Integrantes da facção Nova Okaida no Ceará são condenados a mais de 143 anos de prisão

O grupo, segundo a Polícia, é conhecido por sua periculosidade e pelo uso de armamento de grosso calibre em suas atividades e nas disputas territoriais com grupos rivais

Escrito por
Emerson Rodrigues emerson.rodrigues@svm.com.br
imagem da fachada do Fórum Clóvis Beviláqua
Legenda: Os magistrados da Vara de Delitos de Organização Criminosa de Fortaleza negaram aos réus o direito de recorrerem em liberdade, determinando que o cumprimento das penas se inicie em regime fechado
Foto: Thiago Gadelha

A Justiça do Ceará impôs uma dura derrota à facção criminosa Nova Okaida, originária da Paraíba e em franca expansão no Nordeste, ao condenar sete de seus membros a um total acumulado de 143 anos, 1 mês e 5 dias de reclusão. As penas, que foram unificadas por crimes de organização criminosa armada, tráfico de drogas e associação para o tráfico, confirmam a atuação violenta e organizada do grupo nos municípios cearenses de Ipaumirim e Baixio, na divisa com a Paraíba. 

A reportagem não conseguiu contato com a defesa dos condenados. O espaço segue aberto para futuras manifestações. 

A descoberta de um vídeo publicado no YouTube e no aplicativo WhatsApp, que veiculava uma música fazendo referência à expansão da facção criminosa Nova Okaida para o Ceará, especificamente para o município de Ipaumirim, iniciou a apuração sobre a presença do grupo no estado. 

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Um documento obtido pela reportagem destaca um trecho específico da canção:

“(...) representa os aliados, tu tem que respeitar esse é o crime organizado, quebrada de mil grau dentro de Ipaumirim, se não fechar com a NOVA tá pedindo pra cair, dentro do Ceará a facção expandiu, levantando a bandeira (…) essa é a gestão do Playboy e o do FB, conexão mil grau, tem que respeitar, onde tu chegar a Nova Okaida vai reinar, um salve para o Bil, um alô para o DG, Nego Léo é nós é vera caçador de PCC, alô pro BICUDINHO da tropa de Cajazeiras (…) não posso esquecer um salve pra os irmãos metralhas, e lá na Asa Sul quem manda é a Nova Okaida (…)  

A menção explícita a municípios cearenses (Ipaumirim) e aos líderes locais da facção, como "FB" (Fabricio Gomes Cândido) e ‘Bicudinho’ (Edilson da Silva Vieira), serviu como ponto de partida para as investigações. 

foto montagem da facção nova okaida ceara
Legenda: O grupo divulga vídeos nas redes sociais com "homenagens" aos líderes da organização criminosa

Os trabalhos da Polícia Civil do Ceará (PCCE) ganharam corpo após a prisão em flagrante de uma das integrantes do grupo identificada como Taíse Priscila Maciel Nunes. Natural de São João do Rio do Peixe, na Paraíba, ela teria passado a residir no município de Baixio, no Ceará e estaria traficando drogas na cidade, onde acabou presa.  

Na ocasião foram apreendidos drogas, uma balança de precisão, anotações sobre comércio de entorpecentes e celulares. A análise dos dados telemáticos e bancários obtidos após determinação judicial revelou a divisão de tarefas, hierarquia definida e uso de violência, com atuações coordenadas até mesmo de dentro do sistema prisional. 

Com o aprofundamento das investigações foi possível demonstrar que a facção era resultado de dissidências das antigas facções Okaida e Okaida RB. O grupo, segundo a Polícia, é conhecido por sua periculosidade e pelo uso de armamento de grosso calibre em suas atividades e nas disputas territoriais com grupos rivais como Primeiro Comando da Capital (PCC), Comando Vermelho (CV) e Guardiões do Estado (GDE). 

Detalhamento da atuação dos réus 

Após a conclusão do inquérito, o caso foi remetido para a Justiça. O Ministério Público do Ceará (MPCE) ofereceu denúncia que envolvia um número maior de investigados.  

No entanto, o processo foi desmembrado para que fosse julgado com mais agilidade. A sentença condenatória da Vara de Delitos de Organização Criminosa de Fortaleza, publicada nesta semana no Diário da Justiça, julgou a conduta de sete acusados.  

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Foram condenados Fabrício Gomes Cândido, o ‘Fabinho’ ou ‘FB’; Jefferson Freire dos Santos; Edilson da Silva Vieira, o ‘Bicudinho’ ou ‘Bicudo’; Anderson Luiz de Lima,  o ‘Dandam’; Carlos da Silva Luz, o ‘Aleijado’; Maria Celimar dos Santos, a ‘Mazinha’; e Kerfesson Pereira da Silva, o ‘Kelven’ ou ‘Kef’. Cabe recurso das condenações. 

No entanto, a Vara de Delitos de Organização Criminosa de Fortaleza negou aos réus o direito de recorrerem em liberdade, determinando que o cumprimento das penas se inicie em regime fechado, sob o argumento de que a soltura traria "concretos prejuízos à garantia da ordem pública", dada a periculosidade dos condenados. 

Confira abaixo as penas unificadas e o detalhamento da conduta criminosa de cada um dos sete condenados

Fabrício Gomes Cândido (‘Fabinho’ ou ‘FB’) 

Pena: 23 anos, 1 mês e 20 dias 

Apontado como o "linha de frente" e líder da Nova Okaida em Ipaumirim/CE e Baixio/CE. Exercia posição hierárquica superior, sendo administrador de grupos de WhatsApp da organização. Mesmo preso, articulava o tráfico, prestando contas sobre a comercialização e chegando a fazer chamadas de vídeo com a corré Taíse para conferir a pesagem dos entorpecentes. Foi condenado com a agravante de exercer função de comando/liderança (§ 3º do Art. 2º da Lei 12.850/13). 


Jefferson Freire dos Santos 

Pena: 23 anos e 2 meses 

Fornecedor de drogas para integrantes da facção. Chegava a realizar ligações de vídeo com a corré Taíse para acompanhar a pesagem dos entorpecentes e negociava o tráfico através do WhatsApp. Sua pena foi agravada por ter maus antecedentes, devido a uma execução penal por roubo. 


Edilson Vieira da Silva (‘Bicudinho’ ou ‘Bicudo’) 

Pena: 20 anos, 5 meses e 15 dias 

Exerceu voz de comando/liderança na organização criminosa, ao lado de Fabrício. Foi citado na música da facção. Participava e administrava grupos de WhatsApp da facção. Sua influência foi evidenciada quando interveio em uma negociação sobre a punição (castigo) de uma adolescente, pedindo a Fabrício que o castigo fosse aplicado por uma mulher. Foi condenado com a qualificadora de ocupar posição de comando/liderança. 


Anderson Luiz de Lima (‘Dandam’) 

Pena: 19 anos e 1 mês 

Integrante do grupo que, mesmo estando preso na Paraíba (na mesma unidade que Fabrício), continuava envolvido no tráfico de drogas em Ipaumirim. Conversava sobre a venda de entorpecentes e a chave PIX utilizada para depósito do dinheiro oriundo do tráfico estava cadastrada em seu nome. Recebeu 23 transferências bancárias (PIX) de Fabrício Gomes Cândido para movimentação financeira da facção. 


Carlos da Silva Luiz (‘Aleijado’) 

Pena: 19 anos e 1 mês 

Membro da facção (Grupo "IPAUMIRIM – BAIXIO – NOVA OKD"). Era responsável por realizar cobranças para a facção, utilizando a conta bancária de sua irmã para efetuar as transferências. 


Maria Celimar dos Santos (‘Mazinha’) 

Pena: 19 anos e 1 mês 

Companheira de Geraldo José Leite (DG/Dadinha), outro integrante preso. Atuava na logística e movimentação financeira do tráfico, inclusive recebendo Pix com a descrição "BRANCO E CHÁ". Sua conta bancária recebeu movimentações altas e ela chegou a encaminhar a chave Pix de Geraldo, seu companheiro, para que a corré Taíse enviasse dinheiro. Foi condenada a iniciar o cumprimento da pena em regime fechado, mas teve mantida sua prisão domiciliar. 


Kerfesson Pereira da Silva (‘Kelven’ ou ‘Kef’) 

Pena: 19 anos e 1 mês 

Estava envolvido com o tráfico de drogas na área. Ele tinha uma dívida de R$ 32 mil (32 mil) com Jefferson (outro integrante) por fornecimento de entorpecentes, e tratava diretamente com Taíse sobre a quitação dessa dívida através da venda de mercadoria. 

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