da Covid-19 começou há cinco meses, em outubro de 2020, segundo Tanta, como Antônio é conhecido. A disseminação do vírus foi provocada por aglomerações, sobretudo, de jovens de bairros economicamente mais abastados. E os números, que cresciam de forma lenta e concentrada na região nobre, hoje, já estrangulam a rede privada de assistência à saúde e começam a sobrecarregar, também, o sistema público.

No último outubro, morriam, em média, 1,5 pessoas por Covid-19 na Capital. Atualmente, esse dado subiu para cinco, equivalente a 35 mortes por semana e 150 por mês. “Na primeira onda, chegamos a um pico de média móvel de 90 óbitos por dia”, lembrou o epidemiologista.

Contudo, apesar de a Capital ter adquirido expertise no combate à Covid-19, ainda é possível que, no momento em que chegar com mais força na periferia, a segunda onda aumente a letalidade da doença. “A maior preocupação, hoje, do comitê estadual que analisa os dados, é a pressão assistencial, os casos ficando mais graves”, analisa. 

Por enquanto, a situação é mais crítica nos hospitais privados. “Isso começa a impactar as UPAs (Unidades de Pronto Atendimento), a demanda por internação. Normalmente, é um marcador de que, de fato, está expandindo a circulação viral”, diz Tanta.

Carnaval

Com os decretos governamentais que proíbem o deslocamento intermunicipal e restringem a circulação de pessoas no período que seria do Carnaval, a expectativa das autoridades sanitárias é de interromper o aumento da média móvel de casos e óbitos e bloquear a disseminação da nova variante do coronavírus para o Interior do Ceará. “O que puxa a transmissão para lá é Fortaleza e Região Metropolitana”, pontua o epidemiologista.

Ciente das insatisfações de setores econômicos como de bares, restaurantes e eventos, por exemplo, Tanta ressalta que as decisões são tomadas “com base em dados”, sem interesse de prejudicar ninguém, mas, sim, no sentido de “bloquear transmissão, evitar morte e ganhar tempo para vacinar” a população. “Devemos estar atentos, seguir o protocolo [de segurança sanitária] e entender que começamos a sentir uma pressão assistencial maior”, afirma.

'Grave mesmo é o Brasil não ter vacina'

Apesar de alguns estudos internacionais apontarem ineficácia de vacinas específicas diante de variantes também específicas do coronavírus, Tanta diz que nenhum estudo foi publicado ainda sobre a variante de Manaus. “Mesmo que haja, não seria suficiente pra contra indicar a vacina”, afirma o gestor municipal, destacando que “o grave mesmo” no Brasil seria a ineficiência de planejamento e coordenação do programa de vacinação no País. “Grave mesmo é o Brasil não ter vacina”, reforça.

Com poucos imunizantes, estados e municípios acabam criando uma série de critérios que dificultam a vacinação em massa. “O problema é que você tem que ter cuidado com fura-fila, com coisas desse tipo que são graves, mas que não deveriam interromper uma campanha [de imunização]. Estamos perdendo tempo porque não temos vacinas suficientes”, critica.

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