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Centenária, Caloi deu a volta por cima em grande estilo

Escrito por
Redação producaodiario@svm.com.br
Legenda: Edson Vaz Musa quer fortalecer a presença da Caloi nos Estados Unidos e dobrar o faturamento da empresa com exportações nos próximos três anos. No Brasil, a meta é a liderança do setor fitness
Foto: Miguel Portela

Engenheiro de Aeronáutica por formação e empresário por escolha. Ex-presidente da multinacional francesa Rhodia, Edson Musa comprou a Caloi há sete anos, com mais de R$ 200 milhões em dívida e um faturamento de R$ 100 milhões por ano. No ano passado, já recuperada, a empresa faturou R$ 140 milhões e deve fechar este ano com ganhos de mais de R$ 170 milhões

Como foi o início da sua vida profissional?

Formado em 1961, como engenheiro de Aeronáutica, saí diretamente do ITA para trabalhar na multinacional francesa Rhodia, como engenheiro de manutenção, na fábrica de Santo André. Fiquei na empresa 35 anos, onde fui presidente, o primeiro brasileiro presidente de uma multinacional, em 1984. Em 1986, continuando como presidente da Rodhia no Brasil, assumi uma posição no Comitê Executivo na matriz em Paris. Nessa época, passava 15 dias por mês em São Paulo e 15 dias em Paris. Era também responsável por todos os negócios na América Latina, era o operacional aqui. Isso me deu possibilidade de conhecer o mundo inteiro e trabalhar com vários países e culturas diferentes. Essa foi a minha carreira na Rhodia, começando como engenheiro de manutenção em uma fábrica e terminando como membro de Conselho Executivo em Paris.

E como a Caloi entrou na sua vida?

Um dos negócios que fizemos na consultoria foi um contrato de gestão com a Caloi, para fazer uma recuperação da empresa, em 1998. Durante dois anos coloquei um pessoal meu lá. Depois desse contrato de dois anos, a empresa estava pré-falimentar, estava numa situação muito complicada. Fizemos um ajuste na gestão da empresa, mas ela precisava de crédito e crédito ela não tinha mais. Os acionistas tinham endividado a empresa. A Caloi precisava de financiamento para poder voltar a se desenvolver. O que fiz foi investir dinheiro e comprei o controle, em 2000.

Na época da compra, qual era a situação da empresa?

A situação era muito complicada. A empresa tinha um faturamento de um pouco mais de R$ 100 milhões por ano e dívidas de mais de R$ 200 milhões, com o fisco, bancos e fornecedores. Fizemos uma reengenharia societária. Eu acabei ficando com a Caloi Norte, que ficou com a marca, todo o comércio e todos os ativos. E a Caloi Bicicletas ficou com todos os passivos. Ficamos com a empresa enxuta, limpa. Negociamos os créditos com fornecedores do Japão e China e com isso a empresa voltou a funcionar.

Como está a Caloi atualmente?

Hoje, a situação é muito interessante. Recuperamos largamente a nossa liderança e mais que dobramos o faturamento. Hoje, ele está em R$ 250 milhões. Temos bicicletas numa faixa de preço que varia de R$ 300,00 até R$ 5 mil. Nesse mercado, temos 60% de participação. A empresa está lucrativa e, este ano, crescendo 15%. Temos dívidas normais, de capital de giro.

O que foi feito para se chegar a essa recuperação?

Muita coisa. Nós criamos um projeto de empresa, que tem várias componentes importantes. A primeira foi um definição de negócios muito clara. Tenho muito orgulho de dizer que não somos mais uma empresa de bicicletas. Nosso negócio é proporcionar aos adultos e crianças uma vida saudável através do exercício físico. Nosso foco hoje é a busca de uma vida saudável. Entendemos essa vida saudável, não só do ponto de vista físico, mas também mental, respeitando o meio ambiente.

Foi a partir dessa mudança de foco que a Caloi decidiu investir na produção de equipamentos de ginástica?

Isso. Estamos com 70% desse mercado de fitness para uso domiciliar. Ainda não entramos em academias. Mas é uma meta para o próximo ano.

O que é esperado com a entrada nas academias?

Na realidade, vamos entrar em duas fases. A primeira será para pequenas academias e condomínios, com aparelhos especializados para o que chamamos de mercado vertical. E só em uma segunda fase, em alguns anos, é que vamos entrar nas grandes academias.

A bicicleta é um artigo popular no Nordeste. O que a Caloi reserva para a região?

Realmente, a região Nordeste é atualmente estratégica para nós por dois motivos. Primeiro porque que é a região que mais cresce no Brasil, cresce mais do que o restante do país. A economia do Nordeste é maior do que a economia do Chile. Segundo porque temos uma posição relativamente fraca na região. Nosso concorrente Monark tem uma posição forte aqui no Nordeste. E tem também a Houston, que é uma fábrica do Piauí. Nós temos planos de investir em gente, em força comercial, e em produtos adaptados para a região. Como já falei nossa gama de preços é acima de R$ 300,00. Talvez tenhamos que rever nossos preços para a região, oferecendo produtos para a grande massa. Isso sai um pouco da nossa estratégia, mas, se quisermos ser fortes nesse mercado, temos que fazer isso. Já colocamos gente na área comercial. Estamos visitando clientes.

Antes era mais comum encontrar bicicletas em várias lojas. E hoje percebe-se uma diminuição nos canais de distribuição. Como está a rede de vendas atualmente?

Você tem toda razão. Essa é uma das dificuldades do nosso ‘business’, justamente o canal de distribuição. As redes de supermercado que vendem bicicletas não gostam de vender. A verdade é essa. A bicicleta ocupa muito espaço e requer vendedores especializados para passar informações aos clientes. Um outro ponto de vendas de bicicletas são as lojas de eletroeletrônicos, onde também é difícil de encontrar vendedores especializados, mas a situação é melhor do que os supermercados. Resta o canal de lojas especializadas, as chamadas bike shops. Essas lojas representam 15% do volume de vendas, mas 30% do montante de dinheiro. Nesses pontos temos domínio quase absoluto. E começa a surgir agora as lojas de esporte. O canal de vendas é realmente uma dificuldade. Por isso estamos apostando na internet, onde podemos expor a gama completa dos nossos produtos.

Com essa onda de preocupação com o meio ambiente e com a manutenção de uma vida saudável, a empresa bolou alguma estratégia específica?

Nós fundamos uma ONG, o Instituto Pedala Brasil, que meu filho Eduardo Musa é presidente. Temos como objetivo divulgar e incentivar o uso da bicicleta. Existe no mundo todo um movimento fortíssimo contra o automóvel e motocicleta. No Brasil, também. Estamos em uma situação insuportável. Em São Paulo, por exemplo, são licenciados 870 carros por dia. Existe um movimento forte pela qualidade de vida em São Paulo, que luta pelo aumento de ciclovias e estímulo da utilização de bicicletas.

Essa mudança já pode ser percebida nas comercializações?

O mercado dos Estados Unidos passou muito tempo quase que estagnado e voltou a crescer. No Brasil, há dez anos as vendas não cresciam. Estavam estagnadas em quatro milhões e quatro milhões e trezentas mil bicicletas por ano. Este ano, pela primeira vez estamos crescendo.

E quanto a exportações, quais são os planos?

Nós temos uma filial nos Estados Unidos, que só vendia na Flórida, desde antes de eu adquirir a Caloi. As bicicletas que são vendidas lá são produzidas na China, com os nossos desenhos. Sai mais barato do que se a gente produzisse na fábrica de Manaus. Temos uma estratégia montada para crescer. Vamos concentrar nossas atividades internacionais nos Estados Unidos. Do US$ 1 milhão por ano atual, esperamos chegar US$ 20 milhões em três anos.

E para o mercado brasileiro, quais são as metas?

Em 2012, queremos chegar a marca de um milhão de bicicletas. Sermos líderes absolutos em todo o segmento fitness. E ter uma posição forte nos Estado Unidos.

Sobre a Caloi

A Caloi é uma empresa brasileira com mais de 100 anos, líder de mercado, responsável pela comercialização de mais de 650 mil bicicletas e 100 mil unidades de aparelhos para home fitness por ano. Possui duas unidades fabris, uma em Atibaia, SP, e outra em Manaus, AM. Gera 600 empregos diretos e mais 400 temporários, na alta estação. A Caloi estimula e apóia crianças e adultos na busca de uma vida saudável por meio da atividade física, através da Organização Não Governamental (ONG) Pedala Brasil.

A empresa fabricou 650 mil bicicletas em 2006. A expectativa para 2007 é de fabricar 750 mil unidades (crescimento de 15% em unidades). O faturamento em bicicleta deve crescer 20%, pulando de R$ 140 milhões para mais de R$ 170 milhões. A meta é chegar em 2012 produzindo 1 milhão de unidades.

A frota brasileira de bicicletas é de 60 milhões. Estima-se que dois terços desta frota seja de bicicletas de transporte. Por ano, vende-se cerca 4,5 milhões de unidades no Brasil. Destas, 50% são bicicletas de transporte, 30% infantis e 20% para os segmentos de lazer, recreação e esporte.

A Caloi tem cerca de 600 funcionários, contando o escritório de São Paulo e as fábricas de Atibaia-SP e Manaus.

KÉLIA JÁCOME
Repórter

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