Jovem que teve mãos decepadas em ataque de ex-namorado aprendeu a usar celular com os pés
Ana Clara Oliveira passou por cirurgia de reimplante dos membros, mas processo de recuperação deve ser longo.
A jovem Ana Clara Oliveira, de 21 anos, segue em recuperação após passar por uma cirurgia de reimplante de mãos, mas precisou se adaptar às atividades do cotidiano, principalmente àquelas em que os membros eram cruciais. Com as mãos decepadas em um ataque do ex-namorado, Ronivaldo Rocha dos Santos, em Quixeramobim, ela foi internada para uma série de cirurgias e tem usado a própria força na busca por superar a tragédia, inclusive usando o celular com os pés.
O padrasto dela, José Airton Firmino, é um dos maiores incentivadores. O homem está entre as pessoas que acompanham Ana Clara dentro do Instituto Doutor José Frota, na capital cearense, local onde ela foi internada após deixar o Hospital Regional do Sertão Central. Em uma cirurgia complexa, com a participação de 15 profissionais, os membros foram reimplantados.
Ainda assim, ele conta, algo trivial, como enviar uma mensagem pelo celular, passou a ser impossível. Enquanto recupera as mãos, Ana Clara ainda não possui controle dos movimentos e, portanto, necessita de ajuda constante para buscar objetos, digitar no aparelho e se comunicar com quem não está por perto.
"No início, eu segurava, abria o celular para ela e ficava quando ela queria passar uma mensagem. Mas aí, como eu estava muito cansado esses dias, passava o tempo sozinho com ela, eu falei que estava ficando cansado, que não aguentava", explicou ele.
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Um relato pessoal do padrasto mudou o cenário. Agricultor, José Airton teve um dos membros amputados ainda jovem após um incidente com uma máquina na roça e passou, aos poucos, a "se virar" como podia. Ele chegou a negar a ajuda da mãe para tarefas básicas na época e usou o fato pessoal para incentivar Ana Clara a criar autonomia.
"Eu dizia para ela: 'Dê um tempo aí, que, aos poucos, a gente vai conseguindo.' Mas eu via que ela queria se comunicar. Aí contei: 'Vou dar uma ideia. Quando eu perdi meu braço, minha mãe queria fazer as coisas para mim, mas eu nunca aceitei. Disse que eu nem sempre teria quem fizesse as coisas para mim a vida toda e aprendi a fazer minhas coisas sozinho.' Então, falei para ela: 'Use os pés. Eu vejo muita gente por aí que não tem nenhum braço e usa os pés.'", relatou.
Ana Clara, então, em meio à recuperação delicada da cirurgia, resolveu tentar. Pediu ao padrasto que posicionasse o aparelho celular próximo dos pés e passou a ensaiar movimentos cuidadosos, ainda aprendendo como lidar com a nova realidade.
Mas não demorou muito até que a ação resultasse no novo comportamento. A jovem aprendeu a clicar em ícones no celular, enviar áudios para amigos e parentes, além de publicar nas próprias redes sociais. As coisas não ficaram totalmente mais fáceis, claro, mas ela continua pedindo ajuda quando precisa.
"Ela tem falado desse jeito assim, passando a tela, enviando áudio, porque é o mais fácil para ela", reforça José Airton. Enquanto isso, ele comemora, ela se recupera bem e, segundo os médicos que a acompanham, a alta deve vir em breve.
Até o momento, não há previsão de quando ela deve retomar o movimento completo das duas mãos. "Ela vai passar por um processo muito grande ainda, de fisioterapia. Os nervos dela ainda têm que se reconstituir. Cada dia é importante e o médico diz que vai reconstituindo até chegar no final para ela ter força", finalizou ele.
Por enquanto, a jovem permanece sob cuidados médicos da equipe do IJF, em Fortaleza, procurando brechas nas próprias ações para reencontrar conforto após o episódio brutal.
Ex-namorado e irmão dele indiciados
Os irmãos presos por decepar com uma foice as mãos da jovem foram indiciados pela Polícia Civil do Estado do Ceará (PCCE) por tentativa de feminicídio. O crime foi praticado no último dia 1º de maio pelo cunhado da vítima, Evangelista Rocha dos Santos, enquanto o ex-companheiro, Ronivaldo Rocha dos Santos, assistia e incitava os ataques.
Segundo a Delegacia Municipal de Quixeramobim, a dupla usou "violência extrema, cruel e desproporcional" contra a mulher, em um contexto de violência doméstica de Ronivaldo contra Ana, "marcado por agressões físicas, ameaças, humilhações, comportamento possessivo".
Os dois seguem presos na Unidade Prisional de Caucaia, para onde foram transferidos de Quixeramobim.
Já Ana Clara Oliveira, internada no IJF, demonstrou evolução positiva do quadro. Ela passou por novas cirurgias por conta de complicações no reimplante das mãos, além de uma para reparar um tendão da panturrilha atingido durante o ataque.