Justiça decreta prisão de membros do CV acusados de executar homem em mangue e expulsar moradores
Os réus estariam envolvidos no 'Tribunal do Crime'.
A Justiça do Ceará decretou as prisões de quatro membros do Comando Vermelho (CV), réus pela morte de Mauro Célio Sousa, homem executado nos moldes do "tribunal do crime", em uma área de mangue no bairro Quintino Cunha, em Fortaleza, em março de 2025.
A decisão foi proferida pela 6ª Vara Júri da Comarca de Fortaleza no último dia 24 de março, após pedido do Ministério Público do Ceará (MPCE).
Apesar de serem réus por homicídio qualificado, a investigação destaca que os homens também são apontados pela expulsão de diversos moradores do bairro Quintino Cunha, segundo a denúncia do MPCE.
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Segundo a decisão judicial que decretou as prisões, "há a informação de que o grupo é responsável pela expulsão de moradores e pela prática de homicídios na região, tendo a vítima, no dia anterior ao ocorrido, auxiliado uma pessoa expulsa a se mudar".
Os acusados são:
- Bento Emanuel de Mesquita Moura
- Dyego de Abreu dos Santos
- Francisco Jean Carlos Nogueira Sales
- Thiago Araújo de Sousa
No momento da decretação da prisão, Bento Emanuel, que teria atraído a vítima ao local da morte, já estava recolhido em uma unidade prisional por outra ação criminal.
Já o acusado Dyego de Abreu respondia a outro processo grave, e era monitorado por tornozeleira eletrônica. Mesmo assim, segundo os autos, ele seguia exercendo liderança dentro da organização e autorizava execuções, como a de Mauro Célio.
Francisco Jean também seria uma liderança local do CV no Quintino Cunha, e dava ordem para as expulsões de moradores, além de determinar mortes. Thiago Araújo é apontado como participante em execuções, além de auxiliar a retirar moradores de casas.
Conforme análise dos autos processuais, todo o grupo que teve a prisão decretada possuía antecedentes criminais e até condenações por homicídio, além de serem investigados em outros processos pelo crime de organização criminosa armada.
"Ressalte-se que o grupo denunciado é apontado como responsável por diversos outros homicídios na região, evidenciando a atuação sistemática da facção para impor terror e consolidar seu domínio territorial", disse a denúncia feita pela 4ª Promotoria de Justiça do Júri de Fortaleza.
O Diário do Nordeste entrou em contato com os advogados de defesa de Francisco Jean, Thiago Araújo e Dyego de Abreu.
A defesa de Thiago disse que o acusado recebeu com muita indignação a notícia da denúncia e diz que não conhece a vítima, "que jamais esteve nesse local, e não existem provas de sua participação".
Por nota, a advogada Keltry Gama, que representa Francisco Jean, afirma que "o investigado goza plenamente do princípio constitucional da presunção de inocência, sendo prematura qualquer conclusão acerca dos fatos" e ressalta que o caso está em fase inicial de apuração.
A defesa pontua ainda que acompanha o caso e que adotará todas as medidas "para o completo esclarecimento da verdade".
As demais defesas não responderam até a edição desta matéria.
Vítima foi amarrada e espancada
O homicídio de Mauro Célio aconteceu no dia 2 de março do ano passado. Ele foi atraído para o mangue, onde foi amarrado e espancado, antes de ser morto por disparos de arma de fogo na cabeça.
Mauro era conhecido no bairro por auxiliar moradores em serviços gerais.
Ele teve o corpo jogado em um rio próximo à Rua Baixo dos Milagre, mas acabou resgatado e pelo Samu e levado ao Instituto Doutor José Frota (IJF), onde não resistiu aos ferimentos e faleceu.
A morte da vítima foi decretada pois, segundo as investigações, testemunhou um homicídio na região, e ajudou um morador expulso de casa pelo CV a se mudar, o que teria sido interpretado como uma quebra de regra e afronta à autoridade da facção.
"A ação dos acusados se deu dentro do contexto da punição à vítima devido condutas reprovadas pela organização criminosa, que decide, conforme uma moral torta, quem pode ser espancado como forma de autocorreção. O poder de comando e de ação da facção extrapolou qualquer limite, dado que causou a morte de um ser humano por motivo tão aberrante", apontou o MPCE sobre o homicídio.