Um novo projeto de Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) em Fortaleza busca viabilizar uma conexão entre os bairros Parangaba e Conjunto Ceará. Com 8,9 quilômetros (km) de extensão, seria um novo ramal ferroviário na Capital, com investimento total de implantação de R$ 1,2 bilhão.
As informações constam no novo Boletim Informativo do Estudo Nacional de Mobilidade Urbana (ENMU), divulgado nesta semana e elaborado em parceria pelo Ministério das Cidades com Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Para a análise, são avaliadas propostas que devem entrar em vigor nos próximos 30 anos.
Trata-se, portanto, de uma ligação que atualmente não existe. Ambos os bairros são atendidos por ramais da Companhia Cearense de Transportes Metropolitanos (Metrofor): o Conjunto Ceará é atendido pela Linha Oeste, enquanto a Parangaba é o ponto de encontro das linhas Sul e Nordeste (VLT Parangaba - Mucuripe).
O ENMU aponta que se trata de uma "extensão", mas não há detalhes sobre o possível aproveitamento de alguma infraestrutura existente, nem se seria uma ramificação a partir da linha Nordeste, que tem como ponto de partida o bairro da Parangaba. Também não há informações sobre o trajeto que poderá ser percorrido pelos veículos.
As alterações na rede metroferroviária da Capital não contemplam os dois ramais de VLT em construção, ambos a partir de ramificações da linha Nordeste: o trajeto Expedicionários-Aeroporto, previsto para o ano que vem, e o prolongamento, Aeroporto-Arena Castelão, que deve ser entregue em 2027.
Projeto original previa BRT entre a Sapiranga e o Conjunto Ceará
O estudo divulgado pelo BNDES engloba 10 projetos de mobilidade urbana na Capital. O VLT da Parangaba ao Conjunto Ceará estava incluso em uma proposta mais ampla: a do sistema de Bus Rapid Transit (BRT) do Conjunto Ceará até o bairro Sapiranga, chamado do BRT Coité - Conjunto Ceará.
Com 21,1 km de extensão, o BRT percorreria um corredor expresso entre avenidas como Conselheiro Gomes de Freitas, Oliveira Paiva, Deputado Paulino Rocha, Silas Munguba, Senador Fernandes Távora e J, além de ruas como Carlos Amora, Gomes Brasil e José Mendonça.
As informações do projeto estão no Relatório de Redes Estruturais Planejadas da Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), reveladas em divulgações anteriores do ENMU.
Na ocasião, o BRT constava no Plano Estratégico Fortaleza 2040, definido pela Prefeitura da Capital como um "planejamento de longo prazo para a cidade com estratégias a serem implementadas no curto, médio e longo prazo (tendo como horizonte o ano de 2040) contemplando os Planos Mestre Urbanístico, Mobilidade e Desenvolvimento Social".
A interligação entre a Sapiranga e o Conjunto Ceará é definida pelo relatório como "ligação transversal aos diversos eixos radiais" de Fortaleza, mas não havia projetos concretos nem recursos destinados para o desenvolvimento deste BRT.
A problemática central ficou pela dimensão das vias que viriam a integrar o corredor, consideradas estreitas e com difícil implementação levando em conta outras variantes.
"Em praticamente toda a sua extensão, o sistema viário atual conta com apenas duas faixas de rolamento por sentido, dificultando a implantação de infraestrutura destinada à circulação exclusiva dos ônibus sem a necessidade de realização obras e de desapropriações", destaca o relatório.
Com o VLT entre o Conjunto Ceará e a Parangaba, o projeto de BRT foi reduzido para 11,2 km, mas segue contemplando a interligação entre os bairros Sapiranga e Parangaba, seguindo pelas avenidas Conselheiro Gomes de Freitas, Oliveira Paiva, Deputado Paulino Rocha e Silas Munguba.
Quais as vantagens de um VLT?
Para o presidente do Conselho Regional de Economia do Ceará (Corecon-CE), Wandemberg Almeida, um futuro VLT entre o Conjunto Ceará e a Parangaba pode "gerar um efeito multiplicador sobre o emprego e o setor produtivo".
"Porque pode trazer novos polos de serviços por reduzir custos logísticos, fortalecendo principalmente micro e pequenas empresas", classifica o especialista.
Em contrapartida, Wandemberg alerta para o fator tempo, um gargalo em grandes obras de infraestrutura metroferroviária na Grande Fortaleza.
Ele menciona a Linha Leste do Metrofor, em obras desde 2014 e que só devem ser concluídas em 2028, além da linha Nordeste, que desde 2017 está em operação assistida, sem o funcionamento conforme planejado.
"Se a gente olhar para os últimos anos, vamos ver que precisamos melhorar muito. Temos obras que ainda estão engatinhando e que já utilizaram muitos recursos: o VLT Parangaba-Mucuripe, a Linha Leste. Quanto mais recursos para melhorar a infraestrutura e a logística de transporte, melhor para a população cearense. É importante que a gente enxergue que esse financiamento vai sair e que vamos conseguir entregar essa obra dentro do prazo estipulado".
Quais as desvantagens?
Para Almeida, contudo, um problema seria elevar a especulação imobiliária nas vizinhanças do trajeto. "Se começamos a implantar e, consequentemente, melhorar a infraestrutura local, pode trazer uma elevação dos preços de produtos", avalia.
"No setor imobiliário, pode ter valorização no trecho que vai passar. Se eu olho para bairros específicos, como o Conjunto Ceará, que é da periferia, acaba atraindo novos empreendimentos para ficar mais próximos desse VLT", completa.