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Hard Rock sai do Ceará após fracasso histórico e deixa hotéis de Lagoinha e Jeri sem rumo

Com a saída oficial da marca global do portfólio cearense, o que resta em Lagoinha e Jericoacoara é uma crise de desconfiança e investidores no prejuízo.

Escrito por
Paloma Vargas paloma.vargas@svm.com.br
Vista aérea de todo o complexo que seria o Hard Rock Hotel Fortaleza, na praia de Lagoinha, município de Paraipaba. Ao todo, são dezenas de chalés, piscinas e uma grande estrutura de hotel.
Legenda: Complexo que seria o Hard Rock Hotel Fortaleza, na praia de Lagoinha, possui algumas poucas pessoas trabalhando na construção, mas sensação é de "abandono" no empreendimento.
Foto: Thiago Gadelha.

Os resorts da marca Hard Rock Hotel, nas Praias de Lagoinha e Jericoacoara, no Ceará, deixarão de usar a bandeira Hard Rock Internacional (HRI). Os dois empreendimentos fazem parte do portfólio da Residence Club, responsável pelas obras e comercialização dos hotéis.

Além desses dois empreendimentos no Ceará, existe um da marca no Paraná (Ilha do Sol) que também não poderá mais usar a bandeira Hard Rock. No site internacional da empresa, os três hotéis não constam mais no portfólio. 

O anúncio do Hard Rock na Praia de Lagoinha completa 10 anos em 2027 e de lá para cá diversos acontecimentos tornaram o empreendimento uma frustração bilionária para dezenas de investidores. 

Uma fonte a par do assunto e que prefere não se identificar informou à reportagem do Diário do Nordeste que a matriz do Hard Rock nos Estados Unidos decidiu rescindir o contrato com a Residente Club. 

Segundo a fonte, a rescisão está relacionada ao acúmulo sucessivo de atrasos nas obras e problemas crônicos na entrega do empreendimento, manchando a imagem do Hard Rock no Brasil. 

Print de site internacional dos hoteis Hard Rock, já sem os empreendimentos do Ceará.
Legenda: O site do Hard Rock Hoteis já trouxe diversos empreendimentos no Brasil, como "Em Breve", incluindo os dois do Ceará. Atualmente, existe apenas um hotel em Gramado (RS).
Foto: Reprodução / site hotel.hardrock.

Em nota, a Hard Rock International informou que não fará comentários sobre a rescisão. "Como este assunto está em andamento na esfera judicial, a Hard Rock International não fará comentários. No entanto, o Brasil continua sendo um mercado prioritário para a marca, e a empresa permanece comprometida com sua presença e desenvolvimento de longo prazo no país".

Já a Residence Club evitou usar o termo "rompimento de contrato" ou "retirada da marca", preferindo descrever a situação como uma mudança de bandeira: “A companhia está conduzindo o processo de transição das marcas dos empreendimentos, dentro de uma estratégia de reorganização operacional e reposicionamento dos projetos”.

Sobre a busca por um novo parceiro internacional para o Ceará, a Residence Club afirmou que a futura bandeira em negociação “possui atuação internacional consolidada no segmento de hotelaria de luxo e deverá contribuir para o fortalecimento operacional, comercial e técnico dos projetos, ampliando a eficiência da operação”.

O grupo reforçou que, apesar da troca, os projetos “mantêm suas características essenciais previstas nos memoriais de incorporação firmados junto aos clientes”.

Print de página da Residence Club onde constam os dois empreendimentos do Ceará ainda com a bandeira Hard Rock e do Paraná, já com a marca Wyndhan.
Legenda: Na página da Residence Club ainda constam os dois empreendimentos do Ceará com a bandeira Hard Rock e do Paraná, já com a marca Wyndhan.
Foto: Reprodução / site Residence Club.

Em setembro 2024, a Residence Club encerrou as operações do restaurante Hard Rock Cafe no Shopping RioMar Fortaleza. O fechamento já era uma sinalização do desgaste da marca no Estado. 

Obras ainda não foram concluídas em Lagoinha

Onde deveria existir luxo e exclusividade em uma área de 178 mil metros quadrados e 583 unidades habitacionais, há estruturas inacabadas, piscinas vazias e poucos trabalhadores.

Diário do Nordeste visitou a Praia de Lagoinha na última terça-feira (12) e conversou com moradores e empresários locais sobre a situação do resort.  

O que era para ser entregue em 2020 tornou-se uma sucessão de datas fictícias. O cronograma atual da Residence Club, que assumiu a gestão em 2024, projeta a entrega da primeira fase para o início de 2028, com uma pequena possibilidade de antecipação para 2027.

No entanto, para os mais de 20 mil clientes que investiram cerca de R$ 1 bilhão em cotas, essas datas não são certeza e beiram o descaso.

Em Jeri, não há previsão para a entrega do resort. A obra estaria apenas na fase inicial. "As atividades atualmente em andamento no local concentram-se nas etapas preliminares de infraestrutura, incluindo adequação do terreno, melhorias de acesso, implantação de vias internas e preparação das estruturas iniciais previstas no planejamento técnico do empreendimento", afirmou em nota a Residence Club.

A saúde financeira do negócio:

  • Distratos: Conforme a Residence Club, o índice de desistência oficial do empreendimento chegou a 37,7% da carteira.
  • Vendas paralisadas: O Ministério Público do Ceará (MPCE) suspendeu as vendas em Lagoinha após identificar que os boletos eram direcionados para o fundo da Residence Club, gerando uma multa de R$ 12 milhões.
  • Jericoacoara: A própria empresa suspendeu as vendas no local, que conta com apenas 30% do projeto comercializado, para uma suposta "adequação relacionada à substituição da bandeira hoteleira e à reorganização estratégica do empreendimento".

Foto aérea de uma piscina que tem a marca Hard Rock Hotel.
Legenda: Piscina e outros pontos do empreendimento ainda possuem marca Hard Rock Hotel.
Foto: Thiago Gadelha.

'Sumiu todo mundo', diz comerciante de Lagoinha

Na Praia de Lagoinha, uma comerciante que não quis se identificar informou à reportagem que, mesmo após a pandemia, havia muita movimentação no empreendimento. 

"Os globais chegavam de helicóptero, atores e atrizes. Vinham divulgar, faziam eventos nos restaurantes. Depois que pararam, sumiu todo mundo", desabafou.

Ela lembrou ainda que as pousadas do entorno recebiam muitos engenheiros e fiscais de fora, fluxo que cessou há cerca de um ano.

Um locatário de quadriciclos na praia que preferiu não se identificar disse que há pessoas trabalhando no local e que muitos compradores visitam Lagoinha com a intenção de ver o imóvel, mas a entrada não é autorizada.

"Um investidor de São Paulo fala comigo quase toda semana, pede atualizações e disse que pagaria por fotos e vídeos. Mas quem trabalha lá diz que não pode fazer nenhum tipo de imagem, sob pena de ser demitido", comentou.

O temor do 'elefante branco'

O medo da comunidade é que a estrutura inacabada gere uma poluição visual permanente, degradando a imagem da praia. Embora existam cerca de 100 homens trabalhando, segundo a Residence Club, é visível que o ritmo da obra é insuficiente para a magnitude do resort.

Homem trabalhando em obra de sacada de hotel.
Legenda: É possível ver uma pequena movimentação de colaboradores trabalhando na obra do empreendimento.
Foto: Thiago Gadelha.

A marca Hard Rock ainda pode ser vista na fachada e no fundo de uma piscina, como um "fantasma" do projeto original. No entanto, o símbolo máximo — a guitarra gigante — foi retirado da entrada, marcando visualmente o fim da parceria.

Questionda, a Residence Club afirmou também que a empresa WR Engenharia já não é mais a responsável pela obra, tendo ficado a própria administradora com o papel também de construção.

Luiz Gilberto, de 63 anos, comanda um empreendimento de hospedagem e gastronomia próximo à obra desde 2017. Ex-profissional da área financeira, ele acompanhou de perto a transição do antigo "esqueletão" abandonado por investidores portugueses para o projeto da marca internacional.

Para ele, a chegada de uma bandeira global teria um impacto transformador para a região, o que espera que ainda aconteça.

Vista aérea da área do complexo hoteleiro que seria Hard Rock na praia da Lagoinha.
Legenda: Área total do empreendimento é de 178,7 mil metros quadrados, na beira da praia de Lagoinha, no município de Paraipaba.
Foto: Thiago Gadelha.

"Teria um impacto positivo muito grande para nós. É um negócio grande, conhecido internacionalmente, bom para a praia, para nós como um todo", disse se referindo aos empreendedores locais.

Gilberto esperava que o fluxo de hóspedes e trabalhadores gerasse um efeito cascata no comércio local, com turistas frequentando restaurantes e funcionários se hospedando na região, como chegou a ocorrer no início das obras. No entanto, o entusiasmo deu lugar à preocupação com a paralisia do projeto.

"O que poderá ser negativo para nós é ficar um elefante branco aí na praia inacabado, a nível de imagem, poluição visual", desabafou o comerciante. 

Para o comerciante, que hoje atende até mil pessoas em dias de pico com sua própria estrutura, o futuro do empreendimento vizinho permanece como a principal incerteza para o turismo de Lagoinha.

Vista aérea da beira do mar de Lagoinha, com o esqueleto do hotel do Hard Rock a direita.
Legenda: Obra inacabada faz parte do cenário de Lagoinha há mais de uma década.
Foto: Thiago Gadelha

Paraná já tem nova marca

Diferente do Ceará, o empreendimento do Paraná já possui uma nova bandeira internacional: a Wyndham Hotels & Resorts. Procurada, a Wyndham explicou que não assumiu a administração do hotel no Paraná, apenas franqueou a sua marca para utilização.

"Assim, a marca internacional oferece suporte estratégico em áreas como posicionamento comercial, performance operacional, tecnologia, inteligência de mercado e desenvolvimento de negócios, respeitando as características de cada empreendimento e de cada mercado local".

Porém, questionada sobre a possibilidade de uso da marca nos empreendimentos do Ceará, a empresa norte-americana afirma que "até o momento não há nada confirmado".

Já quanto a ter um olhar para o mercado do Ceará, a Wyndham diz que "está sempre atenta a novas oportunidades" e possui um empreendimento assinado em Flecheiras (Litoral Oeste), sem dar mais detalhes.

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