Justiça mantém prisão de advogado e empresário acusado de lavar dinheiro para 'Escobar brasileiro'
O réu é acusado de movimentar mais de R$ 40 milhões em cinco anos, apesar de declarar renda bruta de R$ 164 mil
A Justiça do Ceará negou o pedido de habeas corpus feito pela defesa técnica do advogado Adalto Sales de Matos Júnior. Ele é acusado de lavar dinheiro para favorecer financeiramente indivíduos ligados a facção criminosa Massa Carcerária/Tudo Neutro (TDN). A decisão foi proferida na última terça-feira (14).
Conforme consta em documentos obtidos pela reportagem, o réu foi preso em Várzea Grande (Mato Grosso) como parte da Operação Extramuros, deflagrada pela Força Integrada de Combate ao Crime Organizado no Ceará (Ficco) em abril de 2024. Antes, ele atuava como advogado e empresário no ramo de alimentos e bebidas.
Durante as investigações, três pessoas jurídicas foram identificadas como associadas ao nome do acusado, embora apenas uma estivesse em atividade. Para as autoridades, Adalto Sales criou essa empresa como "fachada" para realizar movimentações ilícitas de valores que não condiziam com a renda declarada.
teriam sido movimentados pelo réu e outros acusados de integrar a organização criminosa, conforme contas bancárias analisadas pela Ficco, informou a Polícia Federal.
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Em 19 de fevereiro, Adalto Sales foi ouvido sob custódia, e negou qualquer participação no esquema. Quase dois meses depois, em 15 de abril, o Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE) apresentou as alegações finais em que solicita a condenação de Adalto Sales pelos crimes de organização criminosa e lavagem de dinheiro.
É forçoso concluir pelo elevado grau de reprovabilidade que deve recair sobre quem integra a organização criminosa MASSA \ NEUTRO, fator que representa grave ofensividade social dada precipuamente as altíssimas somas de dinheiro envolvidas no financiamento a essa atividade criminosa prestadas pelos denunciados.
Atualmente, o denunciado segue preso preventivamente, enquanto aguarda a sentença ainda a ser proferida pelo Poder Judiciário do Ceará.
O que disse a defesa
Segundo a manifestação da defesa do acusado no processo, analisado pelo Diário do Nordeste, a demora na formulação de uma sentença condenatória, ou absolutória, é responsável por constrangimentos ilegais na manutenção da prisão.
A equipe também contesta a continuidade do cárcere, pois não avalia que os crimes cometidos pelo réu são graves o suficiente para justificar a medida, e define o processo criminal como "desprovido de suporte fático e jurídico".
O pedido foi negado pelo desembargador Francisco Jaime Medeiros Neto, do Tribunal de Justiça do Estado do Ceará (TJCE). Para ele, "seria precipitado conceder a pretensão final almejada, sem antes ouvir a Autoridade Coatora e o Ministério Público".
[Atualização 31/10/2025, às 7h37] Após a publicação da reportagem, a defesa de Adalton Sales, composta pelo advogado Lauro Gonçalo da Costa, entrou em contato com o Diário do Nordeste e negou todas as acusações imputadas ao acusado.
Segundo a equipe, "Adalto exerce atividade comercial lícita e regular, voltada à reciclagem e revenda de bebidas, confirmada por relatórios fiscais, notas de clientes e testemunhos de defesa que esclareceram detalhadamente sua rotina de trabalho".
Quanto às movimentações financeiras consideradas suspeitas pelas autoridades, a defesa afirma que "não há qualquer indício de dissimulação de valores ou ocultação de bens" e também que "jamais houve bloqueio de contas, retenção de valores ou qualquer indício de irregularidade financeira, o que reforça a lisura de sua atuação".
"Por fim, os bens imóveis vinculados ao seu nome foram adquiridos antes do início das investigações, inexistindo qualquer nexo temporal ou causal entre o patrimônio e os fatos apurados", finaliza a defesa.
Investigações do caso
O relatório da Ficco, obtido pelo Diário do Nordeste, detalha como a organização criminosa cearense, criada em 2021, "lavava" o dinheiro do tráfico de drogas, com escoamentos por todo o Brasil. Os alvos da investigação movimentaram mais de R$ 165 milhões, em 41 contas bancárias (entre pessoas físicas e pessoas jurídicas) - que foram bloqueadas pela Justiça Estadual com a deflagração da Operação Extramuros.
Segundo as investigações policiais, os investigados recebiam dinheiro nas contas bancárias para repassar para traficantes que atuavam na fronteira Brasil-Bolívia. O advogado morava próximo à fronteira, enquanto os médicos estudavam Medicina na Bolívia. É nesse contexto que Adalto Sales atuava.
Conforme a denúncia apresentada pelo MPCE, que serviu como base para as alegações finais, durante o período de abril de 2021 a outubro de 2021, Adalto movimentou, em suas contas, mais de R$ 5 milhões, sendo R$ 2.700.000,00 em crédito e R$ 2.800.000,00 em débitos.
É o valor estimado movimentado pelo réu entre outubro de 2021 e agosto de 2022, consistindo em R$ 6.130.933,93 em créditos e R$ 6.120.862,60 em débitos.
O documento também destaca que "entre os anos de 2018 e 2023, as contas associadas ao CPF de Adauto movimentaram mais de R$ 40 milhões. No entanto, a renda bruta declarada por ele durante todo esse período foi de apenas R$ 164.673,87".
É válido mencionar que, por conta da suposta empresa de compra e venda de bebidas e alimentos, é dito que o réu viajou constantemente à Bolívia para negociar. A fronteira com o País estrangeiro, segundo o relatório da Ficco, era utilizada pelos criminosos para traficar armas e drogas para o Brasil. Isso levou a Justiça a crer que Adalto conhecia o esquema criminoso, e que, conforme relatórios fiscais fornecidos pela Polícia Federal (PF), também participava das ações.
Ligações com a 'Massa Carcerária'
Nas investigações conduzidas pelas Forças de Segurança, foi revelado que Adalto Soares recebeu cerca de R$ 125 mil para Francisco Thiarlle Oliveira Batista, apontado como o principal operador financeiro da facção criminosa Massa Carcerária.
Francisco Thiarlle teria, sozinho, movimentado R$ 8,3 milhões, enquanto a irmã, mais R$ 1,6 milhão, entre 2018 e 2022. Movimentações suspeitas, segundo o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), para duas pessoas que trabalhavam como conferentes de carga e descarga.
A irmã de Francisco Thiarlle, Diemes Batista, também participava do esquema criminoso. Segundo documentos obtidos pela reportagem, ela realizou transações financeiras com a empresa Fortaleza Big Holding LTDA - que foi investigada na operação The Fallen, da PF, por ter relação com o narcotraficante Sergio Roberto de Carvalho, o 'Major Carvalho', também conhecido como 'Escobar brasileiro'.
O processo também aponta que Adalto enviava dinheiro para Arthur Wágner Silva de Paula, nome falso utilizado por Francisco Jefferson Silva de Paula, o 'Irmão F', considerado o número 1 da Massa, que também está preso. Ele também teria sido beneficiário do Auxílio Brasil e do Bolsa Família.
"Adalto Sales recebeu diversos créditos de empresas do ramo de baterias automotivas e há várias movimentações de crédito realizadas com pessoas jurídicas que, provavelmente, não existem de fato, além de serem apontadas operações injustificadas, o que evidencia a irregularidade das operações financeiras", completa o relatório da Ficco.
Confira a nota completa da defesa de Adalto Sales de Matos Júnior
Inicialmente, quanto à afirmação de que Adalto estaria na Bolívia, esclarece-se que tal informação é inverídica. O genitor do acusado reside em cidade fronteiriça, razão pela qual Adalto, eventualmente, realiza visitas familiares, não havendo qualquer vínculo comercial ou atividade fora do território nacional.
No Relatório de Interceptação Telefônica, elaborado durante as investigações, não há qualquer registro de contato telefônico entre Adalto e os demais denunciados, tampouco diálogos que guardem relação com os fatos apurados.
De igual modo, o Auto Circunstanciado, referente à análise da conta Google do acusado, concluiu que não existiam arquivos relevantes à investigação, e o Auto Circunstanciado, relativo à quebra de sigilo de dados, igualmente apontou ausência de informações de interesse investigativo.
Durante as buscas realizadas na residência de Adalto, nada de ilícito foi encontrado, tampouco objetos ou documentos que pudessem relacioná-lo aos fatos em apuração. Embora existam relações bancárias ocasionais com alguns dos demais investigados, não há qualquer prova de participação do acusado nas condutas criminosas imputadas.
Ao contrário, as provas constantes nos autos demonstram que Adalto exerce atividade comercial lícita e regular, voltada à reciclagem e revenda de bebidas, confirmada por relatórios fiscais, notas de clientes e testemunhos de defesa que esclareceram detalhadamente sua rotina de trabalho.
Importante frisar que a autoridade policial, ao concluir o inquérito, não indiciou Adalto por integrar organização criminosa, diante da inexistência de elementos mínimos nesse sentido.
Quanto à suposta lavagem de dinheiro, o Relatório de Evolução Patrimonial (fls. 1282) demonstra que não houve crescimento patrimonial significativo durante o período das investigações, sendo inclusive registrado que os bens de Adalto já eram de sua propriedade antes dos fatos. A movimentação financeira do acusado é compatível com sua capacidade comercial e profissional, pois ele atua como empresário e advogado, possuindo clientela em diversos estados do país — todos identificados nos autos e sem relação com os demais denunciados.
Não há qualquer indício de dissimulação de valores ou ocultação de bens. Os rendimentos de Adalto são provenientes de suas atividades lícitas, sem repasses a terceiros investigados, e sua relação bancária é transparente e estável, como reconhecido em relatórios oficiais. Além disso, jamais houve bloqueio de contas, retenção de valores ou qualquer indício de irregularidade financeira, o que reforça a lisura de sua atuação.
Por fim, os bens imóveis vinculados ao seu nome foram adquiridos antes do início das investigações, inexistindo qualquer nexo temporal ou causal entre o patrimônio e os fatos apurados. Diante de todo o exposto, resta evidente que as informações publicadas não refletem a realidade dos autos e causam indevido prejuízo à imagem e à reputação de Adalto Sales de Matos Junior, pessoa que sempre pautou sua vida profissional e pessoal na legalidade e no trabalho honesto.
*Estagiário sob supervisão do jornalista Emerson Rodrigues