'Não perdoa nem família': advogada de 'Marcinho VP' tentou extorquir R$ 120 mil de deputado estadual do CE

Outro advogado e a esposa dele também são acusados de atuar em conluio com a advogada de 01 do CV.

Escrito por
Matheus Facundo matheus.facundo@svm.com.br
(Atualizado às 15:53)
Montagem de fotos, na qual na primeira é a foto da advogada Paloma Gurgel, acusada de extorquir um deputado estadual cearense, e a segunda foto é um print de conversar dela ameaçando o deputado.
Legenda: Paloma Gurgel é advogada com atuação em penitenciárias federais e tem relação com o líder do CV.
Foto: Reprodução.

A advogada Paloma Gurgel de Oliveira Cerqueira Bandeira, que representa o número 1 da facção criminosa Comando Vermelho (CV) Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, é acusada de tentar extorquir o deputado estadual do Ceará, Simão Pedro, líder da bancada do PSD, e de fazer diversas ameaças de morte contra ele e sua família. A mulher, que também atuava como influenciadora nas redes sociais, foi presa em 23 de janeiro deste ano em Natal (RN), por suspeita de integrar o grupo criminoso que praticava essas extorsões. 

No último dia 22 de maio, a Justiça negou liberdade provisória à advogada, que está recolhida na Companhia Independente de Policiamento de Guardas (CIPGB/PMRN), na capital do Rio Grande do Norte.

Paloma usa a advocacia para gerar conteúdo nas redes sociais e já chegou a dizer que foi salva de um ataque a tiros em razão do silicone que utilizava no peito.

"Aqui a gente não perdoa nem família." "Sou geral do Brasil e do Ceará do setor de cobranças." São algumas das mensagens de Paloma para o assessor parlamentar de Simão, às quais o Diário do Nordeste obteve acesso.

As mensagens revelam um suposto "combinado", em que Paloma cobra R$ 70 mil e depois mais R$ 51.600, que seriam de lucro caso "tivesse ocorrido a segunda parte da prestação do serviço". Os fatos são negados pelo parlamentar, que afirmou não haver dívidas. 

Veja as conversas 

Prints de conversas onde advogada do CV supostamente ameaça deputado.
Legenda: Conversas sob tom de ameaça, segundo a Polícia, pediam dinheiro de suposto 'combinado'.
Foto: Reprodução.

Prints de conversas onde advogada do CV supostamente ameaça deputado.
Legenda: Conversas ameaçavam até a família do deputado.
Foto: Reprodução.

Prints de conversas onde advogada do CV supostamente ameaça deputado.
Legenda: Advogada foi presa por suspeita de extorsão e ligação com facção criminosa.
Foto: Reprodução.

Aliados à advogada na extorsão contra Simão Pedro estavam o também advogado Antônio Cristiano Sampaio e a esposa, Bárbara Pinheiro. Bárbara foi presa no mesmo dia que Paloma, só que em Fortaleza, no bairro Carlito Pamplona. Ela já foi solta, entretanto, após a Justiça conceder um habeas corpus em 31 de março. 

Segundo a investigação, ela e o esposo chegaram a ir à sede da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará (Alece) para tentar acessar o gabinete do parlamentar, mas tiveram a entrada negada. Esse episódio fez Cristiano, que é advogado, entrar com um relato de violação de prerrogativas no Centro de Apoio e Defesa das Prerrogativas da OAB-CE, afirmar que foi cerceado ao entrar na Alece para uma reunião com outro deputado. 

A investigação aponta que o impedimento de entrar na Alece fez surgir novas ameaças contra o deputado Simão. 

"(sic) Estou decepcionada." Bloquear entrada na Assembleia, sabendo que, se for pegar, não pega é lá dentro. A gente aqui tirando serviço na calma e vocês apressando", disse a advogada presa. [/citação]

Veja também

Suposta dívida de emendas parlamentares e acusação de agressão 

Ao ser interrogado, Antônio Cristiano afirmou que a cobrança de dívidas era decorrente de uma "prestação de serviços relacionada à intermediação de emendas parlamentares". Ele não foi preso junto com a esposa e com a outra advogada. 

Durante o processo, a defesa de Bárbara já chegou a afirmar que o grupo e o político tinham relação prévia, devido à prestação de serviços à Universidade do Parlamento Cearense (Unipace), entidade da qual o deputado é presidente. 

Ao Diário do Nordeste, o deputado afirmou que não sabe o motivo das extorsões, e diz que Bárbara tentou alegar que foi agredida e ameaçada por ele dentro do gabinete. A mulher chegou a fazer um Boletim de Ocorrência (B.O) por ameaça, em 13 de novembro de 2025. O inquérito policial não tratou do motivo das extorsões.

Uma queixa-crime foi protocolada ao Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE) denunciando a suposta ameaça, ingressada pela própria advogada Paloma. 

"Ela tentou criar também essa situação para me extorquir. Só que estava todo mundo lá no gabinete e todos viram que eu só pedi para ela se retirar", disse o parlamentar em entrevista ao Diário do Nordeste. 

O deputado estadual afirmou que, assim que as ameaças iniciaram, ele acionou a Polícia Legislativa da Alece. Em novembro de 2025, o deputado divulgou uma nota nas redes sociais sobre ameaças à integridade física, também estendidas a ele e a servidores. Confira: 

"Eu torço para que as pessoas que fizeram isso, e não foi só comigo, porque essa pessoa tem histórico, que realmente sejam punidas, e (com) uma punição justa", disse Simão Pedro.

'Pronta e preparada e querendo guerra' 

Em uma das conversas nas quais o parlamentar foi ameaçado por vários dias, a advogada deixou claro que poderia "ir a guerra" e disse estar "pronta, preparada e querendo". Ela chegou a questionar se usava um "fuzil ou uma 9 milímetros", referindo-se a armas. 

"(sic) Ah  se eles [o deputado e outra pessoa não identificada] levassem uma topada os 2 já tem bo o deputado vai ter sete carregando e não sete julgando. Claro que falo isso hipoteticamente, jamais seria capaz"

Conforme a investigação, a mensagem acima sugere que Simão Pedro terá "sete carregando" o seu caixão, quando morrer, e não "sete julgando" no banco dos réus, na Justiça. 

De acordo com a denúncia do MPCE, para tentar intimidar o parlamentar, ela mandou uma reportagem que mostra a execução do ex-prefeito da cidade de São Pedro, no Rio Grande do Norte, insinuando que o mesmo poderia acontecer caso ele não cedesse às extorsões.

Miguel Nasser foi morto a tiros em uma área nobre de Natal, supostamente porque ele chefiava um grupo criminoso que "rivalizava" com a facção à qual os suspeitos de cometer o crime pertenciam. 

"(sic) Aqui em natal quando a gente pegou o prefeito Miguel Nasser com 30 tiros, ele também desacreditou", escreveu Paloma. 

Relação com Marcinho VP, líder do CV 

A investigação destaca que Paloma é conhecida por defender Marcinho VP, e teria um vínculo de amizade com o criminoso, visto que os dois escreveram um livro juntos, intitulado "Execução Penal Banal Comentada". 

Algumas das defesas conhecidas ocorreram quando ela pediu que VP tivesse direito a visitas com contato físico e questionou a nomenclatura de "líder do CV". 

"Por telepatia?", disse a advogada em entrevista a um portal do Mato Grosso. Marcinho VP, que é pai de Oruam, já está há quase duas décadas no sistema penitenciário federal, onde Paloma tem constante atuação. Em uma das mensagens ameaçadoras contra o deputado cearense, ela chega a falar que ficou "um dia inteiro" em um presídio. 

Segundo o Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE), "há indícios incontestáveis de autoria e materialidade no que se refere à promoção e integração das denunciadas em organização criminosa". 

Defesa nega extorsão e fala sobre 01 do CV 

Em nota, a defesa de Paloma Gurgel, patrocinada pelo advogado José Hélio Arruda Barroso, afirmou que a manutenção da prisão preventiva da cliente evidencia "desequilíbrio na análise das medidas cautelares", visto que a outra acusada, Bárbara Pinheiro, teve a liberdade deferida por habeas corpus. 

O posicionamento cita que a advogada tem um filho de 8 meses com Síndrome de Down, que "necessita de cuidados permanentes e especializados". 

Segundo jurisprudência do Supremo Tribunal Federal (STF), mães com filhos menores de 12 anos, gestantes ou responsáveis por crianças têm o direito legal de converter a prisão preventiva em prisão domiciliar. No entanto, o entendimento não contempla crimes cometidos com violência ou grave ameaça e praticados contra os próprios filhos ou descendentes.

"A defesa enfatiza que jamais a advogada Paloma Gurgel praticou qualquer crime de extorsão contra o deputado estadual Simão Pedro. Conforme sustentado desde o início da investigação, a causídica foi regularmente constituída pela corré Barbara Pinheiro Souza para atuar profissionalmente na cobrança de valores que esta alegava possuir a receber do parlamentar, relacionados, segundo afirmado pela contratante, à intermediação de recursos federais destinados ao Município de Orós/CE, cuja prefeita é mãe do deputado estadual", pontua a nota de defesa. 

O advogado diz ainda que a manutenção da prisão "sem dúvidas" "encontra-se fortemente contaminada por uma indevida tentativa de vincular a advogada à figura de Marcio dos Santos Nepomuceno, conhecido nacionalmente como “Marcinho VP”, em razão de sua atuação profissional e acadêmica no âmbito da advocacia criminal e da execução penal". 

"Cumpre destacar que Paloma Gurgel é coautora da obra “Execução Penal Banal Comentada”, escrita em conjunto com o defensor público Luciano Tourinho e Marcio Nepomuceno. Trata-se de trabalho de natureza estritamente acadêmica, voltado à crítica do sistema penitenciário brasileiro e à falência das políticas de ressocialização, exercício plenamente protegido pela liberdade intelectual, pela liberdade de expressão e pelas prerrogativas da advocacia".

Este conteúdo é útil para você?
Assuntos Relacionados