Fuzis, metralhadoras e a 'sede bélica' do CV: de onde vêm as armas que municiam facção no Ceará?

Delegado-geral da PCCE concedeu entrevista exclusiva ao Diário do Nordeste sobre a 'rota das armas de fogo'.

Escrito por
Emanoela Campelo de Melo emanoela.campelo@svm.com.br
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Legenda: No ano passado foram apreendidas 7.221 armas de fogo em território cearense e 40 fuzis e 43 metralhadoras.
Foto: Reprodução/SSPDS.

Entre pistolas, fuzis e até mesmo metralhadoras, em menos de um ano e meio, o Ceará contabilizou quase 10 mil armas de fogo apreendidas no Ceará. A reportagem do Diário do Nordeste apurou que a maior parte delas chegou ao Estado a pedido e com intermédio da facção carioca Comando Vermelho (CV).

Nas últimas semanas, o secretário da Segurança Pública Estadual, Roberto Sá, falou à imprensa sobre a 'rota do tráfico de armas' e que "o crime não respeita fronteiras com outros países e isso significa que as divisas dos estados se tornam, inclusive, necessárias de maior atenção", disse em coletiva de imprensa sobre as prisões de dois cearenses membros do PCC, que estavam na Bolívia e são investigados por traficar armas ao Estado, principalmente na região Norte. 

Trazidas de países que fazem fronteira com o Brasil, como Bolívia e Paraguai, quando dentro do País, as armas são transportadas por diversos meios, incluindo embarcações vindas do Pará. 

Em entrevista exclusiva ao Diário do Nordeste, o delegado-geral da Polícia Civil do Ceará (PCCE), Márcio Gutierrez, afirma que "não existe uma rota única. O criminoso busca o que está mais fácil naquele momento. Temos identificado trânsito de armas vindo do Norte do País, muitas vezes em ônibus, em transportes clandestinos, rotas alternativas além das estradas para burlar a fiscalização da PRF e da PRE".

"A gente precisa entender e deixar claro que essas armas vêm de fora do País. O Brasil tem aproximadamente 17 mil quilômetros de fronteiras, e o papel de fiscalizar e de proteger essas fronteiras não é das polícias estaduais, mas acabamos absorvendo o enfrentamento da entrada e circulação desse material. Enquanto a Polícia fortalece as estruturas, os criminosos buscam novas rotas, novas alternativas para entrada de drogas, armas de fogo e quaisquer outros ilícitos", disse Márcio Gutierrez.

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Segundo o delegado-geral, a facção carioca (Comando Vermelho) é "a que mais identifica uma sede bélica, sede de se armar, porque é uma facção criminosa que tem a violência como principal estratégia de expansão. Por isso eles buscam levar mais armas até o Rio de Janeiro e do Rio de Janeiro a outros pontos do País".

COMBATE AO CRIME ORGANIZADO

De acordo com dados extraídos e compilados pela Superintendência de Pesquisa e Estratégia de Segurança Pública (Supesp), órgão vinculado à SSPDS, no primeiro quadrimestre de 2026 foram quase duas mil armas retiradas de circulação no Ceará. Destas, sete fuzis e 12 metralhadoras.

No ano passado, foram apreendidas 7.221 armas de fogo em território cearense, sendo 40 fuzis e 43 metralhadoras. Além do armamento, foram 111.292 munições recolhidas em 2025 e mais 29.248 unidades apreendidas nos primeiros quatro meses deste ano.

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Legenda: Delegado-geral da PCCE, Márcio Gutierrez.
Foto: Reprodução/SSPDS.

Márcio Gutierrez destaca que há "armas fabricadas para a guerra e sendo utilizadas por facções criminosas no nosso País" e que "aqui no Ceará, hoje, temos na estrutura das polícias as melhores armas disponíveis, equipamentos táticos, tudo... Não temos mais sentido de que 'o crime' está mais bem armado do que a polícia O que a gente sabe é que, enquanto a polícia age dentro das regras, da legislação, os criminosos avançam covardemente usando armas de guerra, muitas vezes em enfrentamento com as polícias".

"Arma é uma fonte de recurso para o crime organizado também para intimidar a população, os adversários. A Polícia Civil do Ceará também tem estratégia para enfrentar esse movimento armamentista do crime organizado, que começou muito no Sudeste e se expandiu para o país todo".
Márcio Gutierrez
Delegado-geral da PCCE

Há pouco mais de um ano, o Governo do Ceará instalou a Delegacia de Combate ao Tráfico de Armas, Munições e Explosivos (Desarme), ligada ao Departamento de Repressão ao Crime Organizado (DRCO).

É nessa Especializada onde as autoridades analisam de forma geral as rotas, canais de circulação e os grupos criminosos que trabalham com a movimentação de importar armas de fogo.

Outra estratégia voltada para coibir as facções e o avanço da criminalidade é o pagamento de gratificações por apreensão de arma de fogo.

Conforme a SSPDS, em 2025 "foi realizado o pagamento no valor total de R$ 3.038.157,24 reais destinados a um total de 14.488 policiais; já nos primeiros quatro meses de 2026, o pagamento total foi de R$ 1.067.919,75 reais à 5.247 policiais".

A gratificação foi instituída no ano de 2005 e desde junho de 2024, por meio de decreto estadual, houve um aumento de 50% no valor da gratificação paga pela apreensão de armas de fogo, acessórios e munições.

Os valores variam conforme o tipo de arma apreendida, por exemplo: R$ 600 no caso de revólveres e R$ 1.200 no caso de fuzis.

"Esta é uma forma de reconhecer esse trabalho. Se há uma ação que gera alta complexidade de risco é ação que se apreende arma de fogo. De um lado temos um policial armado e do outro lado um criminoso armado. Então precisa ter todo um protocolo para fazer o criminoso entregar a arma", destacou Gutierrez.

ARMAS EM IMPRESSORAS 3D

Na última semana, o Diário do Nordeste noticiou que, em poucos dias, matadores do Comando Vermelho (CV) assassinaram um trio de integrantes da organização rival, em ações que tinham apoio de armas de grande porte, como um fuzil calibre 9 milímetros (mm), fabricado em uma impressora 3D.

O delegado-geral conta que a presença deste tipo de armamento vem sendo identificada no Ceará e explica que a impressão feita em 3D é "de parte da arma".

"Em São Paulo foi desarticulada uma verdadeira fábrica clandestina de armas de fogo impressas em 3D. Lá faziam toda a estrutura metálica da arma e por impressão 3D faziam o plástico rígido. Montavam e virava uma arma de fogo. No Ceará, ainda não vimos a fabricação local, mas há registros de apreensões", disse.

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