Covid-19 não é mais a principal causa de morte no Ceará nos últimos três meses

Em outubro, a doença provocada pelo coronavírus foi a oitava no ranking das 10 causas de morte mais comuns no Estado. Em janeiro, era a primeira

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Legenda: No Ceará, em outubro deste ano, foram registradas 83 mortes por Covid-19 nos cartórios. Em janeiro, foram 539 mortes. Em abril, pico da segunda onda, esse número saltou para 3,8 mil.
Foto: José Leomar

A Covid-19 deixou de ser a principal causa de morte no Ceará desde julho. No último mês de outubro, segundo dados dos cartórios de registro civil obtidos no portal da transparência da Associação dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen), os três principais motivos das mortes registradas no Estado foram pneumonia (525), septicemia (468) e AVC (422). Covid-19 caiu para o oitavo lugar no ranking das dez causas mais comuns, com 83 registros apenas. 

No início do ano, porém, a situação era bem diferente. Mesmo em janeiro, antes do pico da segunda onda da pandemia, a Covid-19 ainda era a principal causa de morte, se não considerar os óbitos contabilizados por outras causas.

Naquele mês, foram registrados nos cartórios do Estado 539 óbitos pela infecção, seguidos de 445 por pneumonia, 376 por septicemia — ou sepse, que é a resposta exagerada do corpo a uma infecção — e 362 por AVC, que são acidentes vasculares cerebrais, uma das principais e históricas causas de morte no Brasil.

O cenário positivo é notoriamente puxado pelo avanço da campanha de imunização contra a doença no Estado. Às 17 horas da última quinta-feira (18), o Vacinômetro registrava a marca de 12,7 milhões de doses aplicadas, sendo 6,6 milhões em primeira dose, 5,4 milhões em segunda dose, 170,7 mil em dose única, 4,5 mil em dose adicional e 408 mil em dose de reforço. 

Variante Delta 

Mas, além da vacinação, o professor José Xavier Neto, cientista-chefe da Saúde do Ceará, destaca que, por motivos ainda não totalmente compreendidos, a presença da variante Delta no Brasil não provocou os estragos esperados pelos especialistas, que poderiam ser semelhantes aos provocados em outros países nos quais ela se instalou. Isso, portanto, também facilitou a estabilização do número de casos e óbitos.  

A gente não entende ainda muito bem o porquê [de a Delta não ter tido tanta força no País], mas talvez seja algo na interação com a variante P1 [Gama], que foi a mais comum na segunda onda”
José Xavier Neto
Cientista-chefe da Saúde do Ceará

O especialista também aposta nos efeitos iniciais da vacinação e na imunidade adquirida após segunda onda como barreiras para a atuação da variante. “Não há a menor dúvida de que estamos numa situação muitíssimo mais confortável do que no ano passado. A Covid-19 não desapareceu, mas estamos num nível baixo”, avalia Xavier. 

Tendência de queda de óbitos 

Ainda de acordo com o professor Xavier, especialmente devido à conclusão do esquema vacinal contra a Covid-19 e às doses de reforço, a tendência é que, mesmo que haja uma terceira onda da pandemia no próximo ano, o número de mortes seja ainda menor do que na segunda onda, que já foi menor do que o observado na primeira. 

“A gente usa um indicador que é a letalidade, que é o número de óbitos sobre o número de casos. E a gente teve uma letalidade muito grande no começo, por ser uma doença desconhecida e não estarmos preparados. Na segunda onda já foi bem menor. E acredito que, com a vacinação, a letalidade numa possível terceira onda seja menor ainda”, projeta. 

No entanto, o cientista-chefe se diz preocupado com o relaxamento das medidas de proteção individual contra a doença, como uso de máscaras e distanciamento social. Embora não seja provável uma nova alta significativa de mortes, ele acredita que os casos podem voltar a aumentar consideravelmente em 2022 após as temporadas de Pré-Carnaval e Carnaval.  

“À medida que o cenário epidemiológico é bom, tem que ir adaptando a legislação [sobre o isolamento social], mas isso não pode ser interpretado pela população como um sinal de que acabou o problema, porque não acabou”, conclui, taxativo, o professor.  

Vídeo: gravidade da Covid-19 no Ceará

Veja no vídeo abaixo a evolução dos alertas de casos no Estado desde o início da pandemia. Na cor vermelha estão regiões com registros muito acima da média, na cor laranja estão regiões com casos ligeiramente acima da média e, na cor verde, estão regiões com anotações abaixo da média.

Conjuntura nacional 

A baixa dos óbitos no Ceará acompanha a conjuntura nacional. Em janeiro, a Covid-19 também era a principal causa de morte de brasileiros, segundo a Arpen. No último outubro, porém, a doença caiu para o sétimo lugar, o que fez voltar ao topo das causas de morte mais comuns as sepses, as pneumonias e as doenças cardiovasculares como AVC e infarto, o que não acontecia desde o início da pandemia no País, em março do ano passado. 

No boletim sobre a Covid-19 divulgado na última quarta-feira (17) pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a instituição assegura que permanece no País a tendência de queda no número de casos, óbitos e ocupação de leitos de terapia intensiva (UTI) pela doença. 

Contudo, segundo o documento, embora, no Brasil, 60% da população esteja com esquema vacinal completo e a estimativa atual seja de 1,15 óbito por milhão de habitantes, países como Áustria, Lituânia e Alemanha, com percentuais maiores da população vacinada (63,7%, 65,2% e 67% respectivamente), têm enfrentado tanto um aumento no número de internações, especialmente entre não vacinados, como no indicador de óbitos por milhão de habitantes, que está em 2,23 para Alemanha, 4 para Áustria e 10,62 para Lituânia. 

‘Pandemia dos não vacinados’ 

No mesmo dia que saiu o boletim da Fiocruz, na quarta (17), o Consórcio de Veículos de Imprensa divulgou que a média móvel de óbitos por Covid-19 na última semana, no Brasil, estava em 260. Assim como no Ceará, a queda no número de mortes em nível nacional vem sendo observada pelo menos desde julho. 

No entanto, no último boletim, a Fiocruz ressalta que a pandemia não acabou, que o vírus continua circulando e que preocupa o fato de 40% da população brasileira ainda não estar totalmente vacinada, especialmente numa época em que se aproximam as festas de fim de ano. 

O alerta vindo da Europa, com o que se denomina de ‘pandemia dos não vacinados’, e o retorno de rigorosas restrições, aponta para a necessidade de estratégias mais ativas de vacinação, incluindo campanhas e exigência de passaporte vacinal para atividades em ambientes fechados e/ou de grande concentração de pessoas, para que não sejam perdidos os ganhos adquiridos".
Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)
Boletim Observatório Covid-19, de 17 de novembro de 2021

No Ceará, o passaporte de vacinação já é obrigatório para entrada em bares, restaurantes, barracas de praia e eventos em locais fechados ou abertos. Conforme a Secretaria da Saúde do Estado (Sesa), estabelecimentos que se recusarem a cobrar o documento podem pagar multa e responder a processos administrativos a partir da próxima segunda-feira (22). 

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