Youtuber cearense de 16 anos diz que sofreu abusos do pai: ‘Não aguento mais ter medo’

Adolescente relata traumas e medidas protetivas e diz não se sentir ouvida por autoridades.

(Atualizado às 11:50)
Mão aberta em primeiro plano, com os dedos estendidos voltados para a câmera, ocupando o centro da imagem. Ao fundo, uma pessoa aparece desfocada em ambiente interno, com cores neutras.
Legenda: Adolescente cearense relatou o caso em vídeo publicado nas redes sociais (foto ilustrativa).
Foto: fizkes/Shutterstock.

Uma youtuber cearense conhecida por produzir conteúdo sobre games, de apenas 16 anos, foi às redes sociais no último sábado (16) para denunciar a negligência de órgãos públicos na apuração de supostos abusos cometidos pelo próprio pai contra ela e a mãe.

Por questões de segurança e por se tratar de uma menor de idade, o Diário do Nordeste não mencionará o nome da jovem.

Natural de Tianguá, na Serra da Ibiapaba, a adolescente tem quase 350 mil seguidores nas redes sociais e acumula milhões de visualizações em vídeos. A postagem gerou uma onda de apoio sobre a situação. 

Alerta de gatilho: esta reportagem contém relatos de violência doméstica, abuso psicológico e sofrimento emocional. O conteúdo pode ser sensível para algumas pessoas. Caso você seja uma delas, a leitura é desaconselhada.

Segundo a adolescente, ela e a mãe estão afastadas da internet há algum tempo porque estão “traumatizadas e com medo”. Porém, ela diz que tomou a iniciativa de gravar um vídeo denunciando porque tem o direito “de ser ouvida e respeitada” e que “chega de silêncio”.

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Sem citar detalhes processuais, ela afirma que teme ser afastada da mãe após denúncias que considera falsas. Segundo a adolescente, o pai teria acionado a Justiça acusando a mãe de maus-tratos e cárcere privado. Ela afirma que o caso passou a envolver o Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE) e o Conselho Tutelar de Tianguá.

“Os órgãos públicos estão do lado dele”, desabafou, afirmando que ela e a mãe teriam sido vítimas de episódios de violência doméstica ao longo dos anos. “Cresci vendo meu pai maltratar a minha mãe”, disse. 

Segundo o relato, o homem também teria feito ameaças contra familiares da mulher e provocado situações de intimidação, quebra-quebra e vergonha dentro de casa.

No vídeo, a garota narra consequências emocionais que atribui ao ambiente familiar vivido durante a infância e adolescência. “Eu tenho crise de pânico, não consigo sair de casa, não consigo ir para a escola”, declara. 

Ela diz que vivenciou internações psiquiátricas e até episódios de ideação suicida após a separação dos pais.

Sensação de insegurança

A jovem afirma ainda que existem medidas protetivas em vigor contra o pai, mas alega que ele continuaria frequentando áreas próximas à residência da família, mesmo utilizando tornozeleira eletrônica. “Ele continua passando aqui porque quer fazer medo”, disse.

Diante dessa falha, outro ponto levantado pela adolescente é a atuação dos órgãos de proteção à infância. Ela afirma não se sentir ouvida pelas instituições responsáveis pelo caso. “Agiram como se eu estivesse mentindo”, declarou ao comentar uma escuta oficial realizada anteriormente.

A jovem também criticou o Conselho Tutelar de Tianguá e afirmou suspeitar de favorecimento ao pai devido a vínculos anteriores com integrantes do órgão. “Estão dando voz ao abusador”, disse no vídeo. 

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Ao final da gravação, a adolescente afirma ter decidido tornar a situação pública por acreditar que não estava sendo ouvida pelas autoridades. “Eu não aguento mais ter medo”, declarou. “Venho aqui pedir Justiça.”

Ela diz que não apresentou provas públicas das acusações porque não há viabilidade para isso. “Então todos os traumas não são provas? Como a gente ia pegar um celular e gravar?”, questiona.

Defesa da família cita gravidade do caso

A reportagem buscou contato com a mãe da adolescente para um posicionamento sobre a situação. Segundo os advogados do caso, o primeiro pedido de medida protetiva feito por ela é de 2022, logo após o divórcio do ex-casal. A mãe também não será identificada nesta matéria.

No mesmo ano, relata a defesa, a adolescente iniciou um tratamento psicológico, relatando diversos abusos que teriam acontecido por meio da figura do pai ao longo dos anos. 

Mesmo com a medida protetiva em vigência, ele teria descumprido a regra de permanecer a certa distância da família, o que teria levado os advogados do caso a solicitar a prisão do homem. Entretanto, apenas o monitoramento eletrônico e a disposição do botão de pânico foram deferidos.

Agora, em 2026, uma nova medida foi aprovada. Os relatos são de que ele continua a descumpri-la, o que tem resultado em uma série de mensagens informando, por meio do monitoramento, a aproximação do homem alvo das denúncias. 

A avó da adolescente, com quem ela e a mãe residem, também solicitou uma medida protetiva. Conforme relato dos advogados, a rotina familiar mudou completamente com a presença constante do pai nos arredores da casa onde moram. 

Por conta disso, os advogados que representam os interesses da jovem e da mãe, Liana Mousinho, Wesley Felipe e Pedro Brasil, apontam que o risco do caso é de extrema gravidade, citando mais uma vez a necessidade da prisão do homem. 

"É de suma importância que a Justiça de Tianguá se posicione e analise todo o acervo probatório para fins de tomar a decisão correta para garantir a proteção e bem-estar da menor e de sua genitora", complementa a nota oficial dos advogados do caso.

A defesa do homem alvo das denúncias não foi localizada pelo Diário do Nordeste.

O que diz o Conselho Tutelar?

Em nota publicada nas redes sociais, no mesmo dia da publicação da garota, o Conselho Tutelar de Tianguá destacou que o caso tramita em segredo de Justiça e é acompanhado por diversos órgãos de proteção, entre eles o MPCE, o Judiciário, a Defensoria Pública e outras instituições.

A entidade afirma que atua “com responsabilidade, ética, legalidade e absoluto compromisso com a proteção integral prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)” e repudia “quaisquer acusações infundadas que atentem contra a honra, a credibilidade e a seriedade do trabalho desenvolvido”.

O Conselho diz que jamais “favoreceu ou divulgou informações sigilosas relacionadas aos casos acompanhados” e todas as providências necessárias teriam sido adotadas “de forma transparente, responsável e em estrita conformidade com os princípios legais e institucionais”.

A nota informa ainda que as declarações feitas publicamente pela adolescente “já estão sendo devidamente analisadas” e que serão tomadas “as medidas legais cabíveis”, incluindo encaminhamentos ao MPCE e ao Poder Judiciário para que “os responsáveis pelas denúncias apresentem as respectivas provas e esclarecimentos”.

O Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE) também foi demandado sobre o caso pelo Diário do Nordeste. Quando houver posicionamento, este texto será atualizado.

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