Entenda por que Trump prendeu Maduro

Disputas envolvendo eleições, petróleo, narcotráfico e migração opõem Washington e Caracas.

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AFP/Redação producaodiario@svm.com.br
(Atualizado às 10:05)
Esta imagem apresenta dois retratos lado a lado em um plano fechado: à esquerda, Donald Trump é retratado com uma expressão séria, vestindo um paletó escuro, camisa branca e gravata azul vibrante, destacando seu característico cabelo loiro penteado para o lado; à direita, Nicolás Maduro aparece falando em frente a um microfone, com seu marcante bigode preto e vestindo um paletó escuro com uma gravata listrada nas cores amarela e vermelha, contrastando com um fundo azul intenso.
Legenda: Trump e Maduro já tiveram diversos embates políticos nos últimos anos.
Foto: Nicholas Kamm / AFP.

Os Estados Unidos informaram neste sábado (3) a realização de um ataque contra a Venezuela que teria resultado na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores.

O anúncio foi feito pelo presidente Donald Trump por meio de uma rede social e ocorre em meio a uma relação marcada por tensões constantes entre os dois países.

Desde 2013, temas como eleições contestadas, sanções econômicas, embargo ao petróleo, acusações de envolvimento com o narcotráfico e crise migratória vêm colocando Washington e Caracas em lados opostos.

Esse histórico de disputas se intensificou ao longo da última década e culminou, segundo Trump, em um “ataque em larga escala” conduzido pelos Estados Unidos.

O Diário do Nordeste reúne e analisa os principais episódios e conflitos que ajudam a entender o embate entre Venezuela e Estados Unidos.

Regime democrático

Washington, a exemplo de diversos países da comunidade internacional, não reconhece a legitimidade do socialista Nicolás Maduro como presidente da Venezuela.

Após a repressão violenta aos protestos que eclodiram depois da primeira eleição de Maduro, em 2013, os Estados Unidos impuseram sanções a vários altos funcionários venezuelanos por violações de direitos humanos.

O governo norte-americano também classificou como “ilegítima” a reeleição de Maduro em 2018 e, mais recentemente, em 2024, pleito que a oposição afirma ter vencido.

Entre 2019 e 2023, os Estados Unidos, acompanhados por cerca de 60 países, chegaram a reconhecer o líder oposicionista Juan Guaidó como “presidente interino”, movimento que resultou no rompimento das relações diplomáticas por parte de Caracas.

Acusações de intervenção

A Venezuela acusou reiteradamente os Estados Unidos de interferirem em seus assuntos internos. Em 2019, após uma tentativa de levante militar, Nicolás Maduro declarou que Washington teria ordenado um “golpe fascista”. 

No ano seguinte, o presidente venezuelano voltou a responsabilizar os norte-americanos ao acusar seu então homólogo, Donald Trump, de ter “ordenado” uma tentativa de “incursão armada” pelo mar, que envolveu dois ex-militares dos Estados Unidos.

O governo norte-americano negou qualquer participação nos episódios e rejeitou a existência de “golpes apoiados pela CIA”. 

A declaração de Maduro foi feita em outubro, depois que Trump afirmou ter autorizado ações clandestinas da agência de inteligência contra a Venezuela.

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Embargo de petróleo dos EUA

Com o objetivo de pressionar economicamente o país e afastar Nicolás Maduro do poder, Washington impôs, em 2019, um embargo ao petróleo venezuelano, atingindo diretamente o principal pilar da já fragilizada economia do país.

Antes da medida entrar em vigor, o petróleo respondia por cerca de 96% das receitas nacionais, sendo que aproximadamente três quartos das exportações petrolíferas tinham como destino os Estados Unidos.

Nas últimas semanas, o governo norte-americano anunciou um “bloqueio total” contra “petroleiros sancionados” que viajam para ou a partir da Venezuela e apreendeu diversas embarcações. Caracas reagiu classificando a iniciativa como uma “ameaça grotesca”.

Ainda neste ano, Donald Trump encerrou as licenças que permitiam a atuação de empresas multinacionais no país apesar das sanções. A petrolífera americana Chevron, por exemplo, opera sob uma autorização especial desde julho.

De acordo com a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), a produção venezuelana despencou de 3,5 milhões de barris por dia em 2008 para menos de um milhão atualmente, resultado tanto das sanções impostas pelos Estados Unidos quanto do colapso do sistema de extração, agravado por corrupção e má gestão.

A Venezuela, que atravessou uma grave crise econômica entre 2014 e 2021, segue em situação delicada, quadro que Maduro atribui diretamente às medidas adotadas por Washington.

Acusação de tráfico de drogas

Em março de 2020, Nicolás Maduro foi formalmente acusado nos Estados Unidos por “narcoterrorismo”, e o governo norte-americano passou a oferecer uma recompensa de US$ 15 milhões por informações que levassem à sua captura. 

No início de 2025, após o presidente venezuelano tomar posse para um terceiro mandato, o valor foi elevado para US$ 25 milhões e, em agosto, subiu novamente, chegando a US$ 50 milhões.

A ampliação da recompensa ocorreu pouco antes de os Estados Unidos mobilizarem uma grande força militar no Mar do Caribe e realizarem operações contra suspeitos de tráfico de drogas.

Washington sustenta que Maduro lidera o chamado “Cartel dos Sóis”, organização cuja existência não foi comprovada, segundo diversos especialistas.

O presidente venezuelano rejeita as acusações e afirma que os Estados Unidos buscam, na verdade, se apropriar das reservas de petróleo do país.

Migração

Donald Trump, que colocou o combate à imigração no centro de seu segundo mandato, tem responsabilizado Caracas pelo aumento do fluxo de migrantes venezuelanos rumo aos Estados Unidos.

O presidente americano acusa o governo venezuelano de ter “empurrado” para o território norte-americano “centenas de milhares de pessoas vindas das prisões”, além de “internos de hospitais psiquiátricos”.

De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), quase oito milhões de venezuelanos (cerca de um quarto da população do país) deixaram a Venezuela desde 2014 em razão da crise econômica e política, a maioria em direção a países da América Latina e outros aos Estados Unidos.

Nesse contexto, Trump revogou o status de proteção temporária concedido a centenas de milhares de venezuelanos e promoveu a expulsão de vários deles ao longo de 2025.

O governo norte-americano enviou 252 venezuelanos em 2025 para uma prisão em El Salvador, sob acusação, sem apresentação de provas ou julgamento, de vínculo com uma gangue.

O grupo permaneceu detido por quatro meses antes de ser repatriado para Caracas, que, assim como diversas organizações não governamentais, denunciou práticas de “tortura” durante o período de detenção.