E-mails mostram que Roberto Dias negociou oficialmente com empresa que denunciou propina por vacina

Mensagens foram trocadas entre diretor do Ministério da Saúde, suposto autor do pedido de propina, e empresa

Braço de pessoa segurando ampola com vacina ao lado de caixa com doses da AstraZeneca
Legenda: Oferta da empresa foi de 400 milhões de doses do imunizante da AstraZeneca
Foto: Ishara S. Kodikara/AFP

O Ministério da Saúde (MS) negociou oficialmente venda de vacinas contra a Covid-19 junto a representantes da empresa Davati Medical Supply. A negociação veio à tona após denúncia de que houve, por parte de um diretor da Pasta, pedido de propina de um dólar por dose em troca de assinar contrato. As informações são da Folha de S. Paulo.

As mensagens da tratativa foram trocadas entre Roberto Ferreira Dias, diretor de Logística do MS, Herman Cardenas, que figura como CEO da companhia, e Cristiano Alberto Carvalho, apresentado como procurador dela. Roberto Dias — apontado como autor do pedido de propina — enviou e-mail mencionando reunião ocorrida sobre o assunto. Nessa terça (29), após as revelações da Folha, a exoneração do diretor de Logística foi anunciada pela Pasta.

Troca de mensagens

Legenda: E-mails mostram negociação de venda de vacinas entre Ministério da Saúde e representantes da empresa Davati Medical Supply
Foto: divulgação/Folha de S. Paulo
Legenda: E-mails mostram negociação de venda de vacinas entre Ministério da Saúde e representantes da empresa Davati Medical Supply
Foto: divulgação/Folha de S. Paulo
Legenda: E-mails mostram negociação de venda de vacinas entre Ministério da Saúde e representantes da empresa Davati Medical Supply
Foto: divulgação/Folha de S. Paulo
Legenda: E-mails mostram negociação de venda de vacinas entre Ministério da Saúde e representantes da empresa Davati Medical Supply
Foto: divulgação/Folha de S. Paulo
Legenda: E-mails mostram negociação de venda de vacinas entre Ministério da Saúde e representantes da empresa Davati Medical Supply
Foto: divulgação/Folha de S. Paulo
Legenda: E-mails mostram negociação de venda de vacinas entre Ministério da Saúde e representantes da empresa Davati Medical Supply
Foto: divulgação/Folha de S. Paulo
Legenda: E-mails mostram negociação de venda de vacinas entre Ministério da Saúde e representantes da empresa Davati Medical Supply
Foto: divulgação/Folha de S. Paulo
Legenda: E-mails mostram negociação de venda de vacinas entre Ministério da Saúde e representantes da empresa Davati Medical Supply
Foto: divulgação/Folha de S. Paulo

Uma das mensagens foi enviada às 8h50 de 26 de fevereiro de 2021, por meio do endereço funcional de Dias, "roberto.dias@saude.gov.br", e pelo "dlog@saude.gov.br", este do Departamento de Logística da Pasta.

No diálogo, Cardenas trata de oferta de 400 milhões de doses do imunizante da AstraZeneca, mencionando Luiz Paulo Dominguetti Pereira como representante da companhia. "Fico no aguardo para ajudar a obter vacinas para seu país", diz.

Dominguetti relatou à Folha de S. Paulo ter jantado na noite anterior àquela manhã com Roberto Dias no restaurante Vasto, em shopping de Brasília. Na ocasião, o representante teria ouvido o pedido de propina de um dólar por dose de vacina.

"Ele me disse que não avançava dentro do Ministério se a gente não compusesse com o grupo; que existe um grupo que só trabalhava dentro do ministério. Se a gente conseguisse algo a mais tinha que majorar o valor da vacina; que a vacina teria que ter um valor diferente do que a proposta que a gente estava propondo", afirmou Dominguetti à Folha.

Devido à recusa de pagar a propina por parte da empresa, segundo o representante, o contrato não foi assinado.

Outras mensagens

A versão de Dominguetti é amparada por outra mensagem. Conforme o representante, uma agenda oficial foi marcada com Dias na tarde do dia 26 no MS para a discussão da compra. O e-mail foi enviado pelo Departamento de Logística às 10h50, pouco após o e-mail com a oferta feita, agendando a reunião.

"Este ministério manifesta total interesse na aquisição das vacinas desde que atendidos todos os requisitos exigidos. Para tanto, gostaríamos de verificar a possibilidade de agendar uma reunião hoje às 15h, no Departamento de Logística em Saúde", diz o e-mail.

Reunião

Dominguetti também relatou detalhes do encontro à Folha. "Ele [Dias] me disse: 'Fica numa sala ali'. E me colocou numa sala do lado ali. Ele me falou que tinha uma reunião. Disso, eu recebi uma ligação perguntando se ia ter o acerto. Aí eu falei que não, que não tinha como".

"Isso, dentro do ministério. Aí me chamaram, disseram que ia entrar em contato com a Davati para tentar fazer a vacina e depois nunca mais. Aí depois nós tentamos por outras vias, tentamos conversar com o Élcio Franco, explicamos para ele a situação também, não adiantou nada. Ninguém queria vacina", seguiu o representante.

O próprio Dias enviou um e-mail aos representantes da empresa no dia 1º de março. No texto, ele afirma que o governo brasileiro agradece a atenção da empresa em relação à necessidade do País em torno da obtenção de imunizantes. 

Ele também menciona uma reunião ocorrida anteriormente entre eles, solicitando um documento que faça vinculação da Davati como representante da AstraZeneca no Brasil. Dias prossegue afirmando que, a partir disso, poderiam seguir adiante, dado que a proposta comercial da companhia parecia boa se comparada a outras.

O procurador da empresa, Cristiano Alberto Carvalho, informa, no dia 3 de março, que o documento requerido já havia sido enviado a Dias e seu assessor àquela altura, Marcelo Blanco.

Roberto Dias, ao ser procurado pela Folha, não atendeu às ligações. Dominguetti deve prestar depoimento à CPI da Covid-19 nesta sexta-feira (2), que o convocou após as denúncias feitas por ele virem a público.

Indicação de Dias

Roberto Dias foi indicado ao cargo pelo deputado federal Ricardo Barros (PP), líder do governo de Bolsonaro na Câmara dos Deputados. Barros, porém, negou a indicação.

O deputado foi citado por Jair Bolsonaro na polêmica irregularidades na compra da vacina Covaxin, segundo depoimento do deputado Luís Miranda (DEM) prestado à CPI da Covid-19 na última sexta-feira (25). Conforme o depoente, Bolsonaro disse, em encontro com Miranda, que levaria o caso à Polícia Federal (PF). A PF, porém, não encontrou registros de inquéritos abertos sobre a compra do imunizante.

Após o depoimento de Miranda, junto ao irmão Luís Ricardo Miranda, servidor público lotado no MS, a cúpula da CPI passou a falar sobre crime de prevaricação por parte de Bolsonaro. Uma notícia-crime foi enviada nesta segunda-feira (28) ao Supremo Tribunal Federal (STF).