R$ 5 mil por voo: CV usa drones para levar celulares e drogas para presídios na Grande Fortaleza

Policiais interceptaram entregas de celulares e drogas.

Escrito por
Emanoela Campelo de Melo emanoela.campelo@svm.com.br
montagem drones, policiais armados, equipamentos, carregadores apreendidos.
Legenda: A SAP reconhece que "o uso de drones para a entrega de materiais ilícitos em unidades prisionais tem se intensificado, representando uma grave ameaça à segurança e à ordem no sistema prisional do Estado do Ceará".
Foto: Reprodução.

O uso de drones por parte de pilotos aliados às facções criminosas passou a ser uma técnica quase que semanalmente presenciada pelos policiais penais que monitoram os presídios na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF).

Um dos presos em flagrante nas últimas semanas confessou à Polícia ter adquirido um drone no valor de R$ 15 mil e receber por cada 'pacote' colocado dentro de uma unidade prisional o valor de R$ 5 mil.

A reportagem do Diário do Nordeste teve acesso a documentos com detalhes de como o esquema funciona. Outro membro da quadrilha recentemente desarticulada também se preparava para assumir a função de piloto e aumentar a entrada de ilícitos nas unidades.

Francisco David da Silva Sousa, Antônio Cristiano Félix Abreu e Antônio Wellington Sabino Ferreira foram presos em flagrante e tiveram as prisões preventivas decretadas em audiência de custódia. Todos eles foram indiciados por supostamente compor a facção carioca Comando Vermelho (CV).

Cada suspeito exercia função específica dentro do grupo: Cristiano a de ficar dentro do matagal, David pilotando o drone e Wellington como motorista. 

POLICIAIS MONITORAVAM CARRO

Na noite do dia 20 de janeiro, um veículo da marca Volkswagen, modelo Polo Track, cor branca, cruzou novamente a área monitorada pela Inteligência da Secretaria da Administração Penitenciária (SAP), nas imediações do Complexo Penitenciário Itaitinga II.

A imagem mostra diversos materiais apreendidos com criminosos, como um drone, celulares, relógios com aplicativos, drogas e outros equipamentos, em cima de uma mesa.
Legenda: Celulares, relógios com aplicativos, drogas e outros equipamentos foram apreendidos com os suspeitos.
Foto: Reprodução.

O trio estava prestes a 'rebolar' para dentro da Unidade Prisional UP-Itaitinga II, especificamente na Ala D, uma encomenda feita pelo CV, com relógios, celulares e drogas.

Policiais penais da coordenadoria de inteligência da SAP e do Grupo de Ações Penitenciárias (GAP) interceptaram a ação criminosa e levaram os materiais e os suspeitos à sede da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), da Polícia Civil do Ceará (PCCE), em Fortaleza.

Francisco David teria declarado 'espontaneamente' que exercia a função de piloto do drone e "que realizava há meses tal prática, recebendo R$ 5 mil por empreitada, que o drone seria de sua propriedade (modelo DJI Air 3S) e que o veículo ora abordado já teria sido utilizado em outras oportunidades".

David teria negado ser membro do CV, mas assumiu ser 'simpatizante' da facção. 

Antônio Wellington se denominou como motorista de APP, que recebia R$ 300 para participar da ação no entorno dos presídios e que fez recentemente um curso de piloto de drone e que "tinha intenção de fazer essas correrias para ganhar mais dinheiro".

INDICIADOS

O contratante para a entrada do material foi identificado até o momento como 'DG'. Na ocasião foram apreendidos 17 smartwatches (celulares com aplicativos) também foram apreendidos, além de 7 celulares (sendo 4 smartphones), 17 carregadores de smartwatches, 8 baterias para relógio, 17 fontes de carregamentos, um chip e drogas (maconha, cocaína e ecstasy).

A imagem mostra três policiais, com coletes balísticos, realizando a prisão de três homens, que foram deitados no chão de uma via, após saírem de um carro branco.
Legenda: Os suspeitos utilizavam um carro, quando foram abordados e presos em flagrante por policiais penais.
Foto: Reprodução.

O trio foi indiciado pelos crimes de tráfico de drogas (no contexto de abastecimento do sistema prisional), organização criminosa e tentativa de ingresso de aparelho celular em estabelecimento prisional.

A defesa de Francisco David da Silva enviou nota afirmando que o “indiciamento mencionado em relatório da Polícia Civil possui natureza investigativa, própria da fase de inquérito, não representando juízo de culpa ou condenação”.

Conforme a advogada Elaine Maria Mota Araújo, “o caso segue em apuração, cabendo ao Ministério Público a análise dos elementos colhidos e eventual oferecimento de denúncia, com posterior apreciação pelo Poder Judiciário. Por orientação técnica, a defesa não comentará o mérito da investigação. A defesa acompanha o caso e adotará todas as medidas legais cabíveis no âmbito judicial”.

A defesa de Wellington Sabino, representada pela advogada Caroline Medeiros Pinheiro, disse que apesar do indiciamento pela Polícia Civil, "é importante destacar que tal ato constitui etapa preliminar do procedimento investigatório, não representando juízo definitivo de culpa".

Caroline Medeiros informou ainda que a inocência de Wellington Sabino "será devidamente demonstrada". A defesa sustentou que "ele foi vítima da situação investigada, especialmente em face da conduta atribuída aos outros dois indiciados".

Por fim, disse confiar "plenamente no devido processo legal, no contraditório e na ampla defesa, certos de que a verdade dos fatos será esclarecida no decorrer do processo, culminando no reconhecimento de sua inocência pelo Poder Judiciário".

O advogado de Antônio Cristiano Félix não foi localizado pela reportagem. 

EQUIPAMENTO 'ANTI-DRONE'

No ano passado, o Governo do Ceará investiu R$ 1,64 milhão em um equipamento de Inteligência voltado para coibir entregas de ilícitos feitas por meio do uso de drones que sobrevoam os presídios do Estado. 

Conforme o texto publicado no Diário Oficial do Estado, a justificativa para a aquisição é que o "uso de drones para a entrega de materiais ilícitos em unidades prisionais tem se intensificado, representando uma grave ameaça à segurança e à ordem no sistema prisional do Estado do Ceará. As ocorrências, majoritariamente noturnas, são caracterizadas por estratégias que dificultam a detecção pelos policiais penais".

A reportagem apurou que no ano passado policiais penais derrubaram, pelo menos, 20 drones "sobrevoando os perímetros penitenciários". Em 2024 foram oito equipamentos deste tipo 'abatidos'.

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