Justiça solta acusados de matar duas amigas em Fortaleza após mais de um ano presos

A mãe de uma das vítimas defendeu os acusados.

Escrito por Geovana Almeida* geovana.almeida@svm.com.br
08 de Junho de 2026 - 16:21 (Atualizado às 17:45)
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Legenda: As duas jovens estavam em um veículo Jeep Compass, que foi baleado por criminosos.
Foto: VCrepórter

Os cinco homens acusados pelo duplo homicídio que vitimou as jovens Gabriela Sousa da Silva e Krislla Maria Freire Jorge, ambas com 18 anos na época dos fatos, foram soltos na terça-feira (26).

Após mais de um ano presos, a Justiça do Ceará decidiu pela impronúncia dos réus, que não serão mais julgados pelo Tribunal do Júri.

A decisão foi explicada pelo conceito de "insuficiência investigativa", visto que "inexistem testemunhas oculares" que possam confirmar o envolvimento dos acusados no crime.

Ainda segundo o documento da decisão, "inexistem elementos probatórios autônomos e mínimos aptos a demonstrar os requisitos legais dos tipos penais em referência".
Os acusados foram presos poucos dias após o crime, em datas distintas.

Dentre os investigados que foram soltos estão:

  • Kairo Gabriel Rodrigues Dias, conhecido como "KG";
  • Alison Souza do Nascimento (ex-namorado de uma das vítimas);
  • Francisco Breno Carvalho Lima, o "Fofão";
  • Gerson dos Santos Marques, o "Jefinho";
  • Gabriel Pereira de Sousa, o "Biel".

Após as prisões dos suspeitos, a Polícia Civil do Estado do Ceará (PCCE) deu início a uma longa investigação que se dividia entre duas hipóteses de motivação para o crime: ciúmes do ex-namorado de uma das vítimas ou intervenção de uma facção criminosa que domina a região do Jangurussu.

Relembre o caso

Na noite do dia 25 de março de 2025, as amigas Gabriela Sousa e Krislla Maria decidiram sair para "dar uma volta na cidade" em um Jeep Compass que seria de um estrangeiro com quem Gabriela estava se relacionando.

Em depoimento, o suíço Eduard Hass, de 58 anos, contou que essa não tinha sido a primeira vez que a jovem pegava o carro escondido para sair com amigas.

Gabriela não tinha carteira de motorista.

As duas amigas partiram da casa de Gabriela, no bairro São Cristóvão, e seguiram em direção a uma das praças do bairro, onde o jovem Ícaro César Souza entrou no carro.

A investigação apurou que os jovens teriam passado em alta velocidade em frente à casa da atual companheira do ex-namorado de Gabriela.

Ainda segundo uma testemunha, Gabriela teria "tirado onda" com o ex e ameaçado atropelar as pessoas que estavam na calçada.

Alguns minutos depois, Gabriela teria passado novamente pela casa, onde uma confraternização acontecia.

Em interrogatório, um dos acusados disse que Gabriela inclusive quase atropelou um grupo de crianças que brincava na rua.

Nesse momento, Alison Souza do Nascimento, o ex de Gabriela e pai de sua filha, teria arremessado um pedaço de madeira no para-brisa do veículo.

Depois disso, os amigos de Alison dividiram-se em três motos e começaram uma perseguição ao veículo.

Inicialmente, as investigações apontavam que Alison Souza estava na garupa de uma das motos, mas câmeras de segurança comprovaram que o piloto estava sozinho.

A moto em questão era uma Honda Twister, pilotada por Kairo Gabriel Rodrigues Dias, o "KG". Pilotando a segunda moto, uma Honda Bros preta, estava Gerson dos Santos, o "Jefinho", que levava na garupa Gabriel Pereira, o "Biel".

A terceira moto era guiada por Francisco Breno Carvalho, o "Fofão", que levava um adolescente na garupa.

Várias câmeras de segurança capturaram a perseguição, que acontecia em alta velocidade. A partir desse momento, as testemunhas interrogadas durante todo o processo começaram a dar versões diferentes do que teria acontecido depois.

Carro foi alvejado na "Comunidade do Pesadelo"

Após poucos minutos de perseguição, o carro teria entrado na "Comunidade do Pesadelo", em uma área sem câmeras de segurança.

Nesse momento, o Jeep Compass estava andando em alta velocidade e com os vidros fechados quando foi alvejado com tiros que vinham de diferentes direções.

Gabriela Sousa, que conduzia o veículo, foi atingida por um projétil que atravessou o pulmão esquerdo e o coração, causando uma hemorragia torácica.

Krislla Maria foi atingida por um disparo na cabeça, que causou um traumatismo crânio-encefálico. As jovens foram levadas com urgência ao Instituto Doutor José Frota (IJF).

Uma das enfermeiras informou aos policiais que "Krislla já deu entrada na unidade em óbito, porém Gabriela ainda estava com vida, falecendo em seguida".

O jovem Ícaro César Souza, que também estava no veículo, não foi atingido. Em depoimento, ele contou que Gabriela parou o carro depois de ser atingida, momento em que ele desceu do veículo e correu para casa.

O jovem disse que viu as motos que perseguiam o carro, mas que não tinha certeza se os tiros tinham vindo da mesma direção. Os acusados confessaram a perseguição, mas negaram os disparos.

Segundo um deles, os tiros teriam vindo de dentro da comunidade, pois o carro estaria passando em alta velocidade e com vidros fechados em uma área onde isso é "proibido" pelas facções.

Em interrogatório, o investigado Kairo Gabriel Rodrigues afirmou que o autor dos tiros teria sido "MT", um dos líderes da facção Comando Vermelho (CV) na comunidade.

"MT" foi identificado como Matheus Silva Batista, assassinado um dia depois do duplo homicídio.

A morte do homem e a predominância do CV no local formavam o cenário perfeito para uma morte vinculada à ação de organização criminosa.

O depoimento de uma testemunha sigilosa mudou os rumos do processo

Entretanto, o depoimento de uma "Testemunha X" continuava como uma das únicas provas que ligava os acusados ao duplo homicídio.

A fonte sigilosa deu detalhes do ocorrido, citou os modelos das motos e reconheceu os acusados em fotos.

Um dia após o crime, a testemunha apontou Alison como o responsável pelo ataque, pois ele não aceitava o término do relacionamento com Gabriela, mesmo os dois já estando em outros relacionamentos.

Segundo a fonte, o casal teria se separado após um episódio grave de agressão, que teria motivado Gabriela a abrir um boletim de ocorrência contra o então companheiro.

Em uma audiência realizada em novembro de 2025, a "Testemunha X" prestou novo depoimento, trazendo detalhes do que teria acontecido dentro do carro no momento dos disparos.

A partir disso, a defesa de um dos acusados apontou que a "Testemunha X" seria, de fato, o jovem Ícaro César - único sobrevivente que estava no veículo.

Ainda assim, a Justiça manteve os depoimentos dados por Ícaro como provas materiais de autoria dos acusados.

Além de apontar uma "duplicidade formal de registro da mesma pessoa", que geraria "nulidades" no processo, a defesa pediu também que fosse feito um estudo balístico no carro para determinar os ângulos dos tiros.

O exame não foi realizado, pois o carro já havia sido restituído ao dono, o suíço Eduard Hass.

A mãe de uma das vítimas defendeu os acusados

Por meses, a defesa exigiu que o depoimento da mãe de uma das jovens fosse utilizado como prova testemunhal. Em março de 2026, a mãe de Krislla Maria prestou o primeiro depoimento, quando afirmou que os acusados eram inocentes.

No início do mês de maio, ela foi ouvida mais uma vez, em um interrogatório que durou 37 minutos. Durante o relato, ela enfatizou que os acusados eram amigos de infância de sua filha e que todos cresceram juntos na comunidade.

A mulher contou também que estava em ligação com a filha no momento da perseguição e que ouviu a filha dizer que os acusados realmente estavam perseguindo o carro, mas mesmo assim tinha convicção de que os tiros vieram de outro lugar.

A mãe contou emocionada que ouviu o momento exato dos disparos, quando o carro parou e a ligação caiu. Em desespero, ela foi até o local, mas as jovens já tinham sido levadas ao hospital.

No local do crime, estava Kairo Gabriel Rodrigues, que acalmou a senhora. "Eu me ponho no lugar de todas as mães que estão aí sofrendo pelos filhos que estão sendo condenados sem ter feito nada", contou a mulher.

Em 21 de maio de 2026, a Justiça do Ceará publicou a sentença que impronunciou os réus, concedendo os alvarás de soltura, que foram cumpridos nos dias seguintes.

Quatro dias depois, o Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE) publicou uma manifestação com posicionamentos finais, solicitando que as prisões de três dos réus fossem reestabelecidas.

A 2ª Vara do Júri da Comarca de Fortaleza manteve as solturas.

*Estagiária supervisionada pela jornalista Bruna Damasceno. 

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