Entenda a eficácia das vacinas aplicadas no Ceará e por que mesmo imunizado é possível pegar Covid

Especialistas indicam que a situação em uma 3ª onda da doença no Estado sem vacinação seria de sobrecarga nos hospitais e número bem maior de mortos

Escrito por Lucas Falconery, lucas.falconery@svm.com.br

Metro
Imunização
Legenda: Os imunizantes possuem eficácia satisfatória e evitam casos graves da doença
Foto: Thiago Gadelha

Com teste positivo para a Covid-19 dias antes do Réveillon de 2022, o receio da advogada Janaína de Deus, de 33 anos, foi reviver o desgaste físico e mental da doença. “Fiquei muito mal na primeira vez que tive, em janeiro de 2021, e tenho certeza que foi a vacina que segurou os sintomas agora”. Experiência compartilhada por outros cearenses com a doença atenuada pela imunização contra o coronavírus.

Especialistas ouvidos pelo Diário do Nordeste apontam a eficácia das vacinas contra a Covid-19 e influenza, mesmo com aumento dos casos de infecção, pelo cumprimento da promessa feita desde o início da pandemia: redução de mortes, hospitalizações e casos graves da doença. 

Tanto o resultado se reflete positivamente no cenário epidemiológico que, mesmo com a circulação da variante Ômicron, os hospitais não se aproximam da ocupação vista na 1º e 2ª onda da doença.

“Nessa altura do campeonato a gente já teria uma mortalidade muito maior, hospitais superlotados, se a gente não tivesse tido a vacinação. Então a grande eficácia da vacina é essa: a proteção contra as formas graves e contra a mortalidade da Covid-19”, atesta a médica infectologista Melissa Medeiros, atuante no Hospital São José.

O Ceará aplicou a segunda dose da vacina contra o coronavírus em 6.365.521 e a dose única em 174.535 outros, alcançando a imunização de cerca de 70.77% da população cearense, até a quinta-feira (6).

A especialista reforça a alta transmissibilidade da Ômicron comparada ao contágio pelo sarampo. “Uma pessoa infectada sem máscara ao redor de outras infectaria entre 16 e 18 pessoas no mesmo momento. Isso quer dizer uma família inteira numa pequena reunião mais próxima. Imagina em grandes aglomerações?”, detalha.

É inevitável falar que estamos vivendo, mesmo que tardiamente, a nossa 3ª onda. Mas estamos com uma taxa de internação, inclusive em hospitalização e em gravidade de pacientes, bem menor
Melissa Medeiros
Infectologista no Hospital São José

Nenhuma vacina, seja qual for a doença, tem eficácia de 100% contra infecção, como acrescenta o médico pediatra e infectologista Robério Leite. O especialista explica que, nesse contexto, deve ser avaliado o desfecho clínico dos pacientes.

“Para qualquer manifestação clínica de Covid-19, com a emergência das variantes, sobretudo a Ômicron, a eficácia caiu em relação ao vírus original, para o qual foram concebidas as vacinas”, ressalta.

Vacinação
Legenda: Público deve comparecer a imunização mesmo caso tenha infecção entre as doses. O recomendado é esperar 30 dias depois da doença.
Foto: Thiago Gadelha

Contudo o infectologista também ressalta o menor número de hospitalizações e mortes pela doença com a imunização. “A chance de se infectar e de desenvolver sintomas é menor em indivíduos vacinados, em comparação com não vacinados”, frisa.

Esse desfecho clínico só tem acontecido praticamente para quem não foi vacinado. Então, a eficácia das vacinas da Covid-19 segue elevada para evitar hospitalizações e mortes, felizmente
Robério Leite
Infectologista e pediatra

As vacinas são analisadas quanto à eficácia global, ou seja, a proteção contra qualquer intensidade da doença, de leve à grave, em que todas as fabricantes alcançaram indíces satisfatórios. Confira:

Pfizer/BioNTech - Eficácia global: 95%

Vacina usada na imunização de adolescentes e aplicada como dose de reforço também em adultos no Ceará. A empresa aponta que os estudos mostram proteção parcial depois de 12 dias da primeira dose, mas que são necessárias duas doses para a proteção máxima, de 95%.

Astrazeneca - Eficácia global: 82,4%

Imunizante aplicado no Estado em adultos tem eficácia geral de 76%, dos 22 aos 90 dias após a aplicação. Com a aplicação da segunda dose, a proteção sobe para 82,4% para casos gerais, conforme a fabricante Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Coronavac - Eficácia global: 62,3%

A eficácia global da Coronavac pode chegar a 62,3% se o espaço entre as duas doses for de 21 dias ou mais, conforme o Instituto Butantan. Em artigo científico encaminhado para a revista científica The Lancet, a Coronavac, para casos sintomáticos, atingiu 50,7% de eficácia com 14 dias de intervalo entre as duas doses.

Janssen - Eficácia global: 66%
 
Inicialmente aplicada em dose única, a vacina Janssen apresentou de 66% em um teste realizado em três continentes e com variantes múltiplas do vírus, como informado pela fabricante e publicado na Agência Brasil. Uma segunda dose deve ser aplicada nos brasileiros imunizados com a Janssen entre dois e cinco meses.

Contaminação de imunizados

Buscar manter a vacinação em dia acontece desde antes da pandemia da Covid-19 na rotina de Janaína de Deus, imunizada com duas doses da Pfizer. Por também ser alérgica e pelo quadro de sinusite, fez o teste para a doença pandêmica apenas para tirar a dúvida.

Um exame foi feito logo no início dos sintomas, com resultado negativo, mas a confirmação veio dois dias depois. “Dia 29 de dezembro estava com dores na face, nariz entupido e a garganta inflamada. Fiz o novo teste porque ia viajar para o Réveillon e por receio de ser a Covid ou a influenza, ou as duas”, frisa.

Testagem
Legenda: O aumento pela procura de testagem acontece de forma expressiva entre dezembro e janeiro no Ceará
Foto: Thiago Gadelha

O isolamento foi imediato e as pessoas com quem teve contato nos dias anteriores foram avisadas sobre o contágio. Irmã e prima da advogada também entraram de quarentena após positivarem para a Covid-19.

“As duas vieram se isolar comigo e todas nós tivemos os mesmos sintomas: nariz entupido, dor de cabeça, às vezes tosse e garganta coçando”, completa. Ainda assim, a experiência foi bem diferente de há exato um ano por causa da imunização.

Por ter pegue Covid em janeiro do ano passado e ter ficado 45 dias bem debilitada, com vários sintomas pesados, como febre, muita tosse, ausência de paladar e olfato, falta de ar, dor no corpo, fadiga e conjuntivite, assim que eu recebi o diagnóstico fiquei com medo de novamente ter todos esses sintomas
Janaína de Deus
Advogada

Os sintomas dessa vez foram atenuados e tratados em casa. O retorno ao trabalho, no isolamento concluído nesta quinta-feira (6), já foi possível. “Foi tão leve, que consegui inclusive fazer atividades físicas em casa e coisas do dia a dia como faxina e fazer comidas”, destaca.

Também foi durante a virada de ano que a estudante Rakel Montenegro, de 23 anos, recebeu o diagnóstico da Covid-19, que ainda a mantém em isolamento em casa.

“Os sintomas começaram a aparecer na noite do dia 1º. Começou com a garganta ardendo, apenas. No dia seguinte, eu já estava pior, tive febre, calafrios e meu corpo estava super mole, muita tosse e dor de cabeça direto”, detalha.

O teste foi feito na terça-feira (4) e os dias seguintes foram de perda do olfato e do paladar. A estudante recebeu duas doses da vacina Coronavac. “Eu acho que se eu não estivesse imunizada, os sintomas poderiam ser piores, ou até mesmo, agravar o caso. A vacina ajudou muito a não ser tão grave, não chegar a um ponto de ir para hospital e sentir falta de ar”, reflete.

As pessoas acham que só porque já estão imunizadas já estão livres do vírus ou que a pandemia acabou e não é bem assim
Rakel Montenegro
Estudante

Rakel analisa o atual momento como quebra de protocolos importantes para conter o avanço da doença. “Quando eu estava chegando na farmácia para realizar meu teste de Covid, vi pessoas passando por mim sem usar máscara”, comenta.

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