Segundo romance de Tércia Montenegro, "Em Plena Luz" chega ao mercado com trama sobre fugas

Ambientado entre Paris e Fortaleza, livro ganha as livrarias nesta segunda-feira (16), pela Companhia das Letras, impactando pela costura engenhosa e otimista de tramas, cenários e temáticas

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Veterana, Tércia Montenegro abraça pluralidade de temas e abordagens no que assina Foto: Renato Parada

Numa inesperada manobra do tempo, Tércia Montenegro poderia facilmente ter dividido escola com Walter Benjamin (1892-1940). No que toca à experiência de viajar, ambos elegem o sair como trampolim para a descoberta. Nunca são meros passos nem simples vagar. No bojo das andanças que realizam, a escritora e professora cearense e o ensaísta e filósofo alemão compartilham o gosto pelo desconhecido. Resultado: detêm produção textual em sintonia com o espírito de seus deslocamentos.

"O prazer da escrita é justamente deixar que a história aconteça. Se eu tivesse tudo planejado e apenas seguisse, não haveria satisfação nenhuma, nenhum tipo de aprendizado", explica Tércia. "Estaria apenas aplicando um roteiro, quando o fato é que aprendo muito com o inesperado do processo de desenvolvimento narrativo. É sempre um grande prazer ver que eu previ uma coisa inicialmente e saiu outra. E essa outra coisa quase sempre é mais interessante".

A declaração chega aos ouvidos quando a autora se propõe a explicar como nasceu a ideia para "Em Plena Luz". O livro - imaginado inicialmente como uma história de amor, mas findando num relato sobre amizade - chega às prateleiras das livrarias de todo o País hoje (16), pela Companhia das Letras. O lançamento em Fortaleza acontece no dia 28 de setembro, às 15h, no Museu da Fotografia.

Trata-se do segundo romance de Tércia, após o aclamado "Turismo para Cegos", publicado pela mesma editora há quatro anos. Protagonizando a trama, está Lu, fotógrafa e, com o passar das páginas, alguém devotada à escultura. Ela parte da Capital cearense em direção a Paris fugindo de um relacionamento abusivo.

Lá, depara-se com um tipo de violência diferente da cidade natal - sobretudo a hostilidade cultural por ser estrangeira e os atentados terroristas de novembro de 2015, que assolam a metrópole francesa. "O preconceito com outras culturas e comportamentos fica ainda mais nítido numa pessoa que ela conhece lá. Então, foge novamente, de volta para casa".

Não à toa, Tércia situa o livro como um romance sobre fugas e tentativas de salvação - não apenas por parte da personagem principal, mas de todas as outras que a orbitam. Nos lugares e não-lugares nos quais essas teias de relações vão se avolumando, formando um intrincado quebra-cabeça narrativo, a literata passeia por descrições em que caminham, lado a lado, doçura e severidade, alegrias e amargores.

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Além de escritora, Tércia é fotógrafa e professora, e assina a coluna "Tudo é narrativa", no jornal literário Rascunho Foto: Renato Parada

Otimismo

Ainda que com tais modulações, no fim das contas "Em Plena Luz" assume caráter otimista. O romance anterior de Tércia era mapeado por muita crueldade, algo que a motivou a tecer enredo positivo. "Queria escrever um livro sobre redenção, com mensagem um pouco mais esperançosa. O gatilho foi narrar a história de amor entre uma artista e um matemático, duas figuras que fossem aparentemente bem distantes - uma mais racional e outra mais visceral", sublinha.

"Mas isso foi se transformando. Quer dizer, existem episódios amorosos, porém eles não são necessariamente redentores. Essa libertação vem por outra via, a fraterna. A protagonista encontrará muitas pessoas que ajudam no processo de fuga e encontro", completa, deixando entrever ainda que os cenários escolhidos para a trama (uma das cidades em que também se passa a narrativa é Liège, na Bélgica, onde realizou pesquisa na área de Semiótica da Fotografia) foram livremente inspirados em algumas de suas andanças, tanto pela terra natal quanto pelo continente europeu.

Quanto ao retorno à escrita no gênero romance - crônicas e contos, sobretudo estes, são trabalhos mais recorrentes da autora -, há uma justificativa:

"Acho que depois do 'Turismo para cegos', fiquei um pouco viciada no ritmo da narrativa longa. Então, passei a pensar em histórias que se entranham com outras. Essa estrutura tentacular, de muitos braços, tem me agradado".

Seu mais recente lançamento vale-se disso para abraçar outro tipo de conexão: entre o amor e a arte, algo caro à escritora: "Me sinto apaixonada por muitas obras de arte", diz, antes de contar que havia recebido o exemplar em casa no dia da entrevista, terça-feira (10). "Quando peguei, soltei um 'ah, meu Deus'. Porque é o objeto, estou apaixonada por ele. Amor e arte têm essa relação".

Semente

Nesse movimento, Tércia Montenegro - que afirma não reler as obras sob sua assinatura - espera que o romance alcance muitas pessoas capazes de alimentar as reflexões intrínsecas a ele. E são muitas, dialogando frontalmente com questões contemporâneas, tais como terrorismo, necessidade de fuga de determinados contextos, relacionamentos abusivos, liberdade (artística, sexual, profissional), entre outras.

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"Acho que depois do ‘Turismo para cegos’, fiquei um pouco viciada no ritmo da narrativa longa", afirma Tércia Foto: Renato Parado

Professora da Universidade Federal do Ceará, a autora - artesã do fazer sem amarras e fincado na excelência do contar - alimenta também vários projetos. Assina, por exemplo, a coluna "Tudo é narrativa", no jornal literário Rascunho. No entanto, considera complexo responder quantas histórias ainda não escreveu e quais pretende narrar.

"Acho que só no meu necrológio saberia dizer", ri. "Mas, enquanto estiver produzindo, tenho planos, que não dá para falar porque ainda não são realidades, mas desejos. Sou um pouco supersticiosa. Se falo, eles se perdem, então vou acalentando vontades de escrita para que se tornem reais".

É feito os caminhos que percorre: não se sabe ao certo aonde vão dar, mas, a passos próprios, sempre culminam em bem-vinda chegada. Até lá, o desbravar segue. Inquieto, luminoso e voraz.

Serviço
Lançamento do livro “Em Plena Luz” em Fortaleza
Dia 28 de setembro, às 15h, no Museu da Fotografia Fortaleza (Rua Frederico Borges, 545 - Varjota). Contato: (85) 3017-3661

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Em Plena Luz 
Tércia Montenegro 
Companhia das Letras 
2019, 160 páginas 
R$ 69,90