Esposo de babá cearense assassinada em Portugal cobra respostas: ‘Não pude dar um enterro digno’

A suspeita do crime segue presa e foi indiciada pelo Ministério Público português.

Escrito por
Lucas Monteiro lucas.morais@svm.com.br
Foto de Teodoro com Lucinete.
Legenda: O jardineiro relata que não sabe quais procedimentos investigativos foram realizados pelas autoridades portuguesas.
Foto: Reprodução.

"Eu cobro informações todos os dias". É assim que Teodoro Júnior, marido de Lucinete Freitas, descreve a angústia que vive desde a morte da esposa. A babá cearense, de 55 anos, foi encontrada morta em Portugal no último dia 18 de dezembro, 13 dias após ser dada como desaparecida.

Um mês após o crime, Teodoro afirma que ainda não recebeu o resultado da autópsia nem a certidão de óbito da companheira. Segundo ele, as informações repassadas até agora são vagas e insuficientes.

“O que sei é que minha esposa morreu após ser atingida por um objeto contundente, como um bloco de cimento. Mas isso nunca me foi oficialmente explicado”, diz.

O jardineiro relata que não sabe quais procedimentos investigativos foram realizados pelas autoridades portuguesas. “Eu não sei se houve perícia completa. Não sei, por exemplo, se o carro foi periciado. Não sei quais procedimentos foram realizados”, afirma. “E eu tenho o direito de saber o que aconteceu com a minha Lucinete". 

Teodoro diz compreender que o inquérito corre sob sigilo da Polícia Judiciária de Portugal, mas afirma que o silêncio prolongado tem sido desumano. “Eu entendo que a polícia tem seus procedimentos e que existe sigilo, e respeito isso. Mas ainda há perguntas que não foram respondidas. O que está acontecendo é desumano". 

Entre os questionamentos feitos por ele às autoridades estão a possibilidade de participação de outras pessoas no crime e a existência de imagens que possam ajudar a esclarecer o caso.

“Eu questionei a polícia se ela [suspeita] agiu sozinha. Eu perguntei se uma pessoa consegue mover um corpo sozinha. Perguntei se houve ajuda de terceiros. Também questionei sobre a existência de câmeras de segurança, se imagens foram recolhidas, se houve análise de registros próximos ao local. Até agora, não obtive respostas claras sobre nada disso.”
Teodoro Júnior
marido de Lucinete

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Segundo Teodoro, a família tem contado apenas com a solidariedade de terceiros para tentar custear a repatriação do corpo, que permanece em solo português. Mesmo assim, o valor arrecadado não chega à metade do necessário.

“Por que a família da assassina não custeia sequer as despesas básicas decorrentes da morte da minha esposa? Em momento nenhum o patrão fez algum contato se solidarizando com a família ou oferecendo alguma ajuda de custo. Nada”, desabafa.

Sem contato do Itamaraty

Teodoro afirma que, até o momento, não recebeu qualquer contato do Governo do Ceará ou do Itamaraty para tratar da repatriação do corpo de Lucinete. A dor, segundo ele, é agravada pela impossibilidade de se despedir da esposa de forma digna.

“Eu não pude dar um enterro digno à Lucinete. Eu não sei se ela sofreu quando morreu. Imagina viver 24 horas com essa angústia, essa aflição”, diz.

Procurados pela reportagem, a Secretaria dos Direitos Humanos do Ceará e o Ministério das Relações Exteriores não enviaram respostas até a publicação desta matéria.

Lucinete em foto visitando um parque.
Legenda: Segundo o marido de Lucinete, a família tem contado apenas com a solidariedade de terceiros para tentar custear a repatriação do corpo.
Foto: Reprodução.

Casal tinha brigas constantes

De acordo com relatos feitos por Lucinete ao marido, o ambiente na casa onde trabalhava era marcado por conflitos frequentes entre os patrões.

“Ela me dizia que o patrão e a patroa brigavam demais e intensamente”, conta Teodoro, acrescentando que as discussões envolviam disputas por bens do casal, que estava em processo de separação.

Segundo ele, a suspeita do crime queria se apossar de todo o patrimônio do então companheiro. Teodoro descreve a mulher como alguém “metida com confusão”, com amizades problemáticas e rotina marcada por festas, enquanto o marido saía cedo para trabalhar.

“Pelo que a Lucinete me dizia, o patrão parecia ser uma pessoa boa, muito honesta, de bom caráter, totalmente diferente da esposa”, afirma.

Suspeita foi indiciada por diversos crimes

De acordo com o Ministério Público português, no dia 5 de dezembro, a mulher, sob o pretexto de levar a vítima para casa, teria conduzido Lucinete a um local isolado, onde a agrediu violentamente na cabeça com um bloco de cimento.

Segundo o MP, a relação entre patroa e vítima — que trabalhava como baby sitter do filho da suspeita — era marcada por conflitos. Após constatar a morte, a mulher teria ocultado o corpo, cobrindo-o com entulhos, e abandonado-o no local.

A investigação aponta ainda que a suspeita utilizou o celular da vítima para se passar por ela, enviando mensagens a familiares e conhecidos nas quais afirmava ter viajado para o Algarve, no sul de Portugal, com uma amiga.

A mulher, de 43 anos, também brasileira, foi indiciada pelos crimes de homicídio qualificado, profanação de cadáver, detenção de arma proibida e falsidade informática. O caso segue sob investigação da Polícia Judiciária, com acompanhamento do Ministério Público no Núcleo da Amadora.

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