Unicef se manifesta com indignação após morte de adolescente no CE; 'expressão brutal da misoginia'

Ana Kévile, de 17 anos foi morta após recusar o assédio de um homem.

Escrito por
Renato Bezerra renato.bezerra@svm.com.br
(Atualizado às 10:10)
Ana Kévile Nogueira Batista.
Legenda: O assassinato da adolescente gerou manifestações da comunidade e entre autoridades de Deputado Irapuan Pinheiro.
Foto: Arquivo Pessoal

O Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) se manifestou com indignação sobre o crime de feminicídio contra a adolescente Ana Kévile Nogueira Batista, de 17 anos, chamando atenção para o grave problema enfrentado pela sociedade.

A jovem foi assassinada no último sábado (25) na cidade de Deputado Irapuan Pinheiro, interior do Ceará, após recusar o assédio de um homem

Em sua declaração, o Unicef afirma que a morte da adolescente não se trata de um acidente ou um crime isolado, e sim "a expressão brutal da misoginia estrutural que permeia a sociedade brasileira, alimentando a violência de gênero e a cultura de impunidade".

"O feminicídio de Ana Kévile é um lembrete doloroso de que a violência contra meninas e mulheres não é um problema delas, mas um problema de toda a sociedade, que exige respostas urgentes e coordenadas", diz o texto. 

A morte da adolescente é a expressão mais extrema de uma cultura que pune meninas por dizer não. É mais uma vida interrompida, de uma menina que vinha inspirando outras crianças e adolescentes, e lutando por seus direitos".
Unicef

O órgão chamou atenção, ainda, para os índices da violência de gênero, destacando dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública que mostram que o feminicídio vitima quatro mulheres por dia no Brasil, quase 1.500 por ano. Além disso, reforça como a violência afeta, direta e indiretamente, as famílias das vítimas. 

Ana Kévile conhecia seus direitos

Conforme o Unicef, Ana Kévile participava de um espaço de formação cidadã há seis anos, o núcleo de cidadania de adolescentes (NUCA) de Deputado Irapuan Pinheiro.

A estratégia integra o Selo UNICEF para garantir o direito de meninas e meninos à participação cidadã e ajudar a que possam conhecer e reivindicar seus direitos, enfrentar vulnerabilidades e superar desigualdades que afetam a sua vida. 

Isso não foi suficiente para protegê-la, porque prevenção da violência de gênero não depende apenas da menina que sabe dizer não, mas de uma sociedade que ensina meninos e homens a respeitar esse não. É preciso desenvolver e aprovar uma política nacional de prevenção da violência contra adolescentes, com governança estabelecida, orçamentada e de longo prazo. Essa política deve reunir e conectar programas já existentes, adotando um olhar de gênero, antirracista, intencional e intersetorial. E investindo, de forma sistemática, na formação de meninos e homens para relações baseadas no respeito e no cuidado"
Unicef

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Pena agravada

O Unicef também destacou as mudanças recentes da legislação. Em outubro de 2025, foi sancionada a Lei nº 14.994/2024, que agrava a pena para feminicídio e outros crimes contra a mulher, tornando feminicídio um "crime autônomo", ou seja, deixou de ser apenas um tipo de homicídio e passou a ser considerado um crime por si só. No caso de feminicídio contra adolescentes de 15 a 17 anos, o Código Penal também prevê aumento da pena.

Além disso, o Pacto Nacional contra o feminicídio, lançado pelo governo federal em fevereiro deste ano, une os três Poderes para enfrentar todo tipo de violências contra mulheres e meninas.

Para o Unicef, no entanto, é preciso ainda desenvolver e aprovar uma política nacional de prevenção de violências contra adolescentes com governança estabelecida, orçamentada e com alcance de longo prazo. A entidade acrescenta que essa política deve ser desdobrada em estratégias estaduais e municipais, devendo reunir e conectar programas e ações já existentes com foco na prevenção de violências contra adolescentes, "agregando-as e adotando um olhar de gênero, antirracista, intencional e intersetorial". 

"Neste momento de dor, o UNICEF se solidariza com a família de Ana Kévile, seus amigos, amigas, colegas e toda a comunidade local. E trabalha que providências sejam tomadas para que o País não perca mais nenhuma adolescente para a violência e o machismo", diz o Unicef. 

Relembre o caso

Ana Kévile Nogueira Batista foi morta a tiros em um estabelecimento comercial no município de Deputado Irapuan Pinheiro. O crime teria sido cometido após a adolescente de 17 anos recusar o assédio de um homem.

O suspeito foi preso na manhã desta terça-feira (28), em Acopiara, no interior do Estado, pela Guarda Civil Municipal. Ele foi identicado como José Arimateia Felipe, de 39 anos. 

Segundo a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), o suspeito é investigado pelo crime de feminicídio e, na ocasião da detenção, ele foi também autuado por porte ilegal de arma de fogo.

O assassinato da adolescente gerou manifestações da comunidade e entre autoridades de Deputado Irapuan Pinheiro. O prefeito Gildecarlos Pinheiro manifestou seu "total repúdio" ao crime, afirmando que a morte da menor é o reflexo de uma sociedade marcada pela misoginia e pelo sentimento de posse.

O Núcleo de Cidadania dos Adolescentes (Nuca) de Irapuan Pinheiro, do qual a adolescente era integrante e representante de Comissão, descreveu-a como uma jovem alegre, dedicada e uma "aluna exemplar".

 

 

 

 

 

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