Do útero às mais diversas manifestações de carinho e amparo, um olhar múltiplo sobre o poder do colo

Necessidade básica das relações interpessoais, pedir e dar colo é mais que um sinal de acolhimento. Especialistas e testemunhos dimensionam a força do simples e poderoso gesto capaz de curar

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Distintos registros de nossos fotógrafos captam a essência plural do colo nos cotidianos Foto: Fabiane de Paula

Antes de abrir os olhos para o mundo e soltar o berreiro anunciando vida, estamos envoltos por um universo perfeito. Lá, no útero materno, temos tudo: alimento, abrigo, segurança. Mãe e bebê sendo um só, experimentando essa coisa mágica de compartilhar o existir. Por isso o grito alto no momento de passagem para as cores e sabores do lado de fora. Cá estando, tudo é incerto e diferente, merecendo algo mais para compensar a ausência daquela segura atmosfera.

"A sensação de saída do útero é como a da queda de um abismo", dimensiona Vera Iaconelli, psicanalista e diretora do Instituto Gerar, em São Paulo. "É um processo que passa, portanto, por uma transição. Temos que sair do colo primeiro para viver". Detalhe, à primeira vista, tão simples, o gesto mencionado pela estudiosa carrega uma interessante (e vital) complexidade.

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Contornar o corpo oferecendo carinho também é colo Foto: Fabiane de Paula

Dar e pedir colo está longe de ser apenas um breve acolhimento ou artifício para fazer uma criança parar de chorar. O poder do ato está justamente na forma como nos molda enquanto seres humanos. Quem nunca precisou, seja em momentos felizes ou tristes, do aconchego de alguém ou algo? É nesse abraço de ternura e empatia que reside a força para continuarmos o caminhar.

"O colo é tão necessário entre humanos quanto o alimento. E não tem nada de errado em pedi-lo ou dá-lo. O bebê, por exemplo, vai engatinhando, depois andando, tem essa gana de ganhar o mundo. Mesmo assim, crescendo e se separando aos poucos do contato primeiro, precisamos do colo durante toda a nossa vida. Começa com a criança, depois vai passando para os amiguinhos, partilhando com os irmãos, tecendo essa relação que é sempre gostosa entre pais e filhos, e indo até à idade adulta, na sociedade", complementa Vera.

A fala da pesquisadora, vale mencionar, ganhou maior força em evento realizado pela Novalgina em várias partes do País. No último dia 23 de abril, ocorreu em Salvador, e cujo tema, "O Poder do Colo", reacendeu o debate acerca da urgência do contato e cuidado com o outro. Com Vera, participaram do bate-papo a pediatra da Clínica Conviva e do Hospital Israelita Albert Einstein, Dra. Florência Fuks; a atriz e influenciadora digital Sheron Menezes; e o influenciador digital Otavio Leal, criador do projeto "Pai, Vem Cá" .

Olhar

Para ilustrar a questão por meio de um contra-exemplo, Vera se utilizou de uma famosa obra de Frida Kahlo (1907-1954). Nela, a artista plástica mexicana pinta uma imagem que traz uma ama de leite de rosto obscuro, como que coberto por uma máscara, segurando uma pessoa. Esta suga um leite que se mostra por meio dos ductos e se multiplica pelo derramamento do outro seio da ama e pelo céu - é retratada uma chuva da substância num dia tempestuoso.

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Pintura da artista plástica Frida Kahlo usada como contra-exemplo no evento

É exatamente na face daquela que imaginamos ser a mãe que reside a força da pintura. Ao ser retratada da maneira como está - rosto coberto, braços com musculatura indiferente à criança - há uma reflexão que parece demonstrar uma negação de amorosidade e carinho, por parte da mulher, à pessoa que amamenta.

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Carregar no ombro também é oferecer colo Foto: Fabiane de Paula

"É um retrato de uma situação onde não existe afeto, onde os braços cedem - o bebê está mais se segurando do que sendo seguro. Poderia ser uma mãe olhando para o celular, ou muito deprimida, doente, ou que não está a fim desse filho. E a Frida é tão genial que se pinta enquanto adulta, já que uma das coisas que acontece nesses casos é o bebê se submeter enquanto sujeito muito rapidamente, tornando-se pessoas sempre ansiosas, que estão calculado tudo. É algo físico e psíquico. Mais importante que o nutriente do leite, é o olho no olho. É o que alimenta mais", explica Vera.

Por sua vez, Florência Fuks endossa o debate ao traduzir, em poucas palavras, a tônica da obra de Frida: não é só pegar uma criança, mas organizá-la.

"Ao falarmos de colo, estamos tratando de algo que contorna e forma, fazendo com que o bebê entre em contato com percepções, sensações, o cheiro, a voz", enumera. "E a natureza é tão sábia que a distância ideal para um bebê enxergar melhor é aquela que parte do seio à face da mãe. Isso faz ele reconhecer o humano como alguém que o acolhe e, assim, vai procurar por isso em outros momentos. Não precisa ser sempre o colo da mãe".

De fato, é a partir dali que reside o desafio de projetar o afeto recebido em outras pessoas e situações. A pesquisadora, não sem motivo, confessa estar em um momento profissional de aconselhamento aos pais que chegam em seu consultório, pedindo-os a olhar o pequeno sujeito sob seus cuidados como de fato ele é, procurando compreender suas complexidades.

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O prazer da própria companhia também é maneira de ser e dar colo Foto: Fabiane de Paula

"Temos que acompanhar nossos filhos e as pessoas em geral enxergando o tempo de cada um. São percursos dentro do desenvolvimento individual em que é fundamental o cuidado de ser delicado diante daquilo que está acontecendo". Isso também é colo.

Ressonâncias

Ultrapassando a dimensão do primeiro estágio da vida, Sheron Menezes e Otavio Leal projetam a força do gesto por entre as diferentes fases do desenvolvimento humano.

A primeira - mãe do pequeno Benjamin, de um ano e cinco meses - diz, por exemplo, que a experiência da maternidade lhe permitiu ingressar numa poderosa rede de compartilhamento de histórias, confissões e aconselhamentos.

"Depois que comecei a falar muito sobre o poder do colo a partir da perspectiva do meu filho, passei a ver que esse colo não é só o colo que, de fato, conhecemos. É a atenção que hoje o meu marido está me dando, de dizer 'fica tranquila que eu tô aqui, não se preocupa'; é também o colo da pessoa que vê que eu não tô bem e me oferece um café, que me dá uma atenção, um ouvido. É muito abrangente e isso é maravilhoso", comemora, não contendo a emoção ao relembrar cada ato mencionado.

Ultimamente, ela confessa estar ganhando mais colo do filho do que o contrário e reflete que esse movimento é saudável: faz parte do crescimento. "Está sendo muito gostoso. Durante quase dez meses eu abraçava aquela barriga, andava toda assim", faz um gesto engraçado.

"Acho que toda mãe faz isso. E era como se eu mesma tivesse me dando um colo naquele momento de peso. Então, quando o bebê sai e você abraça e dá aquele colo, você também está se abraçando porque ele faz parte de você".

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Estender a mão oferecendo apoio também é ser colo Foto: Fabiane de Paula

Otavio Leal, na experiência de pai da pequena Maria Flor, de cinco anos, traça oportuna referência para demonstrar a relevância do aconchego entre os pares. "Na minha vida, no dia a dia, quando eu quero saber se algo é importante, tiro isso e vejo o que sobra. E, quando você tira o colo, o carinho, o acolhimento, o que sobra? Sobram saudade, angústia, crianças cometendo bullying. Sobram ciúme e um monte de gente carente, e essa carência é levada a vida inteira".

O colo, assim, é coisa que ninguém se acostuma a não ter. E Otavio compreende bem isso ao rememorar o gesto de acolhimento total que dedica à filha. "É tudo olho no olho com a gente. É ela olhando para mim e eu olhando para mim também por meio do olho dela, então ficamos ali, se dando colo. É uma troca o tempo inteiro".

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Abraçar o mundo em sinal de afeto também é ser colo Foto: Natinho Rodrigues

Atos tão necessários, a atenção, o afago, em suma, o colo destinado a quem mais perto está adquire dimensão até social, ultrapassando as barreiras do eu: dilui-se em algo maior, como num grande abraço.

"Há essa complexidade de o colo fortalecer inclusive a imunidade do corpo de cada um de nós, mas a gente também pode pensá-lo como algo que afeta a imunidade da sociedade. Se a gente puder acolher todos os sujeitos de uma coletividade, certamente vamos ter um todo mais saudável", considera Vera Iaconelli.

Que assim seja.

*O jornalista viajou a Salvador a convite da Novalgina

>> Saiba Mais

Evolução do colo

0 a 2 anos: Pegar efetivamente no colo, olhar, ouvir, falar, acariciar, ajuda a se organizar física e psiquicamente

2 a 4 anos: Deve ser avaliado conforme a necessidade, o colo efetivo ao sentir tristeza e dor, mas é preciso dar autonomia para começar a descobrir o mundo por si

4 a 10 anos: Não é mais necessário colocar no colo o tempo todo, mas é importante ouvir, conversar, abraçar, beijar e mostrar empatia

11 a 16 anos: Conversar é o mais importante. Com entendimento melhor de mundo, a palavra tem mais efeito sobre o adolescente

16 a 21 anos: Jovens podem ser mais avessos ao toque. Conversar por telefone e por mensagem de texto já causa grande efeito

Vida adulta: O distanciamento entre as pessoas pode fazer com que o toque volte a ser importante. Conversar, mesmo que por telefone, faz as pessoas se sentirem melhores


>> O colo na literatura

“Quero colo” (Edições SM), escrito e ilustrado por dois importantes nomes da literatura infantil contemporânea, Stela Barbieri e Fernando Vilela, é um livro que tenta responder à pergunta: como os bebês são ninados em diferentes países, culturas, comportamentos e contextos culturais? Imbuídos dessa missão, os autores percorrem paisagens geográficas e humanas comprovando o que já sabemos bem: a necessidade de amparo e proteção é universal e precisa ser cultivada e desenvolvida em todas as fases da vida, a começar pela infância. É um passeio pelo afeto a partir de ilustrações do famoso “colinho” ao redor do planeta.

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