Lockdown em Fortaleza: compare ocupação atual dos leitos com o cenário do isolamento rígido de 2020

Taxa de ocupação de leitos de UTI em maio do ano passado era de 85,48%. Nesta quarta-feira (3), IntegraSUS registrou 91,2%

A taxa de ocupação de leitos de UTI em Fortaleza atualmente é de 91,2%.
Legenda: A taxa de ocupação de leitos de UTI em Fortaleza atualmente é de 91,2%.
Foto: Helene Santos

O governador do Ceará, Camilo Santana (PT), e o prefeito de Fortaleza, José Sarto (PDT), anunciaram nesta quarta-feira (3) que a Capital vai entrar em lockdown a partir de sexta-feira (5). É a segunda vez que Fortaleza enfrenta um “isolamento social rígido” provocado pela pandemia de Covid-19.

A decisão vem num momento em que o cenário de ocupação de leitos de terapia intensiva (UTI) e enfermaria devido à doença já supera o do dia 5 de maio de 2020, quando as autoridades decidiram pela primeira vez restringir quase que totalmente a circulação de pessoas para diminuir a transmissão viral e, consequentemente, possibilitar que o sistema de saúde — público e privado — tivesse fôlego para atender à demanda crescente de infectados.

No dia do anúncio do primeiro lockdown, a taxa de ocupação em UTIs na Capital era de 85,48%, com 97,07% de vagas lotadas em UTIs Adulto e 99,36% em enfermarias Adulto, segundo a plataforma IntegraSUS. Já nesta quarta-feira (3), data que marca o segundo anúncio, a taxa de ocupação de UTIs em Fortaleza ultrapassa a marca dos 90% (91,2%), com 92,15% das vagas preenchidas em UTIs Adulto e 92,44% em enfermarias Adulto. 

Há, ainda, outro agravante: em relação ao dia 5 de maio de 2020, a taxa de ocupação em UTI Infantil saltou de 35,14% para 84,38%.

No anúncio desta quarta-feira (3), Sarto lembrou, inclusive, que a demanda por Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) nesta semana superou o pico registrado em maio de 2020 e que a oferta de leitos de UTI e enfermaria também já se sobrepõe à estrutura que se tinha no pico.

“A quantidade de leitos que estamos abrindo não tem sido suficiente diante da velocidade de propagação do vírus”, assumiu Camilo.

Mortes pela pandemia

Só neste ano, entre 1º de janeiro e a última segunda-feira, 1º de março, o Ceará perdeu 1.101 pessoas para a Covid-19. No ano passado, no dia do anúncio do primeiro lockdown, o Estado estava às vésperas de registrar a marca de mil mortos pela pandemia. Hoje, no dia em que o Brasil contabilizou 1.910 vidas perdidas para a Covid-19 em 24 horas, num novo recorde de óbitos — já são 259.271, no total —, o Ceará chegou ao acumulado de 11.432 vítimas fatais — 42% só em Fortaleza.

Cenário epidemiológico em Fortaleza

Em 5 de maio do ano passado, a capital cearense registrou 23.799 casos de Covid-19 confirmados, além de 990 óbitos e 6.495 casos recuperados. Já nesta quarta-feira (3), aponta o IntegraSUS, o número de casos confirmados na Cidade já é de 123.751, ou seja, com uma diferença de 99.952 novas confirmações da infecção.

Mutações

A circulação de novas cepas do coronavírus também reforça o cenário mais grave que se enfrenta atualmente. “Essa variante é mais forte, mais contagiosa, mais agressiva, se propaga mais rapidamente”, definiu o governador Camilo Santana no anúncio do segundo lockdown.

Junto a Camilo, o secretário estadual da Saúde, Carlos Roberto Martins Rodrigues Sobrinho, Dr. Cabeto, disse que, por isso, o isolamento social mais rígido se faz ainda mais urgente agora. “Eu já tinha dito que o isolamento previne não só o número de pessoas contaminadas, mas também faz com que a chance de mutação [do vírus] reduza”, explicou.

Segundo o secretário, “vivemos, hoje, uma situação epidemiológica, provavelmente, muito mais intensa” em termos de contágio, mas ainda menos letal. “E assim queremos continuar, tendo condição de atender [aos infectados]”, justificou.

Alerta para os municípios

Outra diferença que se observa no contexto entre os dois momentos é que, agora, o apelo do Governo é para que outros municípios em situação grave sigam a decisão tomada em Fortaleza. No ano passado, as regras mais rígidas se concentraram na Capital porque a cidade ainda era a que mais propagava a Covid-19. Atualmente, porém, 90% dos municípios já têm níveis de alerta altos ou altíssimos para a transmissão da doença. Cinco deles, inclusive, já decretaram lockdown.

Lockdown tardio

Para a epidemiologista e professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), Caroline Gurgel, diante do atual cenário da pandemia e da demora na adoção de medidas mais restritivas, o lockdown deixou de ser a melhor opção.

"Não vai adiantar muito fazer o lockdown, se não tiver uma atuação bem mais firme em relação às aglomerações clandestinas. É como se você penalizasse quem já trabalha corretamente", avalia a especialista.

De acordo com ela, desde que Manaus passou a enfrentar uma grave crise na saúde, os especialistas já vinham alertando para a necessidade de redobrar os cuidados com o vírus, que possui alta capacidade de mutação, atingindo maiores níveis de transmissibilidade, o que eleva os riscos. 

Além da falta de ações mais firmes por parte do Governo, como o fechamento de aeroportos, boa parte da população continua a desrespeitar as regras sanitárias e ainda se nega a enxergar a gravidade da pandemia, diz Gurgel. Ela aponta a vacinação em massa e a conscientização como as únicas saídas para o momento crítico que todo o Estado atravessa.

"Se não for todo mundo tendo o mesmo pensamento, com o mesmo objetivo de combater a pandemia, esse lockdown não vai adiantar de nada. A situação é lamentável. Agora, é a gente amargar o prejuízo".

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