Como funcionava o esquema internacional que fez trio ser preso com 248 kg de cocaína no Ceará

Esquema contava com motorista que transportava a droga e homens que 'escoltavam' caminhão para burlar a fiscalização.

Escrito por
Matheus Facundo matheus.facundo@svm.com.br
“Pilha de tabletes brancos embalados, contendo cocaína, com selos circulares impressos, colocados sobre uma balança em ambiente interno com piso claro e extintor de incêndio ao fundo.
Legenda: Os quase 250 kg de cocaína foram apreendidos na BR-222, em Caucaia.
Foto: Reprodução/Relatório PF.

A prisão de três homens pelo tráfico de drogas de 248,9 quilos de cocaína na BR-222, em Caucaia, em abril de 2024, revelou um esquema internacional que virou alvo de uma investigação da Polícia Federal (PF) e foi denunciado pelo Ministério Público Federal (MPF). O processo segue na fase de instrução, no qual acusação e defesa apresentam provas e alegações, mas o MPF pediu, no último dia 10 de fevereiro, que a Justiça condene o trio por tráfico de drogas e associação para o tráfico, com agravante para o caráter transnacional do delito. 

Documentos aos quais o Diário do Nordeste teve acesso mostram que a análise da Delegacia de Repressão às Drogas da Superintendência de Polícia Federal (PF) no Ceará descobriu que no celular de um dos presos havia conversas no WhatsApp com um número da Bolívia, o que é um indício de que a cocaína veio de fora do país

Segundo o documento, o território boliviano é um dos principais locais de fornecedores de cocaína identificados nas investigações em curso na delegacia. As evidências de que a rota da droga apreendida no Ceará faz parte de um esquema internacional se fortaleceram, pois há também troca de mensagens com um número do Paraguai, e um dos réus é paraguaio. 

Os réus são: 

  • Carlos Ricardo Zago: cidadão do Paraná que dirigia o caminhão onde foram encontrados os 248,9 kg de cocaína.
  • Delmir Fanin: cidadão do Paraná, que conduzia um Corolla suspeito; já teve condenação anterior por tráfico de drogas.
  • Jorge Antonio Quiñonez Gonzalez: cidadão do Paraguai que estava como passageiro do Corolla.

Além da condenação, o MPF solicitou a perda dos bens dos réus: o caminhão Volvo (onde a cocaína foi escondida) e o Toyota Corolla (“batedor da droga”) envolvidos no esquema. 

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'Batedor de drogas'

A apreensão da droga foi realizada pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) na madrugada do dia 14 de abril de 2024, após o setor de inteligência da Corporação identificar um caminhão sem nota fiscal, sem manifesto e, "provavelmente vazio" que veio do Paraná, sendo acompanhado por um automóvel Corolla, veículo reconhecido pelos agentes como "batedor de drogas".

Carroceria vazia de caminhão com piso de madeira e correntes metálicas ao lado da imagem frontal de um carro branco estacionado em área externa. O caminhão transportava drogas e o carro fazia a escolta do caminhão.
Legenda: Caminhão que escondia as drogas era escoltado por dois homens em um carro Corolla, que trafegavam por rodovias federais.
Foto: Reprodução/Relatório PF.

Um "batedor", na linguagem policial, é um carro que faz a escolta e dá suporte ao crime de tráfico de drogas. O veículo fazia o "reboque" do caminhão, e "batia" os percursos para evitar possíveis fiscalizações policiais e alertar ao motorista do caminhão no qual a droga estava escondida. 

Nesse caso, os batedores eram Delmir Fanin (condutor) e Jorge Antonio Quiñonez Gonzalez (passageiro). Eles foram parados pela PRF, no km 11 da BR-222, em Caucaia. De acordo com o depoimento de um dos policiais rodoviários federais que realizaram a abordagem, Fanin teria tentado alertar Carlos Zago, que dirigia o caminhão com a cocaína, mas ele não conseguiu burlar a fiscalização. 

O condutor do Corolla parou o carro após o posto da PRF, em um local escuro. Ao ser abordado, tentou convencer a equipe da PRF a ir para outro local com sinal de internet para consultar a placa, como forma de despistar os agentes.

Após serem presos em flagrante, tanto os “batedores da droga” quanto o motorista do caminhão com os entorpecentes afirmaram que trabalhavam com agricultura. Delmir e Jorge disseram estar no Ceará em busca de terrenos para investir, enquanto Carlos se disse motorista transportador de grãos. As declarações foram consideradas como suspeitas pelos agentes, que prosseguiram com o flagrante.

Os ocupantes do carro negaram conhecer o motorista do caminhão, mas a análise dos registros de mensagens e ligações nos celulares apreendidos mostra que eles estavam em contato, apesar de eles não usarem os nomes verdadeiros nos contatos. Jorge teria enviado as seguintes mensagens para Carlos em 10 de abril de 2024: "Se ajeita amigão (sic). [...] Vamos andar". 

Captura de tela de conversa de WhatsApp datada de 2024‑04‑10. Contém mensagens recuperadas do celular de um acusado de tráfico de drogas. Um contato com número começando em +595 envia mensagens: 'Amigão' às 14:03:00, 'Se ajeita vamos andar' às 14:03:07 e 'Posto lauani' às 14:05:59. Outro número, iniciando com +55469, envia uma mensagem às 14:03:38. Há também uma linha amarela informando 'Mensagem desconhecida. [ID: 150101]' registrada às 14:05:32.
Legenda: Passageiro do veículo 'batedor' em contato com motorista do caminhão que carregava as drogas.
Foto: Reprodução/Relatório PF.

Os dados extraídos e analisados revelaram informações substanciais que corroboram com as participações dos três investigados no tráfico de drogas. Tais dados incluem registros de chamadas, mensagens instantâneas, contatos salvos, pesquisas realizadas e conexões de rede, permitindo a identificação de elementos-chave na operação criminosa
Polícia Federal
Relatório investigativo

Ainda de acordo com a apuração da Delegacia de Repressão aos Entorpecentes, foi desvendada uma operação de tráfico de drogas "altamente organizada, com funções bem definidas entre os envolvidos"

Rota do tráfico 

De acordo com a investigação, o caminhão dirigido por Carlos saiu do Paraná, em data não especificada, enquanto o Corolla que iria servir de escolta começou a ser usado no dia 4 de abril de 2024, quando Delmir e Jorge viajaram de avião de Cascavel (PR) para Fortaleza. Assim que chegaram à Capital cearense, saíram com o carro em direção ao interior do Ceará, além de passar por estados que fazem a divisa, como o Piauí, segundo dados de monitoramento.

Registros do sistema de monitoramento de tráfego da PRF apontam que, no dia 13 de abril de 2024, horas antes da abordagem policial, os dois veículos passaram a trafegar juntos, com uma pequena diferença de intervalo. 

Com base em informações de câmeras, consultas e relatos da PRF, o caminhão e o Corolla foram vistos juntos nas seguintes datas e trechos:

  • 08/04/2024 – Juntos no Maranhão (cidades de Santa Inês e Matões do Norte).
  • 13/04/2024 – 15h – Juntos em Buriti dos Lopes/PI.
  • 13/04/2024 – 23h – Juntos em Canindé/CE.

O que dizem as defesas 

Em nota, a defesa de Carlos Ricardo Zago, feita pelos advogados Dellano Sousa e Silva e Helivângelo do Carmo Barbosa, informa que tem ciência do pedido de condenação do MPF, e frisa que o processo ainda não está na fase do julgamento: “A apreciação dos fatos e das teses jurídicas deduzidas pelas partes compete exclusivamente ao Juízo competente”.

Os advogados pontuam que, durante o processo, foram apresentados “memoriais técnicos” demonstrando que a acusação contra ele “não se sustenta à luz do conjunto probatório produzido sob contraditório judicial”. A nota pontua ainda que tem “plena confiança na imparcialidade do Poder Judiciário e na correta aplicação das garantias constitucionais que regem o devido processo legal imparcial”. 

A defesa de Jorge Antonio Quiñonez Gonzalez, promovida pelo advogado Lucas Brendo Correia Bezerra, afirmou que vai comprovar a inocência do réu por meio de provas técnicas produzidas ao longo do processo. 

A reportagem solicitou um posicionamento à defesa de Delmir Fanin, mas, até a publicação desta matéria, não houve resposta. 

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