Ceará reinicia aulas com metas de melhorar aprendizado da matemática e evitar desistências

Unidades da rede estadual devem passar por avaliação diagnóstica na primeira quinzena para analisar o desempenho dos alunos e traçar estratégias no contexto de pandemia e aulas remotas

Legenda: Seduc deve estimular atividades presenciais em escolas onde haja condições favoráveis a esse perfil
Foto: Camila Lima

Há um ano, o ensino da Matemática era uma pedra no sapato da educação cearense. A gestão estadual previa, ao longo de 2020, aprimorar a disciplina para favorecer melhores indicadores. Contudo, a pandemia do coronavírus se impôs como atraso nos planos, restringindo o acesso presencial às escolas e revelando a situação de alunos em condições muitas vezes precárias de aprendizagem. A partir de hoje, 1º de fevereiro, com o início do ano letivo de 2021, a meta é recuperar o tempo que foi perdido e reorganizar a base.

Em 2019, o último resultado disponível do Sistema Permanente de Avaliação da Educação Básica do Ceará (Spaece), que avalia as competências e habilidades de estudantes dos ensinos Fundamental e Médio em Português e Matemática, revelou que os avanços na segunda matéria foram mais tímidos, embora o desempenho dos alunos do 3º ano do Ensino Médio tenha sido o melhor registrado desde 2012.

Em Língua Portuguesa, a média saltou de 251,6 pontos, em 2012, para 271,6. O indicador foi considerado "intermediário", uma vez que o nível "adequado" precisa superar 325 pontos. No mesmo intervalo, Matemática passou de 260,7 para 272,5 - enquadrado como nível "crítico" - ainda distante dos ideais 350 pontos. O diagnóstico de 2020 permanece às escuras, pois o exame, que seria aplicado em novembro do ano passado, foi adiado e ainda não tem uma nova data definida.

"Vai ser difícil porque a gente, querendo ou não, não teve a mesma qualidade de ensino", resume Lívia Maria, 19, que em 2021 vai cursar o 3º ano do Ensino Médio na Escola Waldemar de Alcântara, no bairro Autran Nunes, em Fortaleza. A estudante conta que, no ano passado, percebeu seu rendimento cair - "era acima da média, mas nesse ano quase não saí do 6" -, sobretudo em disciplinas exatas como Matemática e Física.

Para ela, o ensino vai precisar ser "bem reforçado" como forma de preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), ainda que, novamente, utilizando apenas a tela e o teclado do celular. Lívia foi uma das estudantes que recebeu chips de internet do Governo do Estado, mas, até agora, conta que não conseguiu acesso aos dados. Pelo menos, pode acessar o sinal da rede Wi-Fi em casa, mas sabe que "muita gente não tem".

A expectativa também é alta para João Pedro do Nascimento, 16, matriculado na Escola Profissionalizante Lysia Pimentel Gomes, em Sobral. Sem a presença na sala e com a redução da carga horária de aulas - compensada por um maior volume de atividades -, ele percebeu que parte dos conteúdos não foi trabalhada da maneira adequada, ainda que a escola tenha ganhado experiência no uso de ferramentas digitais.

Currículo

"Acredito que minhas notas nas provas online foram boas, mas não sei se consegui absorver da forma esperada. Fiz o Enem agora, como teste, e alguns conteúdos que vi durante o segundo ano não conseguia recordar bem. Acredito que nossa principal preocupação é essa", explica o estudante, que pretende prestar vestibular para Ciências Biológicas e, futuramente, se tornar um professor na área.

O secretário-executivo do Ensino Médio e Profissional da Secretaria da Educação do Ceará (Seduc), Rogers Mendes, considera que a pandemia dificultou a implementação do programa Foco na Aprendizagem, que previa, em 2020, a aplicação de avaliações individuais pormenorizadas, uso de material didático suplementar e formação continuada de professores para focar em alunos que apresentassem maiores necessidades educacionais.

O gestor destaca que, ao longo do primeiro semestre, a Seduc vai estimular as escolas estaduais a apresentar propostas de atividades presenciais, dentro das condições de cada uma, seja para realização de trabalhos em equipe ou reforço em competências educacionais de base. "O nosso foco é dar conta do currículo mínimo porque há conhecimentos e habilidades mais estruturantes, que terão tratamento prioritário", ressalta.

Avaliação

Rogers Mendes confirma a Matemática como o componente curricular de maior cuidado "porque há uma correlação muito alta entre a desistência dos estudantes e o não aprendizado dela" e, desde o ano passado, uma das principais metas é justamente manter os alunos na escola diante das complicações do ensino remoto. "Estamos preocupados com as consequências num futuro próximo. A gente estima que, em 2022 e 2023, ainda precisaremos ter ações complementares de compensação", percebe.

Segundo o secretário-executivo, logo na primeira quinzena do ano letivo, será aplicada uma avaliação diagnóstica utilizando sistema eletrônico para "entender, com mais clareza, como está o desempenho acadêmico" dos estudantes em Língua Portuguesa e Matemática. Até março, os demais componentes curriculares devem ser analisados.

Marcília Chagas Barreto, coordenadora do Grupo de Pesquisa Matemática e Ensino (Maes) da Universidade Estadual do Ceará (Uece), considera que a formação de professores para a disciplina ainda é um dos maiores gargalos para o desenvolvimento. Grande volume de turmas e falta de tempo para estudos próprios são fatores apontados por ela que prejudicam a continuidade e a atualização dos conhecimentos na área.

Possibilidades

Para a especialista, as dificuldades no Ensino Médio vêm "em cascata" de etapas anteriores, mas não por "culpa" da base. "O desempenho dos estudantes, no decorrer do tempo, necessita de maturidade de desenvolvimento de raciocínio para elaborar conceitos mais difíceis. Quando eles não conseguem elaborar os conceitos iniciais e encará-los como conhecimento de estabelecimento, não podem ampliá-los", indica. Aos poucos, indica ela, esse processo vai criando "lacunas que vão se aprofundando".

A professora sugere que a Matemática seja menos encarada como a simples repetição de fórmulas e mais como uma representação de conceitos, permitindo que o aluno discuta estratégias e defina os melhores caminhos para resolver problemas. "Pensar em possibilidades, quer elas deem em acertos ou erros, é muito mais produtivo do que apenas reproduzi-las. Às vezes, não é só quando se acerta que o processo valeu a pena", sugere o gestor.

 

 

 

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