A estratégia carioca para acabar com a criminalidade
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Redação
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Vítima da violência de traficantes, há décadas, a população carioca aplaude as ações da Polícia Pacificadora
A prisão de vários líderes do tráfico, a fuga de um bando de suspeitos no meio da mata e lençóis brancos hasteados no morro clamando por paz. Estas foram as imagens divulgadas nos jornais, para representar a vitória da ação da Polícia contra os traficantes da Vila Cruzeiro, no Rio de Janeiro, e a retomada do Complexo do Alemão.
Nas últimas semanas, o clima de esperança tomou conta de cariocas do morro e do asfalto e de todos os brasileiros que admiram a Cidade Maravilhosa. No entanto, muito ainda precisa ser feito para conter a onda de criminalidade que surge das ações do tráfico de drogas.
Construído e mantido ao longo de vários governos com políticas de segurança insipientes, o poder dos traficantes de drogas do Rio de Janeiro, é grandioso. Das 1020 favelas da cidade, 470 estão nas mãos de bandidos. Atualmente, 20% da população carioca mora nos morros, os quais representam 3% do território habitado da cidade.
Comércio de drogas
A dificuldade de acesso a estas áreas, que se configuram por regiões montanhosas e são compreendidas por um amontoado de vielas, transforma o morro em trincheiras. Na cidade, são vendidas 20 toneladas de cocaína por ano, comércio que produz R$ 300 milhões e financia a corrida armamentista das quadrilhas que disputam territórios à bala.
Além disso, o próprio sistema do crime organizado dificulta a captura de bandidos. O comércio de drogas no Rio é um negócio lucrativo que envolve pobres e ricos e conta, ainda, com a cooperação de policiais corruptos organizados em milícias.
A Polícia carioca tem um histórico de convivência com o tráfico que o configura como uma das mais corruptas do País. Essa promiscuidade criminosa acaba com o ambiente de trabalho dos policiais e fortalece ainda mais os bandidos.
As milícias, organizações criminosas comandadas por militares, ex-militares, policiais e ex-policiais já dominam 96 favelas cariocas. Nestes lugares, os milicianos tomaram os morros de facções criminosas e passaram a controlar o fornecimento de água, energia elétrica e TV a cabo clandestinas, a venda de gás de cozinha e serviços de segurança e transportes. Eles cobram caro pelos serviços, com armas em punho.
A série de ataques a ônibus e outros veículos nas ruas do Rio foram uma resposta dos criminosos à política de ocupação de favelas por Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), implementada pelo governador Sérgio Cabral e pelo secretário de Segurança, José Mariano Beltrame.
Os traficantes buscavam por meio dos ataques atingir o Estado. No entanto, a guerra incendiária do tráfico teve um efeito que ninguém imaginava.
A população se uniu em favor da presença das UPPs em morros e favelas. A Polícia, que tinha uma imagem desacreditada, tornou-se símbolo de que é possível resgatar a paz no Rio de Janeiro. O recuo das tropas tornou-se então inevitável.
Formada por jovens policiais, a UPP é um novo modelo de policiamento que promove a aproximação entre a população e a Polícia, aliada ao fortalecimento de políticas sociais nas comunidades. Ao recuperar territórios ocupados há décadas por traficantes e, recentemente, por milicianos, as UPPs levam a paz e garantem o direito de ir e vir com segurança.
Há dois anos, a primeira UPP trouxe a pacificação do Morro Dona Marta. No total, as Unidades de Polícia Pacificadora já retomaram o território de 12 favelas. Acompanhadas de escolas, postos de saúde, bancos, elas tentam garantir a presença do Estado na área. O planejamento estratégico da Secretaria de Segurança prevê que o projeto da UPP poderá chegar a até 40 áreas nos próximos quatro anos, o que incluirá 165 comunidades, das mais de mil que hoje estão sob controle de quadrilhas armadas no estado do Rio.
Desafio
A implantação da Polícia pacificadora no Complexo do Alemão, um emaranhado de 18 favelas que se estendem por cinco bairros e que se configura como a cidade-estado do tráfico, deve ser o maior desafio da política de Segurança de Sérgio Cabral. Se tiver êxito, o Rio poderá se tornar um exemplo para o Brasil e para o mundo.
O antropólogo Luiz Eduardo Soares, secretário nacional de Segurança Pública, defende a expansão das UPPs. Para Soares, elas são um reconhecimento de que a velha prática da guerra não funciona. "A UPP deve acabar com o controle territorial de criminosos e com as incursões bélicas, significa que a Polícia vai estar presente 24 horas prestando um serviço público, como em qualquer bairro nobre da cidade". Durante a campanha, a presidente eleita Dilma Rousseff disse que pretende levá-las a outras regiões do País. O Rio também prepara uma escola de formação para policiais de outros estados.
JULIANNA SAMPAIO
ESPECIAL PARA NACIONAL
OPINIÃO DO ESPECIALISTA
O fim da guerra e a retomada da esperança
Em novembro de 1988, os moradores de Ipanema conheceram a barbárie. No asfalto da Rua Barão da Torre, onde fui criada, jazia a cabeça de um homem, atirada do alto do Morro do Cantagalo. O decapitado era imposto como símbolo do poderio dos déspotas que controlavam as favelas cariocas. Como boa parte da população, sempre tive a favela como vizinha. Por mais de 40 anos com o Cantagalo. Meus pais, moradores de Ipanema, jamais temeram o propagado dia em que "aquela gente" da favela tomaria a cidade. Porque, para nós, "aquela gente" eram trabalhadores honestos que moravam encarapitados em casebres, sobrevivendo sob o olhar desconfiado das elites. "Aquela gente" tivera que se submeter às ordens de criminosos pelo descaso absoluto das autoridades constituídas. A partir da década de 80, a banalização da violência cresceu, aterrorizando os moradores das favelas e amedrontando os "do asfalto", que desviavam o rosto, como se faz em relação a mendigos e aos meninos de rua do Rio. Tomadas de favelas por forças policiais assisti a muitas, sempre após batalhas entre grupos de bandidos. Os policiais entravam para solucionar crises, montavam postos de guarda no alto dos morros ou em praças no centro do aglomerado de casas, quando a favela era horizontal. E os moradores se rendiam tanto ao temor e às ordens dos criminosos quanto à truculência da Polícia. Casas eram invadidas por traficantes, portas arrombadas por policiais. Chega um momento em que todos preferimos a ignorância das estatísticas para não sofrer mais ainda. A implantação das UPPs em algumas comunidades foi encarada com ceticismo por boa parte dos cariocas. Os traficantes eram alertados pelo governo e abandonavam a região, que tinha imediata valorização imobiliária - o que contribuiu para a aprovação das medidas pelas classes média e alta. A venda de drogas nesses locais continuava, discretamente, sem a exibição de armas. Outros negócios movimentados pelos traficantes e pelas milícias foram impedidos pela chegada das UPPs. A reação do tráfico era aguardada. Quando ela aconteceu, há duas semanas, imaginava-se a total desmoralização da política de ocupação. Mas isso não aconteceu. A diferença da recuperação do conjunto de favelas do Alemão para as ações anteriores é que, além do apoio das Forças Armadas, esta contou com o aplauso de quase 90% da população do Rio. Ela foi saudada não apenas por quem vive na linha de tiro, mas também pelos que se protegem em grades e vidros blindados. O momento é de euforia e expectativa, apesar de alguns ainda desacreditarem na ordem. Os cariocas, que insistem em amar seus cantos sofridos apesar das tragédias diárias, quer ter o direito de confiar no Estado e na Polícia. Espera-se para breve novas batalhas pela retomada dos muitos territórios onde os bandidos se aquartelaram. Ninguém pode prever o que acontecerá. Porque, definitivamente, alguma coisa mudou na praça de nossa guerra urbana de cada dia.
Olga de Moura Mello
Jornalista
A prisão de vários líderes do tráfico, a fuga de um bando de suspeitos no meio da mata e lençóis brancos hasteados no morro clamando por paz. Estas foram as imagens divulgadas nos jornais, para representar a vitória da ação da Polícia contra os traficantes da Vila Cruzeiro, no Rio de Janeiro, e a retomada do Complexo do Alemão.
Nas últimas semanas, o clima de esperança tomou conta de cariocas do morro e do asfalto e de todos os brasileiros que admiram a Cidade Maravilhosa. No entanto, muito ainda precisa ser feito para conter a onda de criminalidade que surge das ações do tráfico de drogas.
Construído e mantido ao longo de vários governos com políticas de segurança insipientes, o poder dos traficantes de drogas do Rio de Janeiro, é grandioso. Das 1020 favelas da cidade, 470 estão nas mãos de bandidos. Atualmente, 20% da população carioca mora nos morros, os quais representam 3% do território habitado da cidade.
Comércio de drogas
A dificuldade de acesso a estas áreas, que se configuram por regiões montanhosas e são compreendidas por um amontoado de vielas, transforma o morro em trincheiras. Na cidade, são vendidas 20 toneladas de cocaína por ano, comércio que produz R$ 300 milhões e financia a corrida armamentista das quadrilhas que disputam territórios à bala.
Além disso, o próprio sistema do crime organizado dificulta a captura de bandidos. O comércio de drogas no Rio é um negócio lucrativo que envolve pobres e ricos e conta, ainda, com a cooperação de policiais corruptos organizados em milícias.
A Polícia carioca tem um histórico de convivência com o tráfico que o configura como uma das mais corruptas do País. Essa promiscuidade criminosa acaba com o ambiente de trabalho dos policiais e fortalece ainda mais os bandidos.
As milícias, organizações criminosas comandadas por militares, ex-militares, policiais e ex-policiais já dominam 96 favelas cariocas. Nestes lugares, os milicianos tomaram os morros de facções criminosas e passaram a controlar o fornecimento de água, energia elétrica e TV a cabo clandestinas, a venda de gás de cozinha e serviços de segurança e transportes. Eles cobram caro pelos serviços, com armas em punho.
A série de ataques a ônibus e outros veículos nas ruas do Rio foram uma resposta dos criminosos à política de ocupação de favelas por Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), implementada pelo governador Sérgio Cabral e pelo secretário de Segurança, José Mariano Beltrame.
Os traficantes buscavam por meio dos ataques atingir o Estado. No entanto, a guerra incendiária do tráfico teve um efeito que ninguém imaginava.
A população se uniu em favor da presença das UPPs em morros e favelas. A Polícia, que tinha uma imagem desacreditada, tornou-se símbolo de que é possível resgatar a paz no Rio de Janeiro. O recuo das tropas tornou-se então inevitável.
Formada por jovens policiais, a UPP é um novo modelo de policiamento que promove a aproximação entre a população e a Polícia, aliada ao fortalecimento de políticas sociais nas comunidades. Ao recuperar territórios ocupados há décadas por traficantes e, recentemente, por milicianos, as UPPs levam a paz e garantem o direito de ir e vir com segurança.
Há dois anos, a primeira UPP trouxe a pacificação do Morro Dona Marta. No total, as Unidades de Polícia Pacificadora já retomaram o território de 12 favelas. Acompanhadas de escolas, postos de saúde, bancos, elas tentam garantir a presença do Estado na área. O planejamento estratégico da Secretaria de Segurança prevê que o projeto da UPP poderá chegar a até 40 áreas nos próximos quatro anos, o que incluirá 165 comunidades, das mais de mil que hoje estão sob controle de quadrilhas armadas no estado do Rio.
Desafio
A implantação da Polícia pacificadora no Complexo do Alemão, um emaranhado de 18 favelas que se estendem por cinco bairros e que se configura como a cidade-estado do tráfico, deve ser o maior desafio da política de Segurança de Sérgio Cabral. Se tiver êxito, o Rio poderá se tornar um exemplo para o Brasil e para o mundo.
O antropólogo Luiz Eduardo Soares, secretário nacional de Segurança Pública, defende a expansão das UPPs. Para Soares, elas são um reconhecimento de que a velha prática da guerra não funciona. "A UPP deve acabar com o controle territorial de criminosos e com as incursões bélicas, significa que a Polícia vai estar presente 24 horas prestando um serviço público, como em qualquer bairro nobre da cidade". Durante a campanha, a presidente eleita Dilma Rousseff disse que pretende levá-las a outras regiões do País. O Rio também prepara uma escola de formação para policiais de outros estados.
JULIANNA SAMPAIO
ESPECIAL PARA NACIONAL
OPINIÃO DO ESPECIALISTA
O fim da guerra e a retomada da esperança
Em novembro de 1988, os moradores de Ipanema conheceram a barbárie. No asfalto da Rua Barão da Torre, onde fui criada, jazia a cabeça de um homem, atirada do alto do Morro do Cantagalo. O decapitado era imposto como símbolo do poderio dos déspotas que controlavam as favelas cariocas. Como boa parte da população, sempre tive a favela como vizinha. Por mais de 40 anos com o Cantagalo. Meus pais, moradores de Ipanema, jamais temeram o propagado dia em que "aquela gente" da favela tomaria a cidade. Porque, para nós, "aquela gente" eram trabalhadores honestos que moravam encarapitados em casebres, sobrevivendo sob o olhar desconfiado das elites. "Aquela gente" tivera que se submeter às ordens de criminosos pelo descaso absoluto das autoridades constituídas. A partir da década de 80, a banalização da violência cresceu, aterrorizando os moradores das favelas e amedrontando os "do asfalto", que desviavam o rosto, como se faz em relação a mendigos e aos meninos de rua do Rio. Tomadas de favelas por forças policiais assisti a muitas, sempre após batalhas entre grupos de bandidos. Os policiais entravam para solucionar crises, montavam postos de guarda no alto dos morros ou em praças no centro do aglomerado de casas, quando a favela era horizontal. E os moradores se rendiam tanto ao temor e às ordens dos criminosos quanto à truculência da Polícia. Casas eram invadidas por traficantes, portas arrombadas por policiais. Chega um momento em que todos preferimos a ignorância das estatísticas para não sofrer mais ainda. A implantação das UPPs em algumas comunidades foi encarada com ceticismo por boa parte dos cariocas. Os traficantes eram alertados pelo governo e abandonavam a região, que tinha imediata valorização imobiliária - o que contribuiu para a aprovação das medidas pelas classes média e alta. A venda de drogas nesses locais continuava, discretamente, sem a exibição de armas. Outros negócios movimentados pelos traficantes e pelas milícias foram impedidos pela chegada das UPPs. A reação do tráfico era aguardada. Quando ela aconteceu, há duas semanas, imaginava-se a total desmoralização da política de ocupação. Mas isso não aconteceu. A diferença da recuperação do conjunto de favelas do Alemão para as ações anteriores é que, além do apoio das Forças Armadas, esta contou com o aplauso de quase 90% da população do Rio. Ela foi saudada não apenas por quem vive na linha de tiro, mas também pelos que se protegem em grades e vidros blindados. O momento é de euforia e expectativa, apesar de alguns ainda desacreditarem na ordem. Os cariocas, que insistem em amar seus cantos sofridos apesar das tragédias diárias, quer ter o direito de confiar no Estado e na Polícia. Espera-se para breve novas batalhas pela retomada dos muitos territórios onde os bandidos se aquartelaram. Ninguém pode prever o que acontecerá. Porque, definitivamente, alguma coisa mudou na praça de nossa guerra urbana de cada dia.
Olga de Moura Mello
Jornalista