Eólica offshore: o potencial bilionário e o desafio da realidade

Marília Brilhante, CEO da cearense Energo Soluções em Energias, mostra oportunidades e dificuldades para a geração de de energia no mar

Escrito por
Egídio Serpa egidio.serpa@svm.com.br
Legenda: Na foto acima, um parque eólico fotografado pelo engenheiro Maia Júnior no litoral da Noruega. No Brasil, só expectativa, por enquanto.
Foto: Maia Júnior
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De autoria da engenheira Marília Brilhante, CEO da Energo Soluções em Energias, o texto a seguir aborda questões relacionadas aos projetos de geração de energia eólica offshore (dentro do mar), algo importante para a transição energética, mas ainda enfrentando, no Brasil, algumas dificuldades, como a falta de regulamentação. Esta coluna tem, os últimos dias, tratado da questão energética, razão por que acolhe e publica as opiniões da especialista, que seguem abaixo: 

“O vento forte que impulsiona o litoral nordestino colocou o Brasil no centro das discussões globais sobre transição energética. Entre as apostas mais promissoras está a energia eólica offshore, produzida por aerogeradores instalados no mar, vista por muitos como o próximo grande passo das renováveis no país. Todavia, em meio a anúncios bilionários e projeções otimistas, é necessário separar expectativa de realidade. Afinal, o que realmente é viável para o Ceará e para o Brasil nesse novo mercado? 

“O Ceará desponta, naturalmente, como um dos estados mais estratégicos para o desenvolvimento da eólica offshore: a combinação entre ventos intensos e constantes, a posição geográfica privilegiada e a proximidade com grandes projetos de hidrogênio verde criam um cenário extremamente favorável, além do que o estado já possui experiência consolidada em energia eólica em terra (onshore), mão de obra especializada e um ambiente de negócios que atrai investidores nacionais e estrangeiros. Entretanto, potencial técnico não significa implantação imediata. 

“O maior desafio brasileiro hoje não está na capacidade de gerar energia no mar, mas na estrutura necessária para transformar esses projetos em operações economicamente sustentáveis. A expansão da transmissão elétrica tornou-se um ponto crítico; em diversas regiões do país, o sistema já enfrenta dificuldades para absorver toda a energia renovável produzida, principalmente no Nordeste, onde, em alguns momentos, parques eólicos e solares precisam de reduzir e, às vezes, até parar completamente sua geração porque a rede não consegue escoar a totalidade da energia disponível. 

“Esse cenário mostra que não basta instalar turbinas offshore, é necessário ampliar subestações, construir novas linhas de transmissão e modernizar o sistema elétrico nacional. Sem isto, o risco é criar uma corrida por projetos que existem no papel, mas não conseguem operar plenamente. 

“Também é preciso cautela em relação ao tipo de projeto que o Brasil deseja desenvolver. Parques instalados muito longe da costa ou em áreas de grande profundidade exigem tecnologias mais complexas e caras, como estruturas flutuantes, embarcações especializadas e operações marítimas altamente sofisticadas. Países europeus avançaram nesse modelo após décadas de investimentos e incentivos industriais; o Brasil ainda não possui cadeia produtiva consolidada para competir em igualdade nesse segmento. 

“Por outro lado, existem caminhos claramente mais viáveis no curto e no médio prazos. Projetos próximos ao litoral, em águas rasas e conectados a polos industriais possuem maior potencial de sucesso – o Ceará reúne características importantes para isso. A tendência mais consistente não é utilizar a energia offshore apenas para abastecer o sistema elétrico convencional, mas também para alimentar indústrias de hidrogênio verde, combustíveis sustentáveis e novos processos industriais de baixo carbono. 

“Outro ponto relevante é o aproveitamento da experiência brasileira no setor offshore de óleo e gás. O Brasil já possui conhecimento técnico em operações marítimas complexas, logística portuária e manutenção em ambiente oceânico, e parte dessa expertise pode ser adaptada para acelerar o desenvolvimento da eólica no mar e reduzir custos futuros. 

“No entanto, a expansão offshore não pode acontecer de forma desorganizada. O litoral brasileiro tem intensa atividade pesqueira, áreas de preservação ambiental, rotas marítimas e comunidades que dependem diretamente do mar para sobreviver; sem planejamento adequado, projetos podem gerar conflitos sociais, impactos ambientais e insegurança jurídica. 

“A energia eólica offshore representa uma oportunidade real para o Brasil fortalecer sua posição na transição energética global, e o futuro desse mercado dependerá menos dos anúncios grandiosos e mais da capacidade de planejamento, infraestrutura e execução. O Nordeste brasileiro tem todas as condições para liderar essa transformação, desde que crescimento e responsabilidade caminhem juntos.” 

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