Renda de bilros é forte na cultura do Ceará
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Redação
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A renda de bilros, conhecida como renda de almofada e renda do Ceará, inspirou a fortalezense Catherine Arruda Ellwanger Fleury a fazer sua tese final do curso de mestrado da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Catherine é também formada em Arqueologia e foi figurinista da TVE do Rio, onde desenvolveu pesquisas para criação de trajes adequados à promoção cultural e educacional da emissora.
Foi aqui em Brasília que tomei conhecimento desse trabalho da Catherine que me foi apresentada por uma amiga comum, Carmem de Souza, também formada nas Belas Artes do Rio.
Catherine, que é sobrinha do político Esmerino Arruda, disse que a pesquisa para a tese de mestrado buscou compreender o papel do artesanato tradicional da renda de bilros na construção do imaginário. E ela tem certeza de que ´nenhum outro traço cultural, comum a muitos povos, tenha se incorporado de maneira tão completa no Brasil como a renda de bilros, a partir mesmo da sua matéria-prima - o algodão nativo´. Segundo ela, a renda de bilros está tão intimamente ligada aos símbolos da cultura cearense que é também conhecida como renda da Terra, renda do Ceará, ainda que ocorram focos de sua produção em outros lugares, como em Santa Catarina´.
Cearense, criada no Rio desde menina, Catherine não esconde que sempre foi atraída por assuntos ligados ao Ceará: ´como toda nordestina transplantada, carrego dentro de mim a lembrança da cidade em que nasci, Fortaleza, e de um Nordeste meio feito de imaginação´.
Ela confessa que nunca tinha visto uma rendeira de perto até o início de seu trabalho de campo, em Aracati e Trairi. Durante o trabalho de campo em Fortaleza, ela visitou mercados e feiras, onde pôde observar a comercialização do artesanato, especialmente as rendas de bilros vendidas no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. Catherine lembra que no Nordeste, o folclore e o artesanato locais têm sido explorados pelo turismo, avaliado como grande fonte de riqueza.
Falar de rendas é falar também de rendeiras e Catherine lembra Câmara Cascudo: ´As rendas têm nome, história, anedotários. As rendeiras têm suas rainhas, espécie de abelha-mestra, levando para o túmulo segredo de certos pormenores´. A rendeira transmite sua técnica pela tradição oral.
DEFINIÇÕES - Nas consultas a livros, Internet, museus, Catherine encontrou muitas definições para a renda e seus diversos tipos. Segundo Artur Ramos ´a renda pode ser considerada como um fio enrolado sobre si mesmo, sem fundo de tecido preexistente, de maneira a formar, ou uma retícula simples, ou um desenho mais ou menos complexo. Neste caso, a renda é tão antiga quanto o bordado´.
Outra definição que ela destaca, de Georgina O´Hara: ´a renda é um tecido com padrão de orifícios e desenhos feitos à mão ou à máquina. Os dois tipos mais comuns são a renda de bilros ou a renda de agulha. A de bilros é criada pela manipulação de numerosos fios, cada um deles preso a um bilro, sendo em geral trabalhada sobre um almofada.
A pesquisadora descobriu que, em sua caracterização atual, tanto a renda de bilros como a de agulha são relativamente recentes: apareceram no final da Idade Média. Ela vai buscar o Arthur Ramos para esclarecer que a renda de agulha nasceu a partir do bordado, para suprir a necessidade de quebrar a monotonia de um fundo compacto de tecido preexistente. Já a renda de bilros é executada em fios montados em bobinas chamadas bilros e que se entrecruzam de acordo com um desenho dado´.
O mais antigo dos pontos de agulha, o ponto de Veneza, consiste em relevos representando ornamentos cheios ou abertos em forma de flores abertas entreligadas por bridas e barras delicadas.´
A técnica da renda de bilros também é de origem italiana. Foi transmitida a diversos países europeus que desenvolveram outras características.
A matéria-prima básica para a confecção da renda de bilros consiste unicamente na linha. Antigamente, usavam-se fios de algodão fiados na roca. Hoje, é usado o fio industrializado. As cores bege e branca são as tradicionais em que a renda é confeccionada.
No Brasil, conforme a Catherine explica em sua tese, os tipos de renda de agulha passaram a se chamar renda Renascença ou renda irlandesa. Mas há outras modalidades como rendendê, considerado mais como bordado, o labirinto e o filé. A renda de bilros é o tipo de renda de maior abrangência no Brasil, conhecida pelos nomes de renda da terra, renda do Norte ou renda do Ceará. Nos anos 30 e 40 a máquina de costura Singer lançou um livro ensinando como fazer rendas e bordados feitos no filó, que a Catherine identifica como falsas rendas.
As rendas de bilros são classificadas por Nair Becker como populares, que podem ser grosseiras ou delicadas e rendas aristocráticas, subdivididas em imitação de guipure ou Renascença.
VAI RENDER - Os primeiros estudos sobre o artesanato de rendas no Brasil foram feitos por folcloristas. Só muitos anos depois, há pouco, é que os estudos desenvolvidos pelos governos têm revelado preocupação socioeconômica e cultural.
Hoje, as rendas, os bordados enquadram-se na categoria artesanato artístico dos bens de consumo. O artesanato de renda de bilros e as diversas modalidades de rendas, assim como bordado, são tidos como atividades femininas e domésticas. O Ceará é considerado grande centro produtor.
Mas há um temor. O elevado preço da matéria-prima, a evasão da mão-de-obra decorrente da perda de motivação da aprendizagem e o desaparecimento dos ´papelões´, que são os moldes, em razão de já não haver quem possa reproduzir, o artesanato da renda entra em processo de decadência.
A grande esperança está na chegada do turista. O interesse dele pela renda, a propaganda que ele faz pelo mundo muda a situação. Ele se encanta com um dos mais bonitos tipos de artesanato do Ceará, a renda de bilro, de origem portuguesa.
Os folhetins que explicam a renda, sua origem descrevem as rendeiras como habilidosas artistas, ´cujas principais características são a paciência e a dedicação´, devem motivar jovens cearenses a aprenderem a lidar com as almofadas e os bilros. Durante muitos e muitos anos ainda vamos ter turistas em Acaraú, Cascavel, Mundaú, Beberibe, Trairi e Aracati, de boca aberta, deslumbrados com o vaivém das mãos hábeis das rendeiras, transformando fios em arte, criando o belo, perpetuando a renda do Ceará.
O Mercado Central, a antiga Cadeia Pública, na Praça da Estação, e a feirinha da Beira-Mar são locais onde você pode encontrar o artesanato cearense. Lá, você conhece de perto a renda e o bordado da terra.
Catherine é também formada em Arqueologia e foi figurinista da TVE do Rio, onde desenvolveu pesquisas para criação de trajes adequados à promoção cultural e educacional da emissora.
Foi aqui em Brasília que tomei conhecimento desse trabalho da Catherine que me foi apresentada por uma amiga comum, Carmem de Souza, também formada nas Belas Artes do Rio.
Catherine, que é sobrinha do político Esmerino Arruda, disse que a pesquisa para a tese de mestrado buscou compreender o papel do artesanato tradicional da renda de bilros na construção do imaginário. E ela tem certeza de que ´nenhum outro traço cultural, comum a muitos povos, tenha se incorporado de maneira tão completa no Brasil como a renda de bilros, a partir mesmo da sua matéria-prima - o algodão nativo´. Segundo ela, a renda de bilros está tão intimamente ligada aos símbolos da cultura cearense que é também conhecida como renda da Terra, renda do Ceará, ainda que ocorram focos de sua produção em outros lugares, como em Santa Catarina´.
Cearense, criada no Rio desde menina, Catherine não esconde que sempre foi atraída por assuntos ligados ao Ceará: ´como toda nordestina transplantada, carrego dentro de mim a lembrança da cidade em que nasci, Fortaleza, e de um Nordeste meio feito de imaginação´.
Ela confessa que nunca tinha visto uma rendeira de perto até o início de seu trabalho de campo, em Aracati e Trairi. Durante o trabalho de campo em Fortaleza, ela visitou mercados e feiras, onde pôde observar a comercialização do artesanato, especialmente as rendas de bilros vendidas no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. Catherine lembra que no Nordeste, o folclore e o artesanato locais têm sido explorados pelo turismo, avaliado como grande fonte de riqueza.
Falar de rendas é falar também de rendeiras e Catherine lembra Câmara Cascudo: ´As rendas têm nome, história, anedotários. As rendeiras têm suas rainhas, espécie de abelha-mestra, levando para o túmulo segredo de certos pormenores´. A rendeira transmite sua técnica pela tradição oral.
DEFINIÇÕES - Nas consultas a livros, Internet, museus, Catherine encontrou muitas definições para a renda e seus diversos tipos. Segundo Artur Ramos ´a renda pode ser considerada como um fio enrolado sobre si mesmo, sem fundo de tecido preexistente, de maneira a formar, ou uma retícula simples, ou um desenho mais ou menos complexo. Neste caso, a renda é tão antiga quanto o bordado´.
Outra definição que ela destaca, de Georgina O´Hara: ´a renda é um tecido com padrão de orifícios e desenhos feitos à mão ou à máquina. Os dois tipos mais comuns são a renda de bilros ou a renda de agulha. A de bilros é criada pela manipulação de numerosos fios, cada um deles preso a um bilro, sendo em geral trabalhada sobre um almofada.
A pesquisadora descobriu que, em sua caracterização atual, tanto a renda de bilros como a de agulha são relativamente recentes: apareceram no final da Idade Média. Ela vai buscar o Arthur Ramos para esclarecer que a renda de agulha nasceu a partir do bordado, para suprir a necessidade de quebrar a monotonia de um fundo compacto de tecido preexistente. Já a renda de bilros é executada em fios montados em bobinas chamadas bilros e que se entrecruzam de acordo com um desenho dado´.
O mais antigo dos pontos de agulha, o ponto de Veneza, consiste em relevos representando ornamentos cheios ou abertos em forma de flores abertas entreligadas por bridas e barras delicadas.´
A técnica da renda de bilros também é de origem italiana. Foi transmitida a diversos países europeus que desenvolveram outras características.
A matéria-prima básica para a confecção da renda de bilros consiste unicamente na linha. Antigamente, usavam-se fios de algodão fiados na roca. Hoje, é usado o fio industrializado. As cores bege e branca são as tradicionais em que a renda é confeccionada.
No Brasil, conforme a Catherine explica em sua tese, os tipos de renda de agulha passaram a se chamar renda Renascença ou renda irlandesa. Mas há outras modalidades como rendendê, considerado mais como bordado, o labirinto e o filé. A renda de bilros é o tipo de renda de maior abrangência no Brasil, conhecida pelos nomes de renda da terra, renda do Norte ou renda do Ceará. Nos anos 30 e 40 a máquina de costura Singer lançou um livro ensinando como fazer rendas e bordados feitos no filó, que a Catherine identifica como falsas rendas.
As rendas de bilros são classificadas por Nair Becker como populares, que podem ser grosseiras ou delicadas e rendas aristocráticas, subdivididas em imitação de guipure ou Renascença.
VAI RENDER - Os primeiros estudos sobre o artesanato de rendas no Brasil foram feitos por folcloristas. Só muitos anos depois, há pouco, é que os estudos desenvolvidos pelos governos têm revelado preocupação socioeconômica e cultural.
Hoje, as rendas, os bordados enquadram-se na categoria artesanato artístico dos bens de consumo. O artesanato de renda de bilros e as diversas modalidades de rendas, assim como bordado, são tidos como atividades femininas e domésticas. O Ceará é considerado grande centro produtor.
Mas há um temor. O elevado preço da matéria-prima, a evasão da mão-de-obra decorrente da perda de motivação da aprendizagem e o desaparecimento dos ´papelões´, que são os moldes, em razão de já não haver quem possa reproduzir, o artesanato da renda entra em processo de decadência.
A grande esperança está na chegada do turista. O interesse dele pela renda, a propaganda que ele faz pelo mundo muda a situação. Ele se encanta com um dos mais bonitos tipos de artesanato do Ceará, a renda de bilro, de origem portuguesa.
Os folhetins que explicam a renda, sua origem descrevem as rendeiras como habilidosas artistas, ´cujas principais características são a paciência e a dedicação´, devem motivar jovens cearenses a aprenderem a lidar com as almofadas e os bilros. Durante muitos e muitos anos ainda vamos ter turistas em Acaraú, Cascavel, Mundaú, Beberibe, Trairi e Aracati, de boca aberta, deslumbrados com o vaivém das mãos hábeis das rendeiras, transformando fios em arte, criando o belo, perpetuando a renda do Ceará.
O Mercado Central, a antiga Cadeia Pública, na Praça da Estação, e a feirinha da Beira-Mar são locais onde você pode encontrar o artesanato cearense. Lá, você conhece de perto a renda e o bordado da terra.