Dá para viver com o salário mínimo?
Na semana do Dia do Trabalho, a comemoração é tímida. O salário mínimo ainda é bem menor do que o necessário
Se ganhasse cerca de R$ 1,8 mil por mês, a auxiliar de serviços gerais Cledinar de Sousa Silva moria em uma casa maior e mais perto do trabalho. Os filhos teriam plano de saúde, mais brinquedos e roupas. ´Ia ter como fazer uma conta e guardar um dinheirinho todo mês, o que não consigo hoje´, afirma. Os planos são muitos; a concretização, difícil. Embora pegue no batente oito horas por dia, a remuneração não chega a um quarto desse valor. Passar o mês com um salário mínimo, quando muito, é a realidade de 1,973 milhões de cearenses, que representam 52% da população ocupada do Estado, conforme dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios). A situação é um pouco melhor do que a média regional, que aponta que 58,8% estão nessa situação. Apenas 4,3% dos nordestinos ganham mais do que cinco salários. Os dados colhidos pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) são de 2006, quando o mínimo era de R$ 350. Hoje é de R$ 415.
Convertendo os valores médios anuais para o real de março de 2008, o mínimo atual é o maior em 22 anos. Em 1995, por exemplo era equivalente a atuais R$ 227,67. Em cinco anos, o ganho real acumulado é de 37%, descontada a inflação medida pelo INPC. A política de valorização, com reajustes acima da inflação, vem desde 1996, com a estabilização da economia brasileira. As maiores acelerações foram em 2005 e 2006, com ganhos reais de 8,23% e 13,04%, respectivamente. ´Entre os anos 50 e 60, tivemos um salário mínimo equivalente a uns R$ 600 hoje. Então já estamos mais perto desse pico´, comenta Tarcísio Patrício de Araújo, professor de Economia Brasileira e Economia do Trabalho na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). A defasagem, porém, ainda é alta. O salário que realizaria os planos de Cledinar e de milhões de brasileiros não foi um valor escolhido aleatoriamente. O montante é o que o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) calcula como o mínimo necessário para suprir as despesas do trabalhador e sua família. Para ser mais exato: são R$ 1.803,11, conforme avaliação de dezembro de 2007. Significa que o mínimo atual é 77% abaixo do mínimo necessário para cumprir a determinação constitucional que estabelece que a remuneração mínima deve suprir os gastos com alimentação, moradia, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e previdência do grupo familiar.
ORÇAMENTO MENSAL
Malabarismo para não ficar no vermelho
A realidade de quem ganha um salário mínimo por mês é sempre a mesma: o aperto. Driblar a dificuldade de fazer com que o rendimento dure os 30 dias do mês e seja suficiente para arcar com as despesas requer planejamento. É o que revela a auxiliar-administrativa Jamille Alexandrino. Não comprar mais do que o necessário, evitar o acúmulo de prestações e fugir dos parcelamentos longos são dicas importantes para não gastar mais do que pode. Ela e o marido, o fiscal de loja Paulo de Tarso Alexandrino, ganham um salário mínimo cada. ´Nossas prioridades são a alimentação e a prestação de R$ 250,00 pagos pelo financiamento de um apartamento para pagar em 15 anos´, destaca. ´Também tem o colégio da nossa filha´, emenda Jamille. Roupas e calçados só são adquiridos de acordo com a necessidade. O lazer, apesar de limitado, não é esquecido. ´Sempre dá para uma pizza, um cineminha ou um lanche´, conta. ´Porém, dificilmente sobra alguma coisa. E não adianta o salário mínimo aumentar, pois logo em seguida as coisas sobem bem acima´, argumenta. Se ganhasse os R$ 1,8 mil mensais, valor apontado pelo Dieese como o piso de referência para o trabalhador brasileiro, a realidade seria outra. ´Eu ia ter como fazer o financiamento de um carro e aumentar o lazer. E se eu e meu marido ganhássemos R$ 1,8 mil cada, aí seria perfeito´, diz. Mãe de três crianças e responsável praticamente só pelo sustento de casa, Cledinar tem que fazer ´malabarismo´ para pagar todas contas. Apesar de contar com o benefício do Bolsa-Família e uma pensão de R$ 100 do ex-marido, ´às vezes só se paga uma coisa se deixar outra de lado´.
MEDIDAS PARALELAS
Revalorização não depende apenas de aumento
Após anos de depreciação, a recuperação do mínimo não depende unicamente de seu aumento. A revalorização precisa ser articulada com o desempenho da economia. Aumento da produtividade, geração de empregos e redução da carga tributária são algumas das medidas necessárias para a sustentabilidade de um mínimo mais justo.
´Considerando a distribuição de renda atual, que família de classe média ou pequeno empresário poderia pagar um mínimo de R$ 1,8 mil?´, questiona Tarcísio de Araújo. Para ele, como a carga tributária é muito elevada, para reduzir custos, as empresas acham mais fácil cortar nos salários. Os custos de ineficiência e gargalos da economia são obstáculos à consolidação de empregos, sobretudo formais.
Araújo argumenta ainda que a máquina pública deveria ser ´enxuta´. O número de trabalhadores com remuneração de até um mínimo é pouco expressivo nas administrações federal e estaduais, mas maior nos municípios. ´A situação emperra o crescimento do salário, a folha de pagamento é alta, w os municípios dependem da transferência de ICMS. No Nordeste, os trabalhadores com esse rendimento representam 1,22% na esfera federal e 2,96% na estadual, mas nos municípios chegam a 21,64%.
Mônica Lucas
Repórter