Esposo de babá cearense assassinada em Portugal cobra respostas: ‘Não pude dar um enterro digno’
A suspeita do crime segue presa e foi indiciada pelo Ministério Público português.
"Eu cobro informações todos os dias". É assim que Teodoro Júnior, marido de Lucinete Freitas, descreve a angústia que vive desde a morte da esposa. A babá cearense, de 55 anos, foi encontrada morta em Portugal no último dia 18 de dezembro, 13 dias após ser dada como desaparecida.
Um mês após o crime, Teodoro afirma que ainda não recebeu o resultado da autópsia nem a certidão de óbito da companheira. Segundo ele, as informações repassadas até agora são vagas e insuficientes.
“O que sei é que minha esposa morreu após ser atingida por um objeto contundente, como um bloco de cimento. Mas isso nunca me foi oficialmente explicado”, diz.
O jardineiro relata que não sabe quais procedimentos investigativos foram realizados pelas autoridades portuguesas. “Eu não sei se houve perícia completa. Não sei, por exemplo, se o carro foi periciado. Não sei quais procedimentos foram realizados”, afirma. “E eu tenho o direito de saber o que aconteceu com a minha Lucinete".
Teodoro diz compreender que o inquérito corre sob sigilo da Polícia Judiciária de Portugal, mas afirma que o silêncio prolongado tem sido desumano. “Eu entendo que a polícia tem seus procedimentos e que existe sigilo, e respeito isso. Mas ainda há perguntas que não foram respondidas. O que está acontecendo é desumano".
Entre os questionamentos feitos por ele às autoridades estão a possibilidade de participação de outras pessoas no crime e a existência de imagens que possam ajudar a esclarecer o caso.
“Eu questionei a polícia se ela [suspeita] agiu sozinha. Eu perguntei se uma pessoa consegue mover um corpo sozinha. Perguntei se houve ajuda de terceiros. Também questionei sobre a existência de câmeras de segurança, se imagens foram recolhidas, se houve análise de registros próximos ao local. Até agora, não obtive respostas claras sobre nada disso.”
Veja também
Segundo Teodoro, a família tem contado apenas com a solidariedade de terceiros para tentar custear a repatriação do corpo, que permanece em solo português. Mesmo assim, o valor arrecadado não chega à metade do necessário.
“Por que a família da assassina não custeia sequer as despesas básicas decorrentes da morte da minha esposa? Em momento nenhum o patrão fez algum contato se solidarizando com a família ou oferecendo alguma ajuda de custo. Nada”, desabafa.
Sem contato do Itamaraty
Teodoro afirma que, até o momento, não recebeu qualquer contato do Governo do Ceará ou do Itamaraty para tratar da repatriação do corpo de Lucinete. A dor, segundo ele, é agravada pela impossibilidade de se despedir da esposa de forma digna.
“Eu não pude dar um enterro digno à Lucinete. Eu não sei se ela sofreu quando morreu. Imagina viver 24 horas com essa angústia, essa aflição”, diz.
Procurados pela reportagem, a Secretaria dos Direitos Humanos do Ceará e o Ministério das Relações Exteriores não enviaram respostas até a publicação desta matéria.
Casal tinha brigas constantes
De acordo com relatos feitos por Lucinete ao marido, o ambiente na casa onde trabalhava era marcado por conflitos frequentes entre os patrões.
“Ela me dizia que o patrão e a patroa brigavam demais e intensamente”, conta Teodoro, acrescentando que as discussões envolviam disputas por bens do casal, que estava em processo de separação.
Segundo ele, a suspeita do crime queria se apossar de todo o patrimônio do então companheiro. Teodoro descreve a mulher como alguém “metida com confusão”, com amizades problemáticas e rotina marcada por festas, enquanto o marido saía cedo para trabalhar.
“Pelo que a Lucinete me dizia, o patrão parecia ser uma pessoa boa, muito honesta, de bom caráter, totalmente diferente da esposa”, afirma.
Suspeita foi indiciada por diversos crimes
De acordo com o Ministério Público português, no dia 5 de dezembro, a mulher, sob o pretexto de levar a vítima para casa, teria conduzido Lucinete a um local isolado, onde a agrediu violentamente na cabeça com um bloco de cimento.
Segundo o MP, a relação entre patroa e vítima — que trabalhava como baby sitter do filho da suspeita — era marcada por conflitos. Após constatar a morte, a mulher teria ocultado o corpo, cobrindo-o com entulhos, e abandonado-o no local.
A investigação aponta ainda que a suspeita utilizou o celular da vítima para se passar por ela, enviando mensagens a familiares e conhecidos nas quais afirmava ter viajado para o Algarve, no sul de Portugal, com uma amiga.
A mulher, de 43 anos, também brasileira, foi indiciada pelos crimes de homicídio qualificado, profanação de cadáver, detenção de arma proibida e falsidade informática. O caso segue sob investigação da Polícia Judiciária, com acompanhamento do Ministério Público no Núcleo da Amadora.