Gerente de 'Doze', líder do tráfico do CV que se esconde no RJ, é condenada por organização criminosa

Mulher seria a 'frente' do tráfico em Ipu, no interior do Ceará, e aliada a um dos homens mais procurados do Ceará

Escrito por
Matheus Facundo matheus.facundo@svm.com.br
Foto de Maria Lucinda, mulher condenada e apontada como gerente do tráfico de drogas para o CV no Ceará.
Legenda: Lucinda é apontada pela Justiça por uma série de crimes relacionados à facção criminosa.
Foto: Reprodução.

Uma mulher apontada como "gerente" do tráfico de drogas na região do município de Ipu, no interior cearense, foi condenada pela Justiça do Ceará pelo crime de organização criminosa, de acordo com decisão publicada em autos no último dia 14 de maio. Ela seria o "braço direito" de Anástacio Paiva Pereira, o 'Doze', um dos chefes do Comando Vermelho (CV) que figura na lista dos Mais Procurados do Ceará e também nacionalmente. 

Captura de tela da página de Anastácio Pereira Paiva, o Doze, do CV, um dos mais procurados da SSPDS, no Ceará.
Legenda: Doze é um dos homens mais procurados do Estado.
Foto: Reprodução/SSPDS.

Maria Lucinda Pinho de Farias foi sentenciada pela Vara de Delitos de Organizações Criminosas a 9 anos, 7 meses e 15 dias de reclusão, em regime fechado. 

Conforme documentos aos quais o Diário do Nordeste obteve acesso, a mulher também era uma figura de liderança na facção, mas atuava abaixo do comando de 'Doze' e de Luiz Antônio da Costa Sampaio, o 'XT', referido como "diretor". 

Testemunhas sigilosas declararam durante audiências que temiam pela Lucinda e os outros chefes do CV em Ipu. À mulher, são atribuídas ainda mortes.

Por meio de nota, a defesa de Maria Lucinda, feita pela advogada criminalista Roberta Studart Guimarães Machado, informou que "recebeu com serenidade a decisão proferida no processo que tramita perante a Vara de Delitos de Organizações Criminosas de Fortaleza". 

"A defesa destaca que sempre confiou no devido processo legal, no contraditório e na ampla defesa, princípios constitucionais indispensáveis ao Estado Democrático de Direito. Ressalta ainda que Maria Lucinda permaneceu à disposição da Justiça durante toda a instrução processual, colaborando com os atos processuais necessários, e que a defesa continuará adotando todas as medidas jurídicas cabíveis para assegurar a correta aplicação da lei e a preservação dos direitos fundamentais da acusada. A advogada Roberta Studart reforça que processos dessa natureza exigem cautela, responsabilidade e respeito à presunção de inocência, evitando-se julgamentos precipitados fora dos autos", pontuou a advogada. 

'Frente do Ipu' 

Em áudio, Lucinda foi flagrada afirmando que é a "frente do Ipu", ou seja, a pessoa responsável pelo grupo criminoso na região. Em alguns diálogos obtidos em celulares apreendidos com suspeitos, ela chega a afirmar que "os caras do Ipu são fechamento com ela". 

"(sic) Não envolve o Comando aí, não, resolve por aí". “(sic) Fica tu sabendo que eu sou a frente do Ipu”. Esses foram alguns trechos falados pela condenada, e que afirmam que ela se apresenta "como pessoa com autoridade e representatividade dentro do grupo criminoso na região, indicando que exerce função de referência ou liderança no município de Ipu/CE". 

No tocante especificamente à Maria Lucinda Pinho Farias, as investigações indicam que ela exerceria posição de liderança dentro do Comando Vermelho na região, sendo apontada por testemunhas como uma das responsáveis pelo envio de drogas para o município e pela articulação do tráfico local, atuando em associação com outros integrantes da organização
Vara de Delitos de Organizações Criminosas
Sentença

Mais de uma testemunha afirmou, durante as investigações, que no município de Ipu só entra droga por meio de Maria Lucinda, e que ela era uma pessoa temida. 

Um áudio transcrito, atribuído a Lucinda e presente no processo criminal, demonstra o fato:

"(sic) Boa tarde pra nois aí, deixa eu te falar aqui... os caras do Ipu são fechamento comigo. Até em cima da batida aí, o dono do Ipu, o SAMURAI, é meu irmão, entendeu? deixa só falar uma coisa pra ti aqui... não envolve o comando [CV] nisso aí não, resolve por aí! porque se a gente foi resolver a gente resolve de outra forma, entendeu? Eu não quero pegae pesado com você não. Mas não fique ameaçando ela não, porque você sabe que, de bandido para bandido, aqui também tem bandido, e eu sou bandida, viu? só tenho isso para dizer para você! macho, resolve isso aí direito! (sic)"

Ligação com criminoso escondido no RJ 

Lucinda faz parte de um grupo de 16 pessoas denunciadas por organização criminosa e tráfico de drogas pelo Ministério Público do Ceará (MPCE) em dezembro de 2024. Atualmente, ela está presa na Unidade Prisional de Sobral, onde deve permanecer, após a Justiça negar seu direito de recorrer da sentença em liberdade. 

Assim como Lucinda, Anástacio, o 'Doze', também figura entre os denunciados e é um conhecido foragido da Justiça. Mesmo escondido no Rio de Janeiro, ele exerce comando do CV sobre municípios cearenses como Ipu, Santa Quitéria, Hidrolândia, Varjota, Reriutaba, Ipu, Ipueira e Guaraciaba do Norte, conforme o MP do Ceará. 

O homem é considerado perigoso e possui mandados de prisão em aberto por crimes como homicídio, organização criminosa, tráfico de drogas, corrupção de menores e porte ilegal de arma de fogo. 

'Doze' é apenas um dos criminosos do CV que se refugiam em comunidades do Rio de Janeiro. Muitos integram listas de foragidos perigosos, como José Mário Pires Magalhães, o 'Zé Mario' ou 'ZM', conhecido como o 01 do CV no Ceará. Há ainda Manoel Messias Domingos Neto, o 'Camuflado'.

Os criminosos levam 'vida de luxo' na Rocinha e comandam à distância o tráfico de drogas e armas, segundo o Diário do Nordeste apurou.

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