O nascimento da biopolítica em Fortaleza

Fortaleza, como tantas cidades no mundo, também renasce de tempos em tempos

Escrito por
Wellington Ricardo Nogueira Maciel wellington.maciel@uece.br
Wellington Ricardo Nogueira Maciel é professor adjunto do curso de ciências sociais e do Programa de Pós-graduação em Sociologia da Uece
Legenda: Wellington Ricardo Nogueira Maciel é professor adjunto do curso de ciências sociais e do Programa de Pós-graduação em Sociologia da Uece

O aniversário de uma cidade é também o momento em que, ao menos uma vez ao ano, a vida pode ser vista de maneira diferente, como que renascendo. Fortaleza, como tantas cidades no mundo, também renasce de tempos em tempos. Se o imaginário de sua fundação lembra que “junto às sombras do forte, a pequena semente nasceu”, a cidade que vemos crescer hoje recorda e nega esse passado mítico.

Recorda, porque a fortificação ainda é uma marca de seu traçado urbano. Nega, porque já não é mais possível sustentar uma representação da cidade com base apenas no edificado, no arquitetônico, tão presente nos discursos que denunciam sua segregação.

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Entre 2005 e 2015, segundo o IBGE, Fortaleza praticamente duplicou sua área construída, num contexto de aumento da renda média da população em geral, dando ensejo a análises que reforçam a relação entre o aumento do número de homicídios e a urbanização desordenada.

Após esse decênio, a cidade também viu crescer outros indicadores negativos: aumento da presença das chamadas facções criminosas nas periferias, das populações encarceradas na região metropolitana e no sistema socioeducativo, além do aumento das populações de rua e das populações desempregadas.

Em resposta, o Estado elegeu as áreas mais pobres e miseráveis como focos da criminalidade, da desordem urbana e dos riscos sociais. Era preciso também abrir a forma urbana, afirmavam os urbanistas. A gestão de populações e territórios se tornou a resposta política encontrada.

Ocupar as margens para melhor controlar os fluxos de corpos com base na penalogia das evidências e na política dos dados abertos. Gerir ganha o sentido de transformação de corpos e materiais diversos em resíduos administráveis.

Um antigo lixão é objeto de políticas de segurança pública, um antigo presídio é demolido para libertar a cidade, uma penitenciária de segurança máxima é erguida nas bordas onde o brutalismo, de que nos fala Mbembe, é a arte de demolir e moldar coisas diversas (mãos de presos ou ferros de cadeias fechadas em cidades do interior reutilizados para a construção dos novos espaços de confinamento). Eis Fortaleza renascendo com a biopolítica.

Wellington Ricardo Nogueira Maciel é professor adjunto do curso de ciências sociais e do Programa de Pós-graduação em Sociologia da Uece
 

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