Em 2020, só 7,8% das escolas cearenses voltaram às aulas presenciais quando foi permitido

A maioria das escolas que aderiram ao retorno presencial foi da rede privada. Dado compõe balanço feito pelo Inep sobre os impactos da Covid-19 no ensino brasileiro

Neste momento, escolas estão se preparando para iniciar o segundo semestre letivo no modelo híbrido de ensino.
Legenda: Neste momento, escolas estão se preparando para iniciar o segundo semestre letivo no modelo híbrido de ensino.
Foto: Camila Lima

No Ceará, ano passado, apenas 7,8% das escolas voltaram às aulas presenciais quando o Governo flexibilizou o isolamento social provocado pela Covid-19. O balanço foi feito pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e divulgado ontem (8), no momento em que as unidades de ensino se planejam para retornar ao segundo semestre de forma híbrida

A maior adesão ao retorno presencial (44%) em 2020, segundo o Inep, foi na rede privada, enquanto que, na pública, houve registro de somente 0,3% de escolas que promoveram atividades contínuas em sala física. A maior parte, aliás, apenas devido à preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

No entanto, ambas as redes compreendem que o debate sobre os impactos da pandemia no ensino e na aprendizagem vai além da tomada de decisão pela volta às atividades presenciais. É preciso, neste momento, avaliar cada aluno para compreender quais conhecimentos e habilidades não foram assimilados como deveriam neste um ano e meio de aulas predominantemente remotas. 

Avaliação diagnóstica 

“É muito importante esse questionário [do Inep] porque vira registro histórico. O que não tem são resultados. Fala de esforço, criatividade, tentativa, mas não fala o que o aluno aprendeu, de fato”, pontua Henrique Soárez, coordenador da Força-Tarefa de Volta às Aulas Presenciais do Sindicato de Educação da Livre Iniciativa do Estado (Sinepe-CE) e diretor do Colégio 7 de Setembro. 

Por isso, segundo ele, na volta às aulas, a primeira estratégia a tomar na escola que dirige será a de aplicar um simulado para diagnosticar os aprendizados e as defasagens dos estudantes. “A gente vai ter que investir energia pra obter dados que vão possibilitar direcionar os trabalhos” no segundo semestre, diz. 

Segundo Henrique, as escolas não conseguem fazer esse diagnóstico com precisão em aulas remotas porque as avaliações nesse modelo não chegam a resultados fidedignos, uma vez que dão margem para “colas” e outras formas de burlar as respostas. 

O educador disse ainda que, dependendo dos resultados do diagnóstico, a escola pode chegar à “decisão dura” de interromper matérias e recomeçar do zero. O ensino remoto, ele entende, “salvou muito em 2020 porque não tinha outra alternativa. Mas a gente tem que saber que o que o professor consegue fazer através do computador é pálido diante daquilo que consegue fazer quando os alunos estão na sala de aula”. 

Recuperação e fortalecimento da aprendizagem 

Embora não tenha ainda voltado de maneira presencial ou mesmo híbrida, a rede pública de ensino já tem aplicado avaliações diagnósticas para dimensionar os prejuízos das aulas remotas.  

“Uma vez feito esse diagnóstico de conhecimentos e habilidades, é propor intervenção. É o que a Seduc (Secretaria da Educação do Ceará) tem chamado de ‘ciclo de recuperação e fortalecimento das aprendizagens’”, explica Jorge Lira, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), cientista-chefe em educação básica e um dos especialistas que formularam os exames. 

Ele diz que, além de analisar conhecimentos e habilidades, é preciso, também, compreender a realidade de cada aluno fora da escola. Como, por exemplo, saber se eles têm ou não acesso a tecnologias com conexão à internet e se conseguem assimilar os conteúdos passados no formato digital. 

“Hoje, o professor tem uma consciência muito mais vívida da heterogeneidade da escola, da sala de aula. Por incrível que pareça, essa interação à distância propiciou um contato maior com a realidade de cada estudante”, observa o especialista.  



Ainda de acordo com ele, o ensino remoto despertou a compreensão de que os livros físicos não são mais a principal ferramenta de ensino e que é preciso desenvolver materiais mais personalizados, que dialoguem com as dificuldades dos estudantes. A partir daí, ele acredita que devam ser revistas, inclusive, as formações de professores e gestores e os currículos educativos.  

Além disso, de acordo com Jorge, o ensino remoto fez com que as escolas, entre públicas e privadas, compreendessem que aulas são momentos cumulativos que não se encerram na exposição do conteúdo, muito menos na jornada presencial. E isso deve ficar ainda mais evidente com o início do ensino híbrido. “O híbrido propicia a melhor utilização, digamos assim, desse tempo ‘não formal’”, observa. 

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